Outra Declaração ao Tempo

Antes de retornar para a configuração que sempre me foi — faltava chão, faltava peso -, eu olho minhas antenas, aciono meus membros. Sou um polvo.

Quanto mais eu percebo, mais viralizo.

Estou lembrando da anciã, a que representa toda a minha primeira camada na armadura. Nós perdemos, é normal, as preciosidades de se saber íntegro estando nas primeiras etapas da trajetória humana.

As turbulências do presente, sinceramente, essas tão intrínsecas, estando de encontro com o que é latente e vívido, dentro das rugas dos anos, caem de amores — sim, se apaixonam — por aquilo que é e que pulsa a frente. Como se pudesse recortar de si mesmo aquilo que foi sua criança e que não vacila em identidade, ainda que, distante do tempo, a essência pareça uma chama fraca. O velho se encanta com o novo, pois lembra de si. Finalmente acha seus próprios olhos que, de tão perdidos de si mesmos, agora, enfim, se enamoram — plenos. O novo na verdade é a raiz, o que proporciona o futuro por meio de um desprendimento do que é a base. A gente se perde pra poder se (re)encontrar. E o segredo é que a gente esquece de propósito — o propósito é a gente aprender a lembrar! Aceleradamente vejo cortando as lâminas da minha vida pra trás e lá está a riqueza: a memória encorpada.

.ancestralidade.

Com o tempo, logo, retomando, me aproximando do que não tem dúvida, e que esqueci (as cruas percepções de si), me atento a harmonia do ar. Do espaço do ar. Como era mágico viver…
E perceber que tudo é magia.

A gente só envelhece para voltar a ser quem é.

Peguei um transporte para retornar, falta certo tempo até eu me olhar no olho e me cumprimentar. Mas a saudade que começa a bater é irmã do ansiedade que hoje frustra meus dias.
O que me inquieta é vontade de estar inebriada e saber que já toquei, é esse lugar de enxergar o ar.
EU JÁ ENXERGUEI O AR.

Tem alguém gesticulando pra mim, mas é uma imagem turva. Mesmo sem entender, reparo no som, no atravessamento desse ar: é uma risada.

Há quem diga que é o som que faz ao nascer. É ele que me guia e, aos poucos, me recoloca no meu lugar: a de grande amante da vida.

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