Clichês

Talvez fosse a chuva caindo lá fora ou a nova bandinha folk tocando no computador. Talvez fosse o feriado prolongado ou tudo isso junto. Apesar de já ter feito tanta coisa, parecia que o dia tinha passado no piloto automático.

Foi pra sacada do apartamento alugado e se desculpou mentalmente antes de acender o sexto (ou seria sétimo) cigarro daquela terça-feira. Gostava da chuva, do céu cinzento e do vento que vinha lá de fora. Começou a pensar no que tinha dito para o namorado na noite anterior numa mesa de um bar que frequentavam quase que religiosamente. Tinha sido uma brincadeira engraçadinha pra tentar puxar assunto.

Se você pudesse ser qualquer outra pessoa nesse bar, hoje, quem você seria? Qualquer uma.

Ele escolheu o baixista da banda. Ela queria ser a pin up bonitinha e tatuada que anotava os pedidos nas comandas e entregava as bebidas pra galera. Pensou no por quê. Tinha uma tendência a gostar das mocinhas descoladas que trabalhavam em bares. Não, não queria ser a dona do bar — em todos os filmes elas eram a personagem mais irritante. Mas a mocinha tatuada do bar sempre estava lá procurando alguma coisa, indo atrás de um sonho ou algo parecido.

“Caramba, você realmente acredita em clichês!”

Enquanto pensava nisso, o cigarro acabou. Ainda ficou alguns segundos olhando pra chuva e pro céu cinzento. Gostava de clichês. Eles eram tão seguros e previsíveis. Tinha medo de pessoas e situações imprevisíveis, queria ter controle de tudo. De fato, gostava de clichês.

Entrou e foi escovar os dentes, pensando se ia continuar chovendo no outro dia. Sua terça-feira tinha acabado. Foi dormir. Ainda não era capaz de enxergar, mas ela mesma não passava de um clichê sem graça e isso não trazia segurança nenhuma.