A triste realidade na ficção de The Handmaid’s Tale

Ícaro Castro
Jul 20, 2017 · 8 min read

Indicada a 13 prêmios Emmy, The Handmaid’s Tale é uma das séries mais comentadas do ano. Num futuro distópico, a humanidade enfrenta uma crise e vê sua população diminuir e suas mulheres ficarem inférteis. Sendo assim, todas as mulheres ainda férteis são perseguidas e escravizadas, com o objetivo de gerar filhos para a nação. Muita gente questionou a probabilidade de uma sociedade como a demonstrada na série. Sendo assim, aqui estão eventos históricos e problemas sociais atuais que possuem uma assustadora semelhança com a série baseada no livro de Margaret Atwood.

  • CRIANÇAS TIRADAS DE SEUS PAIS PARA SEREM ADOTADAS POR OUTRAS FAMÍLIAS: Na Irlanda, jovens mulheres “punidas pela imoralidade” foram mantidas em condições próximas à escravidão e viram seus filhos serem levados para "adoção" em vários lugares do mundo, sendo duas mil dessas crianças para os Estados Unidos. Na Austrália, nos anos 70, crianças recém-nascidas dos povos nativos foram legalmente levadas embora para que fossem adotadas por outras famílias. Nos EUA e Canadá, crianças filhas dos ameríndios também foram levadas embora com a desculpa de que seriam educadas e voltariam. Nunca voltaram. Na série, é o que acontece com Hannah, filha de Offred. Em uma entrevista ao Los Angeles Times, Margaret Atwood menciona que, durante a ditadura na Argentina no século XX, era “comum” pessoas serem jogadas de helicópteros como punição. Isso mudava quando se tratava de uma mulher grávida: esperavam que o filho nascesse, pegavam a criança, enviavam para outra família e, só então, a mulher era jogada do alto de um helicóptero.
  • GRAVIDEZ FORÇADA: Em The Handmaid’s Tale, as mulheres férteis que se recusam a se tornarem aias são mandadas para trabalhar (e morrer) nas tais Colônias – ou pior, como o que aconteceu com a Janine.
    Em 1966, o então presidente da Romênia decretou que todas as mulheres deveriam ter cinco filhos. Uma polícia secreta foi instalada nos hospitais, mulheres eram submetidas a testes de gravidez mensalmente e meninas passaram a ter aulas de educação sexual focadas nos benefícios da maternidade. Como resultado, a população aumentou, porém a ação – chamada de Decreto 770 – gerou a morte de nove mil mulheres e cem mil bebês indesejados.
  • MUTILAÇÃO GENITAL FEMININA: Na série, é usada como punição para as aias que são lésbicas, chamadas de “traidoras do gênero”. Na vida real, estima-se que 140 milhões de mulheres já sofreram mutilação genital. Em algumas culturas, funciona como um “ritual de passagem”. No Reino Unido, a prática foi proibida em 1985, mas, aparentemente, isso não impede que vinte e três mil mulheres estejam em risco.
  • SERENA JOY: Especula-se que Serena Joy é inspirada em Phyllis Schlafly, uma defensora da “mulher doméstica” que começou sua carreira política em 1964, com a publicação de seu primeiro livro “em favor da família”. Phyllis, uma forte opositora do feminismo, acreditava que mulheres não deveriam se envolver com política e que seu trabalho era em casa. Em 1967, Phyllis concorreu a Presidência do National Federation of Republican Woman. Seus críticos disseram que ela, como uma mãe de seis filhos, não deveria se envolver com política e Schlafly perdeu as eleições. Em The Handmaid’s Tale, há uma cena em que o Comandante Waterford diz “Você sabe como é a lei” e Serena responde “Eu sei, eu ajudei a escrevê-la”. Serena, assim como todas as mulheres, perdeu a participação política que almejava – e ela carrega parte da culpa.
    *Para deixar claro, a vida política de Schlafly não acabou com a derrota. Ela fundou uma empresa, na qual manteve-se no cargo de CEO até a sua morte, em setembro de 2016. Para muitos, Schlafly é um símbolo do feminismo que tanto lutou contra.
  • O ASSASSINATO DE ERNST VOM RATH E A MANIPULAÇÃO COLETIVA: Em 7 de Novembro de 1938 o jovem judeu polonês Herschel Feibel Grynszpan assassinou com um tiro o diplomata alemão Ernst Vom Rath em Paris. Herschel agiu sozinho, e, segundo ele mesmo, para vingar os doze mil judeus (incluindo seus pais) que foram presos e tiveram sua propriedade roubada. O Governo da Alemanha, porém, disse que Herschel fazia parte de uma conspiração judia contra a Alemanha e usou isso como justificativa para uma série de ações antissemitas, incluindo a Noite dos Cristais, quando forças paramilitares nazistas atacaram judeus que viviam na Alemanha. É parecido com o “método” de Gilead para assumir o poder: após um atentado terrorista, Gilead ‘falsifica’ mais três ataques contra o governo dos EUA e suspende a Constituição com um discurso de que é temporário, é melhor para a nação.
  • Outras similaridades com o regime nazista:
  1. Em Gilead, as mulheres foram divididas em férteis e inférteis. Nos campos de concentração, os judeus eram divididos entre os que poderiam trabalhar e os que não poderiam
  2. Assim como as mulheres foram proibidas de trabalhar e tiveram suas posses confiscadas e transferidas para os maridos, na Alemanha nazista os judeus foram proibidos de possuir bens. Na Noite dos Cristais – já mencionada acima – foram 91 mortos.
  • CERIMÔNIA: A mulher deve permitir relações sexuais com o marido sempre que estiver “apta”. Parece Gilead, mas é o que acontece legalmente no Iêmen.
  • MULHERES IMPEDIDAS DE ESTUDAR: Segundo a ONU, mulheres sofreram agressão em 70 países por quererem estudar. Em alguns casos, o impedimento do acesso ao conhecimento é causado pelo medo de que menina perca sua “matrimonialidade”, o que gera um efeito cascata que vai desde casamento infantil forçado e gravidez precoce até exploração sexual trabalhista. As agressões também são direcionadas aos pais e professores. Um caso famoso é o de Malala Yousafzai, a jovem afegã vencedora do Nobel da paz que levou um tiro dos talibãs apos descobrirem que ela mantinha um blog secreto contando sobre seus dias no regime extremista e como eles proibiram as meninas de irem à escola.
  • HOMOSSEXUALIDADE CRIMINALIZADA: Em 73 países há a punição para membros da comunidade LGBT, na série, chamados de traidores do gênero. Em 13 deles, há pena de morte. É chamada "homofobia de Estado". No relatório das Nações Unidas, o Brasil é colocado como um dos melhores países para alguém da comunidade LGBTQ+ viver, mas vale lembrar que Constituição não criminaliza homofobia e há um índice altíssimo de crimes de ódio contra membros da comunidade LGBTQ+, em especial aos transgêneros: um é morto a cada vinte e oito horas.
  • MORTE COM APEDREJAMENTO: Em um dos momentos mais épicos da season finale, vemos que, após tentar suicídio, Janine é condenada à morte por apedrejamento. É difícil acreditar que isso ainda aconteça em pleno 2017, mas em vários países é essa a punição para mulheres que cometem adultério. O Reino Unido já concedeu asilo a uma princesa saudita em 2009. A princesa seria fuzilada (o fuzilamento substitui o apedrejamento para membros da família real) por ter engravidado de um britânico fora do casamento. Na década de 1980, a princesa Misha’al bin Saudi foi executada por adultério junto com seu amante.
  • CULPABILIZAÇÃO DO ESTUPRO: Numa dramática cena da série, ainda no local de treinamento chamado das aias, o Círculo Vermelho, uma aia que foi estuprada é colocada no meio de um círculo formado pelas “companheiras” e todas as outras são obrigadas a dizer que a vítima era a culpada. Não é raro, ao abrirmos os famigerados comentários de portal, encontrarmos falas do tipo.
  • MULHERES FORÇADAS A USAR DETERMINADOS TIPOS DE ROUPA: Em Gilead, as mulheres usam uniformes que indicam sua função na sociedade: as Aias usam vermelho, as Marthas usam cinza, as Tias vestem marrom e as esposas azul. No Irã, desde que a República Islâmica do Irã assumiu o poder após a revolução de 1979, todas as mulheres são obrigadas a usar o hijab. (GENTE SE AS CORES DAS ROUPAS ESTIVEREM ENTRADAS ME DESCULPEM EU SOU DALTÔNICO)

Outros países com práticas que tornam a mulher submissa:

- No Congo e nas Bahamas, se o estupro for cometido pelo marido da vítima, não é um crime;
- Na Rússia, há uma lista de empregos que a mulher não pode exercer;
- No Congo, a lei é específica ao dizer que o homem é o chefe da casa e, portanto, a mulher deve obedecê-lo;
- Na Arábia Saudita mulheres não podem dirigir.

Outro problema que as mulheres ainda sofrem é a desigualdade salarial, quando têm seus rendimentos mensais comparados com os dos homens. Uma pesquisa feita pela agência de empregos Catho revelou que as mulheres ganham até 58% menos do que os homens em cargos operacionais e 51% para especialistas graduados.


Leia também:


Já dá pra substituir ISSO É MUITO BLACK MIRROR por ISSO É MUITO THE HANDMAID’S TALE

Blessed be the fruit. Under His eye.

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