Adaptações literárias para a TV: uma reputação

‘Dois Irmãos’, adaptação de Maria Camargo do romance homônimo do escritor amazonense Milton Hatoum gravada a dois anos atrás e exibida em janeiro de 2017

Recorrentemente a TV brasileira adapta obras literárias para o audiovisual. A última adaptação a que assistimos foi ‘Dois Irmãos’, romance do amazonense Milton Hatoum que já foi traduzido para mais de 15 idiomas. O livro trata dos conflitos entre dois irmãos gêmeos de família libanesa. Yaqub e Omar são separados quando muito jovens, um deles vai estudar na cidade natal de sua família, no Líbano, e o outro permanece em Manaus. A situação conflituosa entre os irmãos se deve a terem se apaixonado pela mesma garota na pré adolescência e um deles ter agredido o outro com uma garrafa.

Juliana Paes, como Zana, em ‘Dois Irmãos’, microssérie exibida na Rede Globo em 2017

A Rede Globo tem um histórico de adaptar esses grandes romances da literatura para a tela e sempre com muitas críticas positivas e audiência abaixo do esperado, apesar de ‘Dois Irmãos’ ter alcançado médias satisfatórias de público.

Uma das mais primorosas adaptações foi ‘Os Maias’, adaptado do romance do escritor português Eça de Queiróz por Maria Adelaide Amaral que foi ao ar em 2001. O orçamento para a minissérie é um dos mais altos que a emissora já investiu: R$ 200 mil reais por episódio. O primor e fidelidade ao romance nunca tinha sido visto antes. Maria Adelaide escreveu a minissérie com uma edição do livro sempre ao seu lado. Pesquisas e viagens para Portugal foram feitas para que a série fosse o mais fiel possível ao romance. A emissora esperou uma audiência de 30 pontos, obteve uma média de 20.

‘Os Maias’, minissérie exibida na Rede Globo em 2001

É bastante comum a adaptação de romances da literatura para a tela, assim como a audiência abaixo do esperado. Não podemos deixar de lembrar que Os Maias estreou no mesmo ano que o Big Brother Brasil, uma novidade para os brasileiros, porém Primo Basílio minissérie também baseada em um romance de Eça de Queirós foi ao ar em 1988 e não tinha um programa como Big Brother para passar antes e não foi o sucesso de público pretendido, mas um sucesso de crítica.

Giulia Gam e Marcos Paulo na adaptação do romance ‘O Primo Basílio’ de Eça de Queirós para a TV Globo, em 1988

Essas séries, minisséries, macrosséries adaptadas da literatura são importantes não para fisgar o público e alcançar a maior quantidade de pessoas possível para o canal. É importante para fisgar a crítica especializada, a crítica intelectual e construir uma reputação de emissora que preza não somente pelo consumo massivo de seus produtos audiovisuais, mas sim preocupado com uma produção estética e técnica mais rebuscada.

Esses produtos audiovisuais por serem em um tamanho compacto de capítulos em vista das novelas que são produzidas (mais de 200 capítulos) e que se configuram como uma obra aberta (em que o espectador e — algumas vezes — nem os autores sabem onde a trama se desenrolará) tem a vantagem de contar com um tempo um pouco maior para se pensar o projeto, sua execução e exibição. ‘Dois Irmãos’, por exemplo, foi gravado dois anos antes de ir ao ar no início desse ano. Maria Camargo, a encarregada da adaptação de ‘Dois Irmãos’, leu o livro 26 vezes antes de começar a escrever o roteiro e a emissora promoveu leituras abertas do livro nas ruínas da antiga TV Tupi na Urca. Os figurinos são os mais rebuscados possíveis (a maioria das adaptações se passam décadas ou séculos atrás), a linguagem é menos coloquial e fiel ao português dito séculos atrás, os atores são os mais bem preparados (não que os atores de novelas sejam despreparados, mas para tais produções é necessário sustentar e convencer o público e a crítica em personagens que demandam muita experiência teatral), o ritmo de narrativa é bem mais lento (Os Maias é um exemplo clássico disso, se bem que Terra Nostra, novela do horário nobre de grande audiência e repercussão, não era em nada dinâmica) a equipe é muito bem escolhida. Enfim, um trabalho muito cuidadoso, quase bordado.

A questão que aqui apresento é que o público brasileiro não é familiarizado com esses romances. Eles deveriam ser-nos apresentado na escola (pelo menos é o que as diretrizes bases de ensino no Brasil orienta), e não preciso dizer que nossa educação deixa muito a desejar (se alguém discordar, vou ter que lhe dizer: vivemos em países diferentes, meu querido). Não estou aqui também querendo dizer que deve-se mostrar qualidade ao público, não é isso, e nem que todos essas séries adaptadas da literatura são o produto de maior qualidade que já vimos na TV (apesar de ‘Os Maias’ ter sido uma das mais belas coisas já produzidas para a TV brasileira). Estou apenas me atendo ao fato de que a emissora, ao adaptar produtos audiovisuais não muito ‘palatável’ ao seu público alvo (que é a maior quantidade de pessoas possíveis), com novelas de enredos previsíveis e apelo dramático bem conhecido, tem também se preocupado em atrair o capital intelectual, a crítica literária para suas produções. É importante construir essa reputação artística.

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