é o risco que marca
queria
beijar-te estranho
troquei umas ideias
lembrei peripécias
hoje em dia me acanho
olho pro tempo
lembro (um tanto)
de que fui foguete
bala perdida
risada rasgada
fruta ardida
queda d’agua
de que fui tanto guerreira
como mal amada
terror dos que tem medo
da caminhada
eu era movimento
o mundo era igual a cena
queria o âmago
derrubada
ou em pé, tudo valia à pena
girou
revirou
gastou
ressucitou
a outra vez beijar
era o registro do estrago
prazer em ser veneno
o resto todo ameno
não fortalece
não dá amparo
não se enriquece
só com benesse
destruição também aquece
isso sempre soube
mas
a outra vez beijar
esse lugar já não coube
o desejo tem fome
de algo sem nome
o desejo pensa em se voluntariar
sem caminho, vai que esbarra
alguém a pisar sua saia
ou bagunçar suas entradas
ai, que desejo sem destino
quer virar vontade com abrigo
sozinho
é bom demais
mas não é falha de caráter
ou abuso da humanidade
querer ser feliz com carinho
fiz uma salada saborosa
nela, um sabor distinto
superei ferraduras
(mão à massa)
se prova: gostosa
deixou as pontas pro infinito
agora rica de história
faz sua armadura
com o rosto da memória
o desejo tem morada
não quer mais dias
quer nem livro
festas
bebidas
isso tudo nem vai faltar
faz parte da alma
usufruir, deixar-se matar
este corpo de cheiro
amadeirado
quer cortar esse mundo
mas quer gente
ao lado
quer poder sorrir pra alguém
com a multidão aquém
esse sorriso de gosto nervoso
é o nosso carinho novo
esse poema
é um teletransporte
dos processos de dor
até a morte
lavada
banho de sorte
ficaram detritos
os permitiu viver, foram aflitos
e o que resiste
persiste
é a trajetória
ensolarada, tributo da glória
é o risco
é risco que marca
o começo