A Parte da história que daria um filme adolescente
Sabe quando a gente pontua a nossa vida com fatos? Como quando acontece momentos muito marcantes que você torna isso um ponto da sua vida, como se a partir de tal acontecimento minha vida mudou, ou, você considera esse acontecimento na sua linha do tempo (da vida).
Então, essa história, por muitos anos eu considerei um divisor de águas na minha vida, aquela história marcante que poderia ser um filme, se não fosse uma história tão clichê, e se fosse um acontecimento raro até poderia, mas hoje eu considero que eu só fui vítima de uma historinha, mas que quando aconteceu, parecia mais um tsunami mesmo.
A menina normal da escola, eu, começa a sair com o menino do último ano, mas tudo é escondido porque ele é o galinha da escola e ela é a menina normal. É, tudo começou assim. E eu vou confessar que eu adorava a adrenalina que era aqueles beijinhos sem graça nas salas vazias. A gente enaltece cada pessoa que vou te contar, viu? O cara beijava mal, era esquisito, mas tinha uma certa lábia, e eu era idiota, eu sempre fui trouxa, isso não é de hoje não. Ao contrário da minha carreira profissional, que eu vivia mudando de ideia sobre o que eu queria ser, trouxa era uma categoria de vida que eu sempre fui e continuo sendo.
Eu tava nesse envolvimento, ele namorava a irmã de uma colega, então era sempre um dia de surpresas no colégio, cada dia uma coisa acontecia, e cada dia era uma história nova pra escrever no meu diário, bem adolescente mesmo, adolescentes fazem essas coisas. E eu tava começando a gostar dele, sabe deus porque, eu tava gostando, porque adolescente gosta de gente trouxa, não tem muito o que entender sobre isso.
Além de eu ser abobada, meio sem noção das coisas, eu tinha pessoas a minha volta, que na época considerava “amiga” que eram anos luz a frente na esperteza e no maucaratismo. E eu, mesmo sabendo, e olha, eu sabia que não devia confiar naquelas amizades, eu era trouxa e contava meus segredos e minhas histórias. E foi isso até eu apresentar o babaca que eu gostava pra então “amiga”. A partir desse dia tudo mudou.
Até chegar ao final previsível da história, muita água rolou por baixo dessa ponte. O babaca tinha um amigo, que começou a ficar com a “amiga”, mas eu já sentia, sim, intuição é uma coisa que eu tenho, o problema todo é eu não seguir isso. Eu sabia que a “amiga” tinha se interessado no babaca, mesmo ela tendo ficado com o amigo dele, eu sabia, mas eu não queria ver.
Foram poucos meses, mas teve muita treta, ele pulava de galho em galho, eu ignorava ele, ele vinha falar comigo, eu conversava de boa, logo depois alguma merda acontecia, e foram umas semanas assim. Teve a festa que nós fomos juntos, os dois casais, e todo mundo já não entendia mais nada, porque ela grudou como carrapato no babaca, e eu fiquei sendo consolada pelo amigo dele que ficava com ela.
Fomos a notícia do círculo de amigos, os casais trocados, a coisa já tava ficando chata, eu já tava sofrendo, já tava aquela coisa que machucava, eu já tinha minhas certezas sobre o que tava acontecendo ou estava prestes a acontecer, eu sabia que ela queria, eu sabia. Se era para me magoar, se era uma rivalidade que ela sempre teve comigo, e sem motivo, porque eu nunca incentivei essa rivalidade, eu não sei.
Há pouco tempo tava na moda falar em inveja, rivalidade, o tal do recalque. Eu odeio pensar que ela tinha inveja, porque eu me achava tão normal, tão insignificante e fodida que não podia acreditar que alguém pudesse ter inveja ou algo. Porém, eu sou humana, e eu de fato não sabia o que era, eu só sabia que ela estava atraída pelo cara que eu ficava, e ele por ela. A diferença é que não foi aquela atração que a gente nota que acontece naturalmente, ela forçou a barra, e ele não era nem um santo porque eu mesma ficava com ele ás escondidas da tal “namorada” que ele dizia ter, mas que eu nunca o via com ela em público.
Acontece que eu não sabia me expressar falando, nunca soube, e abrir o jogo com ele, falar como eu me sentia era uma coisa inviável, na minha cabeça, então eu, que escrevia como louca, decidi escrever uma carta, duas, três, cada uma com um conteúdo diferente, mas todas detonando os diversos comportamentos babacas que ele estava tendo. Eu realmente não a culpei, mas deixei claro que ela queria me atingir com o seu evidente interesse nele, porque nesse momento já era quase escancarado, eles já se viam quase todos os dias, ele ia na casa dela, mas sempre “como best friends forever”, mas eu sabia, eu sabia que pra mudar isso era só eu sair da jogada.
E eu, na inocência dos meus recém completados 16 anos fiz a maior besteira da minha vida. Eu entreguei a carta que eu julguei mais correta pra ele. Eu entreguei a porra da carta, cavando minha própria sepultura, porque foi o que faltava pra eles ficarem juntos.
Em menos de dois dias ela já tinha lido a carta, toda a família dela já tinha lido a carta porque ele deu a carta pra ela. Todo mundo que chegava na casa dela ela mostrava a carta. A minha carta. Em uma semana eu virei a amiga víbora, todo mundo queria saber da história, foi um inferno. A maneira como ela contou a história, porque sim, ela contou, e contou pra deus e o mundo, era que eu estava com ciúmes dela e do “amigo” dela, mais uma dezena de acusações baseadas na minha carta e na falta de interpretação de texto.
Era final do ano, aconteceu dezenas de merdas, cada situação mais ridícula como eu e ela passando o ano novo juntas numa cidade do interior, ela com raiva de mim, e eu, idiota, tentando obter o perdão dela. Eu passei umas semanas fora de casa, no litoral, ela também, com ele. Nesse momento foi tipo a confirmação de tudo que eu tinha escrito, mas, como eu era a amiga traidora, ela só fez o que eu “merecia” que ela fizesse. Nesse momento eu já tava superando beijando outras bocas, mas ainda doía. E logo em seguida, para a maior surpresa do público de bairro que adora uma fofoca, eu estava namorando o amigo dele, sim, aquele mesmo que ficava com ela e ela deu um chega pra lá porque queria ficar com o babaca.
Foi um troca-troca curioso? Foi. Foi uma coisa que hoje adolescente faz sem nem piscar? Foi também. Mas foi assim que tudo começou, que eu comecei a namorar o meu primeiro namorado sério, e por muito tempo, na medida de como eu era naquele momento, deu certo por alguns anos.