Que saudades do Jorginho

hiago peixoto
Jul 23, 2017 · 9 min read

I

Faziam anos que eu não via o Jorge. A gente trocava umas cartas aqui e ali desde que ele foi embora pra Portugal, ele sempre mandava beijo pra Maria e pros meninos, que hoje estão mais crescidos que nós. Eu respondia perguntando como estava a vida do outro lado dessa ruma de água que separa a gente e ele sempre falava até os mínimos detalhes. Falava até da diferença de cor do céu, como tudo parecia um pouco menos saturado, tons mais frios. Meu bom Jorge dizia que todos os dias de inverno parecia uma manhã no sítio lá de Garanhuns. “Das duas uma: ou o céu desceu, ou a gente que subiu demais e agora estamos aqui, com uma névoa que não deixa ninguém ver quatro palmos além das fuças”.

Foi em 1970 que ele decidiu que o Brasil não era o canto dele. Disse que ia embora e foi mesmo. Nunca se apegou a ninguém, nem casou, nem teve filho ou filha. Seu negócio sempre foi a boemia. Tomar uma cervejinha acompanhada de um bom petisco era o que fazia de melhor. Seu habitat era a praia durante o verão ou a varanda de seu apartamento, no inverno, quando o Recife ficava todo alagado. Sempre observava a chuva cair com algum prato que ele inventava ou que pegava de alguma revista dessas chiques que ele assinava.

Depois que ele foi embora de vez mesmo, eu penei pra poder me adaptar a essa rotina de ausências. Ir aos jogos do Sport sozinho, ligar o rádio pra ouvir o jogo sem ninguém pra torcer junto, tomar cerveja na praia ou na varanda sem ouvir as piadas do Jorge me fez achar tudo muito chato. Virei um chato de galochas no inverno e de chinelos no verão. Escrevia pra ele falando essas coisas, dizendo que nem mesmo a Maria e os meninos me aguentavam mais. Ele só respondia rindo e falava que ia me visitar nas férias. Dizia que era pra eu falar isso pro pessoal aqui de casa, tava vendo a hora a Maria começar a mandar cartas dizendo que era pra ele voltar pra tomar conta de mim de tanto que eu tava reclamando.

II

Lembro até hoje qual foi a primeira recordação lusitana que o Jorge me mandou: um cartão postal de Porto com uma receita no verso. “Francesinha”, o nome do prato. Disse que foi a primeira coisa que comeu quando chegou por lá e que na hora lembrou de mim. Queria porque queria que eu fizesse no Recife e contasse pra ele qual tinha sido a minha experiência, como sempre fazia toda vez que cozinhava algo diferente pra gente.

Ele tinha um jeito de ser doce e sem vergonha ao mesmo tempo que fascinava todo mundo. Podia falar as coisas mais absurda que nunca teria o mesmo peso se, por exemplo, eu falasse. No cartão, esse da receita no verso, ele dizia pra eu “comer a francesinha como se fosse o último dia da sua vida” — vê que safado — , mas que gostaria de dividir comigo essa refeição, ou como ele costumava dizer: “sensação”, então pediu pra que eu cozinhasse no próximo domingo, às 19h, que era na hora do jogo que costumávamos ouvir juntos. Pediu pra eu deixar o rádio ligado e imaginar nós dois na varanda, ouvindo o jogo, comendo, bebendo, conversando e rindo.

Comecei a rir e a marinar os olhos. Lembrei de quando batia em seu apartamento, sempre com uma sacola de compras pra ele preparar nossos tira-gostos, um mais gostoso que o outro. Toda vez, quando eu estava prestes a sair de casa, ele sempre ligava pra falar: “tá perto de sair, Léo? Vê só: aproveita que é caminho e dá uma passadinha no mercado, aquele perto da sua casa, o da Socorrinha, que têm umas verduras mais frescas do que o daqui de perto, e traz essa lista…”. Toda vez, desse mesmo jeitinho. Eu poderia interromper todas as vezes e falar que já sabia, que era só pra ele me falar o que era preciso comprar que eu comprava, mas sempre amei como ele conseguia repetir a mesma frase e sempre soar exatamente do mesmo jeito.

Quando era a hora de cozinhar, tomava de conta do fogão com uma calma e atenção que me deixava impressionado, principalmente com os movimentos dele naquela cozinha. Parecia até poesia. Tudo contribuía um pouquinho. Se era de manhã, a luz do sol batia nas janelas de vidro, em cima da pia, e iluminava tudo que ele tava fazendo; se era a noite, a luz amarela do seu apartamento fazia com que até as sombras ganhassem um pouco de vida. Eu ficava só sentado na mesa, ouvindo música, observando esses detalhes, cortando as cebolas e chorando, tomando alguns goles de cerveja, tudo enquanto xingávamos Deus e o mundo a cada jogo do Sport Clube do Recife, a cada título perdido — jejum que só acabou em 1975 e que, infelizmente, não pude comemorar com ele.

III

Quando foi no domingo, já deixei tudo preparado. Quase tudo, na verdade, porque esqueci de comprar aquele molho piripiri, que é um apimentado. Tive que sair cedo porque, enfim, domingo você sabe como é, as coisas fecham cedo, ainda mais as feiras, que é onde tem esse tipo de molho e onde têm os portugueses que conhecem esse tipo de molho.

Tentei seguir até a ordem do modo de preparo, colocando cada item na panela como estava na lista pra nada dar errado. Primeiro tinha que refogar a carne no azeite com cebolas, alho e uma folha de louro, depois era só jogar o vinho, o molho de tomate, a cerveja e ajeitar o sal. Tinha um jeito de fazer mais rápido, o Jorge falou, mas ele disse que era pra ficar mexendo, em fogo baixo, durante uma hora, mais ou menos, até tudo ficar bem reduzido, bem grosso e cheiroso. Soltou aquela piadinha que a gente já espera dele: “as francesinhas mais difíceis são as que mais valem a pena”.

O molho era a parte mais difícil, mesmo. O resto era só montar: pegar dois pães, a linguiça, o bife, o presunto, a mortadela e grelhar tudo até ficar bem douradinho, depois é ligar o forno, colocar o queijo por cima e esperar derreter. Nesse momento, fiquei lembrando da classe que jorge tinha ao abrir, colocar e retirar o que quer que ele colocasse nesse forno. Ele não foi formado nessas coisas de gastronomia e nem nunca trabalhou em restaurante, era natural dele. Lembrei até de quando a gente ia na padaria juntos, logo de manhãzinha cedo, e ele pegava um pedacinho do que ele chamava de “bundinha” do pão. Era bonito, charmoso. Ria o tempo todo.

Enquanto ficava bêbado e esperava dar o bipe do forno para experimentar a receita portuguesa, conversava sozinho, imaginando que ele estaria ali, me ouvindo, como ele disse que era pra eu fazer. Não quis deixar as palavras voarem varanda à fora e peguei uma folha de papel e uma caneta e comecei a escrever.

Meu bom e velho Jorge. Que saudades que eu estou de você. Prometo que esta carta não será de reclamação, tal como foram as outras. Neste exato momento estou sentado numa varanda, que não é a sua, tomando a cerveja que tu gosta, esperando sair do forno a receita que tu me mandasse. Nem imagina o quanto eu gostaria de te ter aqui, ao meu lado, ouvindo o que eu tenho pra falar e o disco do Chico que comprei na feira semana passada. Uma poesia de 30 minutos. Pareceu uma reclamação, mas não é, é só saudade, mesmo.

A Maria e as crianças foram pra missa. Você sabe como ela é. Tem esse costume chatíssimo de ter que reservar o domingo pra ficar em pé, ouvindo o eco da voz do padre e abaixar a cabeça enquanto come farinha com água. Fingi que não estava me sentindo disposto apenas para fazer a receita que tu me mandasse e, claro, poder beber sem ninguém me enchendo a paciência. Como já disse antes, tu sabes como ela é.

Estava aqui rindo, lembrando quando Franscisco foi à praia pela primeira vez. Tu lembra? A gente que é do Recife não tem essas memórias de primeira vez na praia porque ela sempre esteve ali, presente o tempo todo. Ele chorou tanto quando abriu os olhos na água salgada, tadinho.

Mas voltando para a receita: lembrei de você em cada ingrediente. Fui comprar tudo no mercadinho da Socorrinha, que você sempre dizia que tinha as verduras mais frescas da cidade. Só fui na feira mesmo comprar o piripiri. Procurei algum feirante português só pra poder tirar dúvidas com ele sobre o molho, sobre a quantidade necessária pra francesinha ficar apimentada, mas não muito. Tu sabes que eu não sou muito apreciador de pimenta. Ele disse, e tu já deve saber, que o piripiri é levinho. Quando ele abriu a boca e soltou aquele sotaque forte, na hora me veio uma vontade de gargalhar imensa porque imaginei tu, com o mesmo sotaque. Espero que tu não perca o chiado do Recife, eu e você sempre comentamos o quão lindo e poético é.

O forno apitou e, Jorginho, só pelo cheiro, já valeu a pena. Gostaria de fazer que nem as menininhas apaixonadas de antigamente e perfumar essa carta com o cheiro que está saindo do forno, mas infelizmente não é possível. É provável que tu já saiba qual é o cheiro, mas gosto de imaginar que a maresia do Recife é um tempero à mais que tu não tens aí. Desculpe lhe fazer inveja dessa maneira, mas estou tão orgulhoso de mim mesmo por ter feito essa prato que só queria te agradecer enviando uma quentinha.

Agora espere aí que irei experimentar.

Eu me esbaldei de comer. O prato era enorme e estava, de fato, uma delicia. Comecei a pensar nas sensações que tive a cada garfada pra poder descrever ao meu amigo, lhe dizer cada pensamento que tive.

Me perguntei se em Portugal existia pão francês e fiquei imaginando se ele estivesse comigo, o que ele iria falar se me ouvisse divagando assim, em voz alta. A imagem que me veio foi dele com a cara fechada, como quem processa a informação bem devagar e depois lacrimejando de tanto rir, falando que eu era muito besta pra pensar nessas coisas.

Comer pão com garfo e faca foi outra coisa que estranhei. Por aqui — e ele sabe disso — , quem come pão com garfo e faca é gente fresca. Mesmo esse sendo um sanduíche enorme, eu ainda me senti estranho, mas pensei na classe, no charme que é comer isso nas ruas portuguesas, pedindo uma francesinha com aquele sotaque forte e tomando vinho como se fosse água.

A verdade é que tudo que senti só me fazia pensar em como ele reagiria se estivesse comigo. Antes, eu só cortava as cebolas, a mágica mesmo era dele, mas dessa vez quem fez fui eu. Eu sei que o que causou a picancia foi o molho de piripiri, mas se fosse o Jorge preparando, ele falaria como esse molho foi feito, curiosidades de onde surgiu, que nem o cartão postal que ele enviou com a receita, falando que esse prato foi inspirado nas mulheres francesas, quando um morador do Porto foi pra Paris.

Deixei para terminar essa carta só depois de comer a francesinha, assim posso agradecer com fundamento, de bucho cheio e ainda te falar o que senti, como pedisse. Mas sabe, Jorge, só senti saudade. Espero que tenha tu também tenha feito a sua francesinha agora, como tu falou no cartão postal, e que tenha se satisfeito como eu me satisfiz, mas a graça de comer isso tudo sem sua presença, aqui, ao meu lado, se perde. Especialmente quando estamos falando de comida. A tua comida.

Te amo, meu amigo. Espero te ver em breve.

IV

Lavei os pratos, esperei o jogo acabar, desliguei o rádio, botei a carta em cima da mesinha e tranquei a casa.

Sentado no escuro, olhava para além daquela varanda, via aquele céu escuro, tentava imaginar a distância entre um ponto e outro, no silêncio.

Levantei, fui pro quarto, puxei o lençol da cama e deitei. Mais um dia de saudade.

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