“Você vai acabar sozinho”

Foi o que a minha mãe disse quando contei a ela que sou gay.

Uma das primeiras coisas que minha mãe me disse quando contei a ela que sou gay foi que eu ia acabar sozinho. Isso faz quase onze anos e ainda não esqueci. Amo minha mãe — muito — , uma das pessoas que mais amo no mundo, talvez A que eu mais ame. Nos damos super bem, nos compreendemos como ninguém. Ela me entende hoje, conviveu com meu ex-namorado e tudo. Então talvez ela não ache mais que eu vou acabar sozinho. Mas não, não esqueci o que ela disse. E dói até hoje.

Não devia doer, sabe por quê? Porque não há mal nenhum em estar sozinho, ou “acabar” sozinho. A minha geração é uma das primeiras em que boa parte das pessoas vai realmente “acabar” sozinha, em que muita gente com 30, 40 anos ainda não tem alguém com quem assinou um papel. Nós somos diferentes dos nossos avós, somos mais exigentes e desistimos antes, porque também não queremos sofrer quando percebemos que algo não tem solução. Não somos obrigados a “suportar” nada, podemos ir embora. Por isso vários de nós nem vão assinar o tal papel.

Mas para mim dói. Porque é algo que eu quero, que eu sempre quis. Sempre que eu olhei para o meu futuro, me vi com alguém. Seja por pressão (consciente ou inconsciente) da sociedade, seja por qualquer outro motivo, eu sempre quis ter alguém para dividir a vida. O famoso “sou para casar” (e sou mesmo — e sempre ouvi isso dos outros).

Mesmo que grande parte da minha geração não queira casar, há quem queira sim. E conhecer outras pessoas nunca foi tão acessível, hoje a gente tem até aplicativos para isso, vulgo Tinder (entre outros). E se um dia for o caso, já até posso assinar uma certidão de casamento com outro homem, coisa que onze anos atrás não poderia. Então a chance de eu “acabar sozinho” está cada vez menor, cada vez sob o meu controle, não é? Sim.

PORÉM (sempre tem um porém), a gente não pode deixar de levar em consideração o nosso autossabotador interno. É algo que RuPaul (sim, vou citar RuPaul de novo) sempre fala, que dentro de cada um de nós existe o autossabotador interno, que é tão inteligente quanto nós mesmos e que age em silêncio. Foi uma das coisas que foram ditas na abertura da Drag Con 2017.

Como diz RuPaul no vídeo, há momentos na vida de cada um de nós que servem de alicerce para construirmos uma identidade, uma vítima, sem que a gente perceba.

“Analise a sua própria jornada e se pergunte em que parte você está perpetuando a ideia de que é a vítima, o perdedor. Parte 2: Descubra qual a recompensa que você tira disso”.

Assistindo ao vídeo, comecei a perceber que o único momento que me salta aos olhos é esse: o cara que ouve da mãe que vai acabar sozinho porque é gay. E todos os caminhos levam a esse momento. Porque nós recriamos essas situações nas nossas vidas, geralmente sem perceber. Vejam que eu não casei até agora. Portanto, até agora, eu acabei sozinho. Se eu morresse hoje, acabaria sozinho.

E não foi por falta de tentativas. Namorei muito nesses onze anos, fiquei com muita gente, conheci muita gente. Tentei com todas as minhas forças provar para mim mesmo e para a minha mãe que ela estava errada quando disse aquilo. Que eu não vou acabar sozinho. Mas nenhuma das pessoas que passou pela minha vida sobreviveu à prova do tempo para estar aqui hoje.

Esse é o meu papel de vítima, de perdedor, que eu percebi que perpetuo desde aquele momento. “O cara que ouve da mãe que vai acabar sozinho porque é gay.”

Isso entra um pouco em conflito com um perfeccionismo meu, que afeta os relacionamentos também. A pessoa que vá ficar ao meu lado tem que passar por uma série de crivos. Se não passar, não me merece. Isso é bom, claro, porque antes só do que mal acompanhado. Mas por outro lado, minha linha de corte às vezes é tão alta que se torna praticamente impossível de passar.

Geralmente quem sobrevive a esse estágio inicial não consegue sobreviver a uma segunda versão desse perfeccionismo: eu procuro defeitos no outro O TEMPO INTEIRO. Chega a ser exaustivo internamente. Dá até uma tristeza às vezes. E como quem procura acha, eu acho os defeitos, vários, sempre. Parece que é para justificar porque eu não quero mais a pessoa, porque ela tem que sair da jogada, porque eu tenho que acabar sozinho outra vez.

Se ainda assim eu não desistir, entra em ação um terceiro mecanismo: a pressa. Se o cara passar pela linha de corte e os defeitos forem passáveis, vem a onda de forças internas que querem comprovar que eu vou ter alguém sim, agora, para ontem. E essa pressa, essa impaciência, acabam levando os últimos que tinham sobrevivido até aqui.

E assim se recria o meu papel de vítima. Porque nenhum deles quis algo sério. Nenhum era bom o suficiente. E cá estamos nós na estaca zero.

E a recompensa? É poder encher a boca para dizer “eu tentei” e servir como referência para os outros do que é ser um excelente namorado. É ter a atenção e o reconhecimento das pessoas quando conto a minha história. É você, leitor, clicar no coraçãozinho aqui do lado. É, por vezes, poder dizer que fui eu que não quis mais, que eu saí por cima (mesmo sabendo que ninguém sai “por cima”). É eu mostrar para mim mesmo que eu dei o melhor de mim, que eu sou a melhor versão de mim que eu posso ser. Porque para mim é importante ser o melhor eu possível. Às vezes, ser melhor que o outro — que defeitão meu, hein?

Esse é o meu autossabotador interno. Inteligentíssimo. Sorrateiro. Silencioso. Me transformando em vítima para eu poder dizer para todo mundo que sou o melhor homem do mundo, mesmo sem ter um namorado agora.

A luz no fim do túnel: agora eu identifiquei como ele funciona, quem ele é. Agora eu é que estou um passo à frente. E esse um passo à frente é o primeiro nessa autodescoberta, na sabotagem da sabotagem, no jeito de me livrar dessa coisa toda, dessa pressão para ter alguém só para poder perdê-lo logo em seguida. Me desejem sorte.