E se eu começasse a falar de amor?

Eu sempre achei que o amor fosse um tipo de buraco que se abre dentro do peito esperando alguém para devorar; sempre que eu comecei a amar ouvi de dentro de mim um ecoante CLANG! um deslocar como se abrisse um grande vão debaixo d’água; uma pancada metálica do lado interno do peito como se uma máquina ligasse e abrisse a vaga sob a prensa hematodráulica para esmagar e milpedaçar o ser amado.
Lisergias a parte, é o vazio que se aguarda preencher — e que nunca acontecerá — que ecoa nos do meu peito ao meu ouvido. do meu peito ao meu ouvido. peito ao meu ouvido. ao meu ouvido. meu ouvido. ouvido.
Desfalece o eco como tudo desfalece. Desfalece o amor pouco a pouco a cada compactação do peito. Resta sempre o vazio ansioso uma vez preenchido e agora não mais. Consumiu e consumido. Cada parte que raspa no metal cardíaco abrasa as estruturas; as paredes; faz faíscas monocromáticas –vermelhas e brancas. Após deglutir e digerir, a ressaca permanece junto com uma leve azia da máquina em carne, digo, ferro vivo, em brasa, quente.
Mas e se — e “e se” é onde o demônio faz casa tomando seu cházinho recostado lendo um livro — na ânsia da máquina ligada; no TUM TUM TUM seco e enferrujado; como quando mascamos chiclete e o estômago ronca; não descesse nada para bater a máquina? Treme em alerta vermelho; treme todo o complexo industrial humano. Chacoalha as ideias. E começa a autofagir-se a si mesma. Aperta qualquer ar que estiver dentro; faz pressão tamanha que os olhos, coitados, de pouca coisa têm participação, parecem que, antes de estourar, far-se-ão em mil pedacículos de gosma branca quebrada. Arde tanto quanto arde quando deglute, ainda que não degluta. 
Eu parei de mascar chicletes.

Hilário Mariano escreve porque o instante existe.

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