Era feriado, mas pra ela pouco importava. Já fazia algum tempo que não compartilhava daqueles sentimentos universais pós-modernos, do tipo “thank’s God it’s Friday” ou daquele ódio pela segunda-feira.

Há mais ou menos um ano havia terminado a faculdade e agora tentava planejar como seria sua vida a partir dali. Sete anos. Para ela, sete anos em um curso que não gostava, em estágios cômodos e almoços self service; para ela, depois daqueles quase-sempre-angustiantes sete anos, a vida começaria de verdade. O problema é que não tinha nenhum plano concreto e até então estava aprendendo, na prática, que a vida ideal não cairia no seu colo tal qual o cachorro que adotara no último Natal. E a verdade é que ela nem sabia qual era aquela vida ideal. Tinha a sensação de que aqueles sete anos haviam passado como se um piloto automático estivesse dirigindo sua trajetória. Apenas indo de um ponto a outro, sem pensar muito nos porquês. Ela, que se encantou com o Existencialismo nas aulas de Filosofia do primeiro ano — universitária clichê fã de carteirinha do discurso de Sartre sobre a liberdade do ser humano — agora estava cogitando transferir a culpa por tudo que havia passado nesse piloto automático e imaginário.

Apesar de tudo, ainda era feriado. E desses prolongados, que caem na segunda-feira. Começou a ficar intrigada com essa sensação. Se todos os dias eram como feriados pra ela, por que estava se sentindo tão incomodada por não ter nada pra fazer naquele dia específico?

Acendeu um cigarro e reparou em dois gatos que atravessavam a rua. Andavam um do lado do outro e pareciam conversar sobre alguma coisa. Estariam falando sobre como aquele feriado estava parado ou sobre como estavam felizes por finalmente ter chovido um pouco?

Lembrou de uma música que nem era a sua preferida de um disco do Garotas Suecas, em que o cantor dizia algo mais ou menos como “eu vou fugir do trem lotado, do folclore, do feriado” e pensou que talvez essas regras universais se aplicassem dos desempregados até os gatos. Pensou por alguns segundos se o cantor tinha conseguido se libertar do feriado. Queria saber como.

Enquanto pensava nisso, a chuva aumentou e os gatos foram procurar um lugar pra se esconder. Decidiu fazer o mesmo. Entrou em casa e foi dormir, pensando que quando acordasse seria segunda-feira, mas estava tudo bem — era feriado.