É preciso diminuir a produção de lixo

A reciclagem é uma prática útil que diminui os riscos que os resíduos sólidos causam ao meio ambiente. Ela diminui o volume de resíduos nos aterros sanitários, permite o reaproveitamento de materiais e ajuda a gerar renda para milhares de famílias. Porém, a reciclagem não pode ser a questão principal quando tratamos de resíduos sólidos.

A cultura da supervalorização da reciclagem evita que foquemos na questão principal: o excesso de lixo que geramos. Esse problema pode ser evitado se assumirmos a atitude da redução do consumo dos bens materiais, que em última análise se relacionam aos recursos naturais.

A profissão de catador de latinhas vem crescendo ao longo desse século, e traz oportunidades de complementação de renda e uma alternativa ao desemprego. Mas se a reciclagem for vista como um negócio que gera lucro, dificilmente haverá preocupação em diminuir a produção de lixo, e isso é muito grave. O lixo não é uma mercadoria, ele é um problema que deve ser tratado como uma questão de saúde pública.

A solução para resolver o problema do excesso de lixo está na minimização, ou melhor, na sua não geração. Observa-se que, se Belo Horizonte reduzir a produção de lixo em qualquer percentual, a vida útil do aterro sanitário aumentará, o que gera, de alguma forma, economia para a prefeitura, e um IPTU mais barato para os cidadãos.

A reciclagem continua sendo bastante necessária, como defendo no meu blog — Hiram Sartori, mas afirmo que ela deve ser limitada ao que for necessário, depois de ter conseguido deixar de gerar as maiores quantidades possíveis de resíduos sólidos. Básica e conceitualmente o melhor não é reciclar o plástico, mas sim não ter o plástico para ter que ser reciclado. Esta abordagem é a melhor forma de garantir a sustentabilidade, porque exige que desde o projeto e fabricação de um bem de consumo, sejam incorporadas medidas e opções que garantam a sua reutilização e a mínima geração de resíduos que for possível, durante o seu ciclo de vida.

Na minha opinião dizer que reciclagem dá lucro é propagando enganosa. O único e verdadeiro ganho decorrente de se evitar a produção de resíduos sólidos, é a preservação ambiental. E a reciclagem pode ser de difícil implantação. Além do fato de que nem todo item descartado pela população é reciclável, para alguns itens a reciclagem é muito dispendiosa, gerando efluentes gasosos, líquidos, e até sólidos.

Em entrevista para o Jornal O Tempo, na qual também fiz parte, a coordenadora substituta da assessoria ambiental de Porto Alegre, Maria Angélica Mallmann, reconheceu que a realidade em nosso país é que “ainda trabalhamos com as consequências, e não com as causas do lixo. É preciso desencadear um movimento que procure solucionar as causas do lixo”, declarou.

Segundo levantamento do IBGE, dois terços dos municípios brasileiros ainda não tinham Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos em 2013. Não bastasse esta dívida da municipalidade em relação ao direito de seus habitantes, os planos, que são conquista da Política Nacional de Resíduos Sólidos desde 2010, são pré-requisito para que as cidades obtenham recursos do governo federal, financiamentos, incentivos ou crédito na área de limpeza urbana e de resíduos sólidos.

Levantamentos recentes feitos pelo Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento, indicam uma evolução lenta nos índices de cobertura por coleta seletiva, o que confirma que a reciclagem, além de não ser a solução definitiva, também é de custosa implantação, quer seja pelas dificuldades inerentes à mudança de atitude que ela exige por parte da população, quer seja pela insuficiente prioridade política em geral atribuída a este tema em nosso país.

A recuperação mais eficiente de resíduos pela reciclagem normalmente equivalerá a menos de 50% do lixo produzido na cidade, uma vez que é desta ordem o percentual de itens recuperáveis para a reciclagem. Mesmo assim não seria o caso de abandonar a reciclagem no meio urbano, pelo menos até começarmos a fazer e falar mais de redução do que de reciclagem.

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