O amor como escolha

Quando se nasce pobre e mulher a forma como você se relaciona com o mundo ocorre de uma forma diferente. Você sente raiva. O tempo todo.

Você sente raiva de demorar duas horas para chegar em casa, duas horas em pé, em um transporte público lotado, com alguém tentando passar a mão em você. Duas horas tendo que controlar onde olha porque se por acaso o seu olhar se encontrar com o de um assediador, prepara o emocional porque serão duas horas sendo encarada de corpo inteiro.

Se somar ida e volta são quatro horas por dia.

Além da objetificação diária têm a raiva sobre os problemas típicos de pobre: corre para pegar o último ônibus, trabalha dobrado para conquistar algo que deveria ser meu por direito, estuda, muito, mas não esquece do corpo e não pode reclamar da hiper sexualização. Diários “como assim você nunca visitou tal lugar?” “nossa, como não conhece essa marca?” “como nunca provou esse prato?”.

Final de semana suas colegas vão para o clube, praia, piscina. Você vai para aquela biblioteca pública longe pra caralho de casa mas é o único lugar que você consegue estudar em silêncio.

Mas nem tudo na sua vida se resume em estudar e trabalhar. Você também pode tentar conhecer alguém legal. Bom, esse não entendeu que não tenho grana para sair todo final de semana. Aquele me objetifica. Vish, esse não aceitou que sei mais que ele. Aquele outro era legal mas não me tratava tão bem.

Melhor focar só nos estudos mesmo.

São 23h, você está voltando da academia depois de um dia de faculdade e estágio, final do mês sem grana pra nada, cabeça cheia (pobre tá sempre de cabeça cheia), seguindo o guia de sobrevivência feminino para andar no transporte público e seus pés doem por ter que passar todo o dia de salto.

Passe dia após dia vivendo isso que você irá entender como a raiva se perpetua da mente para o coração. Mas veja bem, não é raiva de alguém, a raiva é por perceber que não deveria ser assim, ninguém deveria passar 4h/5h no transporte, ninguém deveria ganhar menos que mil reais por mês, ninguém deveria sentir medo de (novamente) sofrer uma tentativa de sequestro perto de casa. Raiva pela situação, raiva pela situação de quem sofre ainda mais.

Eu te garanto que todos os psicólogos vão te dizer como raiva é um sentimento negativo e que você deve se livrar dele. Mas eu não tenho grana para o psicólogo e como todo brasileiro a gente da um jeitinho.

Tá com raiva? Estuda mais. Tá com raiva? Corre mais. Tá com raiva? Se joga no trabalho. Raiva do assédio diário? Aprende a usar a voz.

Raiva é um sentimento com bastante energia, aprender a usar esse sentimento como propulsor de energia foi uma das coisas mais úteis que eu aprendi.

E depois de você gastar esse sentimento sobra bastante espaço.

Essa é a parte boa da vida.

É nesse espaço vazio que você reconhece que está fazendo tudo isso por você, sua família, pessoas que você nem conhece mas que quer ajudar. É nesse espaço que fica a gratidão e o amor.

Não é um espaço que vem pronto com o da raiva, o amor e a gratidão são construídos, genuínas escolhas de querer sentir. Querer ser melhor.

O amor quando nasce pela escolha e não como primeira opção cria aspectos bem peculiares.

Você valoriza cada tarde de domingo que pode passar com a sua mãe. Cada passeio com seus amigos. Cada oportunidade que você têm de poder tomar um café supervalorizado mas que o lugar te deixa ler em paz. Cada nova chance de amar alguém.

Existe uma intensidade em cada momento que você não sente raiva.

Por mais que não tenha a beleza do amor como algo natural, optar por ele como escolha te torna consciente sobre a forma que você se relaciona. Talvez um amor mais racionalizado se isso for possível.

Seja como for, quando você se deita no fim de mais um dia difícil, é esse amor que te fará levantar no dia seguinte.

E com amor que eu escrevo.