[Crítica] — Narcos: um romance em realismo mágico

Apesar de Narcos seguir em frente, é chegado o fim da história de Pablo Escobar. Interpretado por Wagner Moura, numa controversa mas competente atuação que lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator em Série de Drama, Escobar se construiu ao longo de duas temporadas com fragmentos tom de cinza de sua personalidade. Escuros tons de cinza, na maior parte das vezes. E branco. Muito pó branco.

Galerinha do bem

Narcos sai do realismo quase documental e extremamente político pelo qual José Padilha, diretor de Tropa de Elite, é conhecido e mergulha no realismo mágico. O começo da série é uma história de inimigo público e choque de poderes: repleto de ação, personagens marcantes (como foi o vilão Poison, que vemos morrer na primeira cena em um flash forward, mas passamos a temporada quase inteira odiosamente esperando que isso aconteça), interesses políticos e um sangrento jogo de xadrez. Narcos vs DEA. Bem vs Mal. Corrupção vs Integridade.

A segunda temporada, por sua vez, é uma reflexão sobre conquistas e perdas. Em contraste com a primeira temporada, que em 10 episódios mostra desde seu aparecimento até a fuga do presídio de La Catedral, essa puxa o freio e foca nos últimos dias de Escobar: o momento de introspecção final de um traficante que chegou a ser um dos homens mais poderosos do mundo e agora não é nada. Sabe aquela história de que a vida passa diante dos seus olhos no instante antes da morte? Esse pode muito bem ser o filme que se passou na cabeça de Escobar. Viaja por memórias, visita versões alternativas da realidade (como quando se imagina fazendo aniversário no dia que toma posse como presidente do país e fumando um cigarro de maconha com o agora ex-presidente Gavíria, seu maior inimigo) e chega a conversar com mortos.

Até encontro com o próprio pai tem, numa singela indagação sobre o que vale a pena na vida, no fim das contas.

Galerinha do mal

Na conversa com seu primo morto, Pablo admite que o dia que tudo foi “pro carajo”, nas palavras dele, foi quando Gustavo morreu. Lembra a relação de Zé Pequeno e seu amigo Bené em “Cidade de Deus” se dermos as devidas proporções, não lembra? Bonito.

Vale dizer, porém, que parte do vigor da série se perde nessa segunda parte graças aos problemas de ritmo, aos novos personagens introduzidos (fracos, na maioria dos casos), aos velhos personagens que nos deixam e ao fato de em muitos momentos o roteiro transformar pessoas e situações que nos fizeram gostar de Narcos em caricaturas delas mesmas e as duas temporadas juntas acabam contando a história de forma detalhada, grandiosa e descompassada.

No fim, toda liberdade tem um preço. O conceito de liberdade de Pablo Escobar deixou o preço alto demais. E foi aí que tudo virou pó.

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