Saudade em preto e branco

É possível que esta carta lhe pegue de supetão tal qual a notícia do dia me pegou. É bom, então, que se sente. Não é nada trágico. Mas é que falaremos de morte.

A um despretensioso “oi, como vão as coisas?” que mandei para o meu pai, recebi como resposta um inesperado “papai faleceu agora há pouco… estou tentando pegar um vôo para lá”. E morte é tipo visita que sabemos que vai chegar, mas não sabemos nunca a hora de pôr a massa do bolo no forno e a chaleira para apitar.

Tão logo pude, me meti num avião. Coincidentemente, uma conexão de vôos com tio e tia a bordo. Duas horas e vinte como expectador da rememoração de passados divertidos e de uma saudade já bonita de ouvir, sentado na poltrona ao lado.

Saudade é um dos sentimentos que mais deram cor e forma à minha relação com vovô. Afinal, sempre moramos muito longe e, com as poucas visitas, ele se formava em meu imaginário por meio dos telefonemas esporádicos que meu pai e ele trocavam. Conversas que rodavam e acabavam parando em Música e violão.

Por falar neles, por muitos anos, se eu parava para pensar em meu avô, a figura que vinha à mente era a dele, sentado em alguma cadeira, atracado ao seu violão por horas. Dedilhando aquelas cordas com ciência e sibilando, a lábios quase cerrados, uma letra qualquer, que parecia levá-lo, de olhos fechados, para um passado de poeiras avermelhadas, como o Cerrado, ou acinzentadas, como o Sertão. “Eu pisei na folha seca / vi fazer chuá, chuá…”

Durante os anos de moleque meus e da minha irmã, meu pai tinha lá suas questões com o seu pai. E como consequência, eu e ela crescemos sem grandes laços com o velho Cardosão. Vovô era uma figura quase mítica: distante geograficamente, de poucas visitas possíveis. Com isso, a notícia assusta, comove, mas não me torna protagonista de um esperado sofrimento. E isso é tão estranho… me sinto estrangeiro na morte do meu próprio avô.

Frente à morte pela primeira vez na vida, as cores assustam. É tudo tão diferente do que vemos na vida. A morte é dessaturada. A morte são as cores desejando apenas voltar ao preto e branco.

É isso… é um sopro…

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