Eisenman e a História
Por Giuseppe Strappa, em Corriere della Sera, 11 de maio de 2005.
Tradução por: Higor R. da Costa

Na já nutrida série de entrevistas, com as quais o “Corriere” interroga ilustres arquitetos estrangeiros sobre o futuro de Roma, o parecer de Eisenman merece uma consideração particular.
De fato, o arquiteto de Newark não é somente portador de uma ideia extrema da contemporaneidade, mas seu método de trabalho, na época da internet e da globalização, propagou-se rapidamente por toda parte, dando origem a uma verdadeira maniera,¹ ao “projeto ‘à la Eisenman’”. Paradoxalmente, a sua figura intelectual é, ao mesmo tempo, expressão de uma vanguarda e exemplar de uma acepção difusa da arquitetura contemporânea.
Em Eisenman — convicto apoiador da necessidade de construir obras contemporâneas no centro histórico—, além disso, parecem se reconhecer as necessárias qualidades de atenção à história e rigor projetual.
Mas as palavras, em arquitetura, mormente geram equívocos, e é necessário compreender o sentido dos termos. Porque a história que Eisenman propõe a estudantes e epígonos é aquela [história] fantástica do Campo Marzio de Piranesi,² que transforma a antiga igreja dos templários, S. Maria do Priorado, num emaranhado de símbolos misterioso, hermético, perdido sobre o [monte] Aventino.
Não por acaso, nas obras recentes de Eisenman reconheceram-se uma componente esotérica e iniciática — [com] a influência da Kabbalah e da mística hebraica—, [e] alusões ao simbolismo do Tzimtzum — o espaço originário —, e mesmo do En-Sof — das Sheviàth Hakelim.
Quanto ao rigor de Eisenman, este está dentro de uma pesquisa sobre a forma pura, onde uma intuição arbitrária fixa as regras, mas [que], [a partir] daquele momento, cada gesto deve seguir processos férreos, como em um rito.
Descompondo, por anos, o espaço de suas casas em geometrias abstratas de retas e planos, [Eisenman] constringe o habitante perdido “a entrar [na casa] como um intruso”. Suas sofisticadas arquiteturas cardboard são como esculturas, obras para colecionadores.
Eisenman, então, desenvolveu, ao longo do tempo, teorias da gênese da forma cada vez mais complexas, em contato e sobreposição com outras disciplinas, com as teorias de Nietsche, Derrida e Chomsky, até o ponto que suas obras, incluindo a proposta desafortunada de uma igreja em Roma (uma grelha geométrica que vibra e se distorce, um conflito de forças vetoriais), tornaram-se representações abstratas da realidade e têm necessidade de decifrações complicadas.
Sem mais, uma obra de Eisenman, portanto, meritaria enriquecer a coleção de obras de arquitetura contemporânea que Roma vai acumulando. Quem sabe no [bairro do] EUR.
Mas duvido que a sua extraordinária pesquisa possa legitimar uma intervenção em nosso patrimônio histórico, onde a edilícia não é representação teórica, mas realidade concreta e murária, cujos processos formativos pouco têm que ver com o universo poético de Eisenman, com a sua refinada leitura da história e [com] a sua racionalidade rigorosa, abstrata.
Notas do tradutor:
1 — Maniera, segundo a enciclopédia Treccani, pode ser definido como “a recorrência de elementos típicos nas obras de arte de um mesmo mestre ou escola”, ou, mais grosseiramente, como “o estilo de um artista”; um modo de fazer próprio, porém como uma espécie de derivação e/ou continuação do modus faciendi de algum artista ou escola.
2—Certa vez explicava-nos o prof. Strappa que Piranesi não entendia Roma como um grande organismo de partes interdependentes, como de fato é a cidade, mas que a enxergava como uma grande colagem de monumentos sem relação entre si, como muitas vezes acontece com as coleções de esculturas nos museus, ou como nos cemitérios, onde cada tumba disputa com a outra o lugar de destaque, e onde nenhuma delas entra em acordo: não é um organismo, mas uma grande montagem.