
12 de maio de 1976
O RIO AUGUSTA
A Prefeitura decretou o fim do rio: ele irá para debaixo da terra.
Por Alexandre Branco, Jornal da Tarde, página 30
Do lado de lá da Paulista, até a Rua Estados Unidos, ela é a Augusta nobre, das lojas caras e sofisticadas, das butiques mais procuradas da cidade, e que agora está tentando melhorar a imagem do cartão postal de São Paulo. A sua nova iluminação a vapor de mercúrio lhe dá mais brilho e beleza, e as calçadas, até o Dia dos Namorados, serão pavimentadas com mosaico português. Toda a rede de fios aéreos foi enterrada e não polui mais o cenário.
Do lado de cá do espigão da Paulista, entre a avenida e a Praça Roosevelt, ela é — ou continua a ser — uma Augustal mal iluminada, de calçamento arrebentado, das casas e lojas de construção antiga. E com um verdadeiro rio que disputa, com os carros, os paralelepípedos semiencobertos por recapeamentos malfeitos: o Rio Augusta.
Esta é a Rua Augusta pobre, que, decidiu a Prefeitura, deverá ter a aparência de sua irmã gêmea, a nobre. O primeiro passo dado para isso foi na semana passada, pelo próprio prefeito Olavo Setúbal, em reunião com o coordenador das administrações regionais, Celso Hahne, e o administrado da Sé, Victor David: acabar com o velho Rio Augusta.
Ainda nesta semana será publicado o edital da Secretaria de Obras e Vias Públicas, para a construção de uma galeria moldada de águas pluviais. A obra poderá ser realizada por uma mini-shield, o “Tatuzinho”, coisa que Celso Hahne considera mais provável, por não atrapalhar o trânsito. A galeria será construída justamente no trecho em que não existe um único bueiro entre as ruas Antônio Carlos e Caio Prado.
É nos dias de chuva, como foi o de ontem, que o Rio Augusta se forma. Ele nasce na Avenida Paulista, e suas águas sujas percorrem mais de mil metros da Augusta pelo mesmo caminho, há quase seis anos.
O curso do rio é regular. Ele desce a Rua Augusta, da Paulista em direção à Praça Roosevelt, pelo lado esquerdo. Em alguns pontos de cheia, ele inunda toda a rua. Normalmente, tem só uma margem à esquerda, localizada na calçada do lado par da Augusta. A margem do lado direito é indefinida, sendo o próprio leito da rua.
A cortina de água que os automóveis formam, subindo ou descendo a Augusta, não escolhe os desprevenidos que serão molhados. Os que conseguem prever a tempo que serão atingidos pela água espirrada pelos veículos realizam as mais variadas contorções para se esquivar.
O Rio Augusta é alimentado por vários afluentes. São as ruas transversais da Augusta, que trazem mais água e sujeira para o rio. As ruas-afluentes são todas as ladeiras que fazem esquina com a Augusta no lado par: Antônio Carlos, Matias Aires, Fernando de Albuquerque, Costa, Antônia de Queiroz, Marquês de Paranaguá (o maior tributário do Rio Augusta) e Caio Prado. Um pequeno bueiro na esquina da Caio Prado é a “foz” do rio, mas não é suficiente para absorver toda a água que desce pela Augusta. Assim, o rio prossegue, Augusta abaixo, continuando pela Martins Fontes.
Como atravessar a Rua Caio Prado? Ali é o ponto onde o rio mais se alastra. Todo o quarteirão Caio Prado — Marquês de Paranaguá fica inundado no lado par. O ponto de ônibus da quadra, vazio. Impossível esperar condução e não ser molhado pelos automóveis ou pelos próprios ônibus.
Nos outros pontos da Augusta, para subir num ônibus — não há saída — , é preciso molhar os pés. Os mais ágeis podem dar um pulo e atingir a calçada ao descer do ônibus e sem molhar muito os pés. Mas os menos habilidosos ou os que carregam pacotes não têm outra saída senão descer do ônibus e enfrentar o rio, a pé.
Papéis, cascas de frutas, garrafas plásticas vazias, latas velhas e toda espécie de detritos são carregados pelo Rio Augusta, sujando as calçadas, como a do Cine Marachá ou do Caesar Hotel.
Pouco depois das 15 horas, os alunos da Escola Estadual do Primeiro Grau São Paulo, na Rua da Consolação, terminam as aulas. Os estudantes, garotas e rapazes de aproximadamente quinze anos, voltam para casa pela Rua Antônia de Queiroz e nem chegam a parar na esquina com a Augusta. Atravessam pisando na enxurrada. Para eles, o Rio Augusta é uma diversão. Rindo bastante, eles molham os sapatos e a barra de suas calças. Somente as crianças pequenas não se molham. Suas mães enfrentam a enxurrada do Rio Augusta carregando as crianças no colo. Não contentes em se molhar, os estudantes ficam observando, atentos, o trânsito, esperando que algum carro espirre água, molhando este ou aquele pedestre.
Quase fim de tarde, com a chuva mais fina, agora quase uma garoa, o Rio Augusta vai baixando de nível, deixando sobre o leito da rua toda a sujeira que carregou. É quando aparecem também os estragos provocados: placas de asfalto foram arrancadas pela enxurrada na altura do número 1.001 e entre as ruas Costa e Fernando de Albuquerque. Algumas esquinas ficam inundadas, como a da Marquês de Paranaguá — onde fica o 4.º Distrito Policial — , a parte mais caudalosa do Rio Augusta.
A galeria pluvial subterrânea, quando estiver pronta, vai acabar com este rio que, como o Tietê e o Tamanduateí, causa tantos prejuízos com suas enchentes. Mas a galeria é apenas o começo da remodelação da Augusta pobre, invejosa da outra Augusta — elegante, sofisticada e luxuosa. “Depois de pronta a galeria pluvial”, diz o administrador regional da Sé, Victor David, “pensaremos na construção de um novo passeio para a velha Augusta.” Assim, a Augusta pobre vai se tornar a Augusta rica.
Reproduzido e revisado por Alexandre Giesbrecht, em 27 de agosto de 2017.
