A cruz da criação
Eu ilustro pra sobreviver há 5 anos, desenho desde os 6 anos de idade, minha vida inteira foi ao redor da arte, e, em todos os meus momentos, felizes ou tristes, a arte me acompanhou, seja como válvula de escape do mundo cotidiano ou como um desses motivos de felicidade ou tristeza. O que eu quero falar hoje são alguns dos meus pensamentos sobre o peso que o artista leva em ter que viver da criação; vale ressaltar que eu estou falando exclusivamente da minha experiência com arte, que é a ilustração e que, talvez, me achem meio biruta, porque até mesmo eu considero que esses pensamentos são meio desconexos com a realidade, mas tentem embarcar nessa minha visão da arte.
Todas as pessoas que eu conheço que vivem para a arte sofrem de inúmeros problemas interiores, sejam por pressão social da profissão que gera inúmeras comparações, por pressão interna ou até mesmo a pressão da própria arte, viver como criador artístico é como o conto da pedra de Sísifo para mim, só que com alguém te espetando com uma rapieira no coração enquanto você sobe a pedra, só pra ver ela descendo de novo e retomar o processo de criação.
Mas esse é exatamente o ponto onde eu queria chegar, todo esse sofrimento mental, essa cobrança e esse estigma de que você nunca é bom o suficiente, é como se fosse uma maldição que você carrega por toda criação que ousa fazer, uma maldição que quem cria sofre e vai ter que carregar pra sempre, como uma cruz. Independentemente de você acreditar numa divindade ou não, mas suponhamos que exista, o quão ridículo seria ver sua criação querendo brincar de criar coisas e se comparar a você? Seria cômico, você está comparando a criação de uma obra com a criação de um universo. Mas e se essa divindade estivesse brincando com todos que ousam criar também? Seria essa a maldição da divindade criadora? Eu acredito que sim. Eu acredito que nós como seres humanos nunca seremos plenos criadores de coisas perfeitas, afinal somos uma espécie que aprende com os erros e sabemos que só se evolui errando. E essa cruz que a gente carrega, a dificuldade de fazer uma criação boa o suficiente, de todos os dias sentar e planejar uma criação nova e se torturar quando as coisas não dão certo de forma fácil e suave, é a nossa cruz da criação. Então, onde está o prazer nisso tudo? Por que continuar desenhando, estudando pra melhorar, indo atrás, refletindo, se é tudo tão terrível? A resposta é simples: a arte vive pro artista e um artista sempre vai ser um artista. Mesmo que ele pare, ele vai continuar tendo ideias, remoendo essas ideias, querendo colocá-las no papel, agoniando e angustiando até que consiga um lápis e uma folha, esse despejamento de ideias sobre formas e cores é o prazer de se criar. Mas, quando você ousa desafiar a criação e forçar a fazer algo que não está na sua cabeça porque precisa terminar uma obra específica por trabalho, é quando você desafia as leis da natureza da criação e a maldição vem a tona. É como se, as ideias que você tem no dia a dia, que apenas pintam na sua cabeça, sejam um estímulo dessa divindade pra que você pense que não é tão ruim assim viver para criar, porque afinal, é tão prazeroso criar algo que você já tinha em mente, mas é como se fosse uma grande armadilha, só pra zombar de você no futuro pelo seu fracasso em se forçar a criar algo que você não tinha pensado previamente.
Essa é a grande cruz que cada um tem que arrastar, talvez seja mais leve para alguns, talvez exista uma forma de aprender a carregar, mas até eu descobrir, eu vou continuar empurrando a minha. Até o fim da colina.
