Quintais e mamões

Eu já vivi em muitas casas. A gente, aqui em casa, já chegou a se mudar umas vinte vezes, eu acho. Tanto de cidade, como de casa, mesmo.

Dessas casas e apartamentos, as lembranças mais vividas que tenho são das manhãs. Todas as manhãs, pra mim, eram especiais — até hoje, na verdade. Eu sempre amei tomar café da manhã, mesmo quando eu tentava seguir os passos da minha irmã mais velha, que odiava acordar cedo, odiava o café da manhã e odiava banana e mamão, frutas indispensáveis na nossa mesa — logo, eu tinha que odiar também e acabava fazendo sempre um chilique, junto dela, quando nosso pai recebia a gente na mesa com vitamina da banana e mamão.

Acho que o ano era 99. Eu tava perto da 3ª série, não tenho certeza, mas nessa casa tinham pés de mamão. Era engraçado ir no quintal e sentir o clima e a iluminação que só as 6h30 da manhã podem oferecer e olhar pra cima, ver aquelas árvores enormes, cheias de frutas. Eu achava muito curioso como tinha tanta semente dentro daquilo. Quando descobri que era da semente que as árvores cresciam, fiquei indignado como lá em casa só tinha três pés de mamão, já que em cada mamão tinha aproximadamente duzentos milhões de sementes.

Geralmente era no quintal mesmo que meu pai enfiava a vitamina pela minha goela. Ele dizia que era pra deixar a gente mais forte e saudável. Eu adorava, confesso, mas sempre me fazia de difícil e sempre acabava rindo depois. Meus pais também. Eu sempre me diverti com as contradições do cotidiano.

Nessa mesma cidade, a gente se mudou uma outra vezes, tinha uma que tinha um pé de acerola. Ela tinha um quintal maior, mas não tinha cimento no chão, era na terra mesmo. Esses dias a gente foi visitar essa casa de novo que agora é de um amigo do meu pai. A casa tava toda diferente, mas o pé de acerola continuava lá. Fico me perguntando o quanto de acerola aquela árvore já deu. Eu lembro que naquela época era impressionante a quantidade de frutinhas vermelhas que a gente tinha na geladeira. Meu dever da casa era basicamente esse: catar acerola do chão. Eu me sentia o próprio desbravador das acerolas perdidas e sempre imaginava que a bacia cheia era tipo um baú de ouro.

Essas, eu acho, foram as únicas casas que a gente morou que tinham pés de alguma coisa. Tudo começa a ficar um pouco mais chato quando não tem mamão pra comer nem acerola pra catar. Lembro quando fomos morar num apartamento pela primeira vez. Foi em pernambuco. Era legal ter que subir escadas pra chegar em casa. Pra uma criança, era tipo a toca do Batman, ou sei lá, no mínimo algo secreto, afinal, tinha uma passagem pra chegar em casa. Um meio.

Mas, surpreendentemente, são dessas casas mais recentes que tenho menos lembranças. Não que tenha acontecido coisas ruins, mas foram quando começaram a acontecer coisas ruins, que são normais, afinal, a gente tá falando da vida aqui. Quando a gente começa a se preocupar com o tempo, tudo começa a piorar.

Claro que eu lembro de uma cozinha nossa em Custódia, Pernambuco, que era enorme, e da garagem em Salgueiro que cabiam uns 5 carros, mas não é nada significativo. Não tinha mais meu pai forçando a gente a comer banana toda manhã, nem minha mãe fazendo tudo com mamão pra não deixar estragar, nem sucos de acerola todos os dias no almoço.

Agora só tem preocupação e o sentimento de necessidade de um escape — cervejas, beques, saídas. A vida não deveria precisar de um escape. Bananas, mamões, acerolas e famílias deveriam ser suficientes.

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