Soraya Só

Dentre os vasos com flores dispostos ao sol na janela estava a moça. Olhava-a timidamente todos os dias quando passava. Estava sempre bela, amarela, com sua tez forte e seus cabelos aos ventos atrevidos que sopravam-lhe beijos inodoros.

Sonhava da janela.

Quando não estava na janela ficava triste, roía o estômago de ansiedade e preocupação. Mas aí ela aparecia de novo e tudo voltava ao normal. Acenava para o açougueiro, padeiro, bombeiro, policial, carnaval, natal e festa de reis, mas ela nunca percebeu.

Um dia desses que sumiu da janela nunca mais voltou. O mundo a chamava desde a terra e ela atendeu.

Foi avistada longe, rica, ainda sonhadora, mas agora conquistadora, poder manifestado, reiterado, consolidado, consagrado.

Um dia voltou para a janela, porque quis mesmo. Mas agora ela já tinha percebido. Olhava da janela com ela.

Os carros passavam quietos pela rua porque não queriam incomodar o amor que morava na casa 106.

Hilário Zeferino escreve porque o instante existe.

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