
Minha série-favorita-de-todos-os-tempos é Bojack Horseman. Ela poderia muito bem ter saído de um livro escrito pelo Nick Hornby. E isso explica bastante o que me faz gostar tanto assim dos dois: a habilidade de mostrar pessoas normais, levando vidas normais e lidando com frustrações que aparecem no meio do caminho.
É impossível escrever sobre Nick Hornby sem que a imagem de Rob se questionando se é triste porque ouve pop ou se ouve pop porque é triste venha à mente. Da mesma forma que é impossível assistir um episódio de Bojack Horseman sem notar a melancolia que paira no ar.
Por mais que Bojack seja um cavalo e Nick Hornby um escritor britânico, a questão central que chama minha atenção em ambos é universal: a busca de um significado para própria vida.
E o que me faz gostar ainda mais dos dois são os desdobramentos que surgem dalí. Especialmente quando o universal se transforma em individual, nos fazendo correr atrás de respostas que não existem. Seríamos os mesmos sem os discos que ouvimos, os filmes que assistimos, os livros que lemos?
A identidade que nos faz gostar mais de uma banda do que de outra, de um diretor do que de outro, de um escritor do que de outro, estava lá desde o começo? Ou nascemos, crescemos, interagimos com outras pessoas e construímos essa identidade um dia após o outro? Qual é o peso que essas coisas aparentemente banais tem em nossa vida?
Quando nos identificamos com um personagem, será que a essência do que temos em comum é inerente ou nos impressionamos tanto com o modo que aquela “pessoa de mentira” agiu em determinada situação que buscamos ser como ela é? Quanto do que somos é realmente nosso?
No último episódio que assisti de Bojack Horseman, um dos personagens tinha um postêr de Alta Fidelidade na parede — que no seriado virou Hyena Fidelity. Acredito que não tenha sido em vão. Assim como os livros de Nick Hornby, a série é repleta de referências à cultura pop. Além disso, em ambos a música não fica apenas em segundo plano, funcionando tanto para dar o tom ao que está acontecendo, como para reforçar a identificação do espectador com o que os personagens estão sentindo. É o tipo de série que depois de assistir você vai atrás da trilha sonora.
Desde as Fábulas de Esopo, até A Revolução dos Bichos, o homem sempre bucou compreender os limites entre o irracional e o racional. Bojack Horseman faz isso colocando animais e seres humanos como semelhantes, interagindo de igual para igual. De modo que eu não saberia dizer se a ideia para a animação surgiu de trocadilhos engraçados — como Cameron Crowe, Cindy Crawfish, Ethan Hawke, Matthew Fox, Scott Wolf e Quentin Tarantulino — ou se desde de o início o objetivo era nos fazer pensar, por exemplo, que humanos ou animais, agindo racionalmente ou por instinto, o mundo continua girando, a vida continua passando e a existência é uma coisa complicada de se entender.
Assim, invariavelmente, o que torna Bojack Horseman e os livros de Nick Hornby tão bons, não são as respostas que encontramos neles, e sim as perguntas que nunca deixarão de existir:
“Sou triste porque escuto música pop? Ou escuto música pop porque sou triste?”
“I’m more horse than a man? Or I’m more man than a horse?”
