Há uns três ou quatro anos estávamos indo em grupo para mais uma edição do brilhante e sempre aguardado Festival de Jazz de Guaramiranga, micro-região do município de Baturité, Ceará.
Entre Baturité e Guaramiranga há um ponto turístico muito prestigiado, o Mosteiro dos Jesuítas, que fica na estrada que liga ambos os locais. Como tantas outras pessoas, fizemos uma visita que durou cerca de duas horas, se não me engano.
Ali, no belo mosteiro, foi a primeira vez que tive a clara sensação que tento repassar aos leitores. Antes, devo dizer que, na minha concepção, turismo se faz andando, conversando com pessoas, admirando paisagens e não entrando em um ônibus para seguir um roteiro já previamente estabelecido pela agencia de viagens de ocasião.
Após ter andado, fotografado e ficado feliz com o que vira, finalmente chegou o meu momento de buscar algo diferente. Fui então até uma enorme sacada onde podia observar o estacionamento, que ficava abaixo e era totalmente sem qualquer cobertura contra o sol do meio-dia.
Vi religiosos, vi crianças e suas mães e pais, pessoas que visitavam o mosteiro e outras muitas que saíam e apanhavam seus automóveis. Foi então, ali, que me veio uma sensação sui-generis. A do encanto e do mistério da morte.
Não, não pense o leitor que quero apressar a minha morte, menos ainda que tenho alguma tendência suicida. Muito longe disso. Aliás, não reclamo da minha vida, e não tenho qualquer problema quanto a viver.
A sensação que me veio foi distinta do drama da morte. Uma sensação quase leve de pertencer à humanidade. Todos vamos morrer, de um modo ou outro, de um dia para outro. A leveza estava em ter a certeza de que eu integro essa humanidade, e de que o que chamo de vida é tão-só um ciclo. Não me veio o medo, a angústia da morte, mas a sensação de integração com cada uma daquelas pessoas ali presentes. Não me senti melhor nem pior, mas me veio uma intensa satisfação em saber que, se estou agora aqui, sigo um roteiro que inclui o fim do que eu entendo ser a vida.
Mas eu posso não entender exatamente o que é a vida, e, cá pra nós, nem sei se tal entendimento muda ou não alguma coisa. De todo modo, foi a primeira vez que me veio uma sensação de integridade ante o inevitável. Não me veio culpa, nem desespero, nada do que se possa dizer que seja negativo.
Concluí, ali, que a vida não só apenas é um ciclo que eventualmente eu integrava, mas, especialmente de que vivemos em um mundo no qual a morte pode ser apenas uma ilusão a mais. De alguma forma, estou mergulhado em um belo e caótico mundo, em uma bela ilusão.
Nem sempre uma porta fechada nos leva ao pior e mesmo a sensação de cruzá-la é sempre um aprendizado. Talvez nossas melhores vidas comecem ali, no cruzar do que chamamos de morte. Não consigo ser materialista o suficiente para entender que tudo acaba porque meu corpo não responde a esse sistema ilusório que chamamos de vida.
A certeza de que vivemos uma ilusão me leva não só à transitoriedade da vida, mas a uma integração real com algo que desconheço e que chamamos de morte. Basta observarmos, contudo, que nem sempre a mesma vem acompanhada de dor, de blasfêmias e de infelizes tristezas. Culturas diferentes tratam a morte de modo diferente. Talvez alguém trate de minha alma, de minha anima quando me for e experimentar, provavelmente, a última lição que terei junto aos que me acompanharem nesse ilusório mundo. HILTON BESNOS.
