Tédio, tédio, tédio e etc.

O tédio é importante. Não por causa daquele mito que estimula a criatividade e que as maiores invenções do mundo surgiram por causa de pessoas entediadas demais. Isso também pesa na hora de assumir que o tédio é importante — apesar de achar que isso é mentira — , mas não são as coisas que saem do tédio que importam, de fato, e sim o que acontece dentro da gente quando ele aparece. Tipo esse texto. Tipo você vindo parar aqui, lendo de maneira dinâmica, sem prestar muita atenção nas palavras. Seu imbecil. Viu? Ninguém nota.

Eu não sei, exatamente, se o tédio é uma doença, um sentimento, ou uma benção. Na verdade, não acho que seja nada. É algo indefinido que surge, especialmente, num domingo quente. Precisamente num domingo quente enquanto a casa está vazia e a rua lá fora silenciosa. A gente vai de um lado pro outro, abre duas abas de cada rede social (repetidas mesmo), fora os cliques no botão de desbloqueio do celular, e espera as notificações aparecerem, mesmo não tendo postado nada em duas semanas.

Mas a tarde passa devagar. O universo inteiro tá entediado. Ninguém posta uma foto que presta no Instagram pra gente invejar — a busca por outro sentimento é um sintoma do tédio — , o Tumblr e o Pinterest se tornam irreais demais, os grupos de Whatsapp, mesmo os que falam muito e que estão silenciados na opção 1 ano, também estão quietos — e, pior: fazem você se sentir um imbecil por comentar algo de ontem com três “kkk” no final de cada frase. Nem pornografia, nessas horas, dá um jeito.

Acho que foi por causa disso que Deus falou pras missas serem aos domingos. Não que uma missa vá melhorar o tédio, mas pelo menos é dá um objetivo pra família tradicional cristã: comer pizza quando o padre da a benção final. Não é essa a principal função da missa?

Mas eu acho que a razão do tédio é maior do que esse incomodo passageiro. O tédio é quando a gente realmente não vê razão em viver. Não tem nenhum motivo. É como se o nosso próprio corpo, nossa própria mente, tivesse cansado da gente, da nossa vida medíocre. A gente se vê tão pequeno, tão sem importância — especialmente quando ninguém responde no Whatsapp mandando três “kkk” — que nem ficar deitado ou dormir resolve.

É como se fosse uma passagem de tempo, algo que todo mundo, por mais incrível que seja a vida, vai passar e passa. É quando a gente se permite ser chato pra cacete com a nós mesmos, é quando a gente não precisa dar explicação, é quando a gente não precisa, de forma alguma, demonstrar educação, fazer sala, ser sociável. É quando a gente tira o peso do “gostar”. Gostar da si mesmo, gostar da vida, do corpo, da alimentação, do comportamento. No tédio a gente fica livre de todas as obrigações sociais que nós mesmos inventamos e isso, meu amigo, é libertador — mesmo envolvendo Faustão, missa e pizza.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated hiago peixoto’s story.