Apagar graffitis é pior que queimar livros

Rua Augusta, 2013

A ideia de "arte" nunca foi consensual.

E se as tentativas de delimitação conceitual já são em si uma tarefa complicada para almas honestas, calcule quando selvagens disputas políticas atravessam a conversa. Ditar o que é arte, o que um ser humano deve sentir e expressar, quando e onde, é apenas a dimensão patética do autoritarismo, exposta em seu nível mais elementar.

Na Alemanha nazista, exemplo demasiado óbvio talvez, cultuava-se, por exemplo, a dita tradição clássica. Toda a inovação estética trazida pela escola Bauhaus em seus poucos anos de experimentos de vanguarda foram considerados pelo Reich uma "arte degenerada". Gênios como Kurt Shwitters, hoje reconhecido como artista gráfico visionário, foram criminalizados, exilados e por fim ostracizados.

Rua Augusta, 2013

Quero evitar um tom pessoal mas não consigo deixar de fazer aqui uma pequena digressão sobre a minha ideia de arte. Como tanta gente, atravessei as juventudes devorando cultura pop, rock, quadrinhos, séries, cinema hollywoodiano etc, absorvendo sua lógica essencialmente comercial até entender seus limites estéticos e filosóficos, e por fim sua desesperada e estéril autorreferência. Na paisagem hiperconsumista das cidades, questionar a cultura pop é como um anátema, é como romper com um evangelho, é uma mudança violenta no paradigma estético do sujeito, na sua percepção do mundo, com implicações, é claro, na sua ideia de arte. Em meio a esse percurso, com todas as contradições que nos constituem, não me sinto hoje capaz de julgar o que é arte. Só sei do que me emociona, e é uma idiotice inominável achar que isso pode ser imposto a outrem por decreto.

Nessa perspectiva muito pessoal, hoje entendo arte como qualquer manifestação humana que mantém acesa uma vaga lembrança do que a vida poderia ser, ou o próprio mistério da existência. Nesse sentido “arte”, para mim, tem fatalmente um sentido religioso, porque para mim a ideia de mistério se confunde com a ideia de deus.

Eventualmente reconheço como o maior artista humano aquele que vivia nas cavernas e, talvez sem saber que tal gesto transcenderia a finitude de sua carne, desenhou nas suas paredes o mundo que (vi)via. Aquele, ou aquela, foi possivelmente o macaco mais corajoso e brilhante que já existiu. E se esse macaco-humano foi criado por um deus, pode-se supor que esse deus tenha sentido nesse instante um profundo orgulho de seu filho. Foi esse artista pré-histórico, pré-escrita, o primeiro pixador, grafiteiro, pintor.

Tive quando criança o privilégio de ter tido um pai que me levava em exposições de arte. O Palácio das Artes, em Belo Horizonte, para mim se tornou uma importante referência identitária. Quando adulto visitei alguns dos museus de arte mais importantes da Europa, como Louvre, Tate Modern, British Museum, D´Orsay, Berardo, Gulbenkian. Todos me deram algo que ficou em mim, mas acho que nenhum deles me emocionou como um passeio que fiz pela Rua Augusta em 25 dezembro de 2013.

O passeio cujas imagens ilustram hoje esses pensamentos.

Rua Augusta, 2013

Naquela manhã, tive a inédita sensação de caminhar por um museu vivo, pulsante, orgânico e urgente.

Registramos com a câmera do celular quase tudo o que vimos escrito, desenhado e afixado do início da rua até a avenida Paulista. Contemplei ali naquela rua vazia, de portas anormalmente cerradas por causa do feriado natalino, uma arte urbana de alto nível intelectual, estético e político. Não tive mais nenhuma dúvida: o graffiti é uma grande riqueza daquela cidade, um gigantesco patrimônio gráfico, apesar de ainda muito incompreendido. Como foi um dia a pintura impressionista de Monet, o cubismo de Picasso, toda a pintura pós-representativa.

Rua Augusta, 2013

Até esse momento eu ainda me fiava pelas armadilhas do senso comum, e tentava meio inutilmente separar "graffiti" de "pichação”, justificando a criminalização do segundo. Tolice.

Estudar tipografia me faz compreender um pouco melhor a expressão desses sujeitos com seus complexos e originais sistemas de logotipias. Além de respeitar também a coragem desses jovens de todas as partes que se arriscam para deixar sua marca em cidades que os quer invisíveis e silenciados. Documentários como “Pixo” e “Style Wars” servem como boa introdução a um mundo vasto e complexo que se aprende a respeitar à medida que se conhece as histórias de uma multidão de guerrilheiros gráficos que convivem com a criminalização de sua arte tanto na Nova York de 1982 como na São Paulo de 2017. E que afinal parecem mais dignos, mais lendários, mais memoráveis que seus detratores de ocasião. Não existe a contracultura sem trespassar e rabiscar o muro da dita legalidade.

Eu fico imaginando o que Anna Bouillet, minha colega apaixonada por inscrições urbanas a ponto de fazer deste seu tema de dissertação de mestrado, teria a dizer sobre o cataclisma promovido pelo recém-empossado prefeito da cidade de São Paulo. Essa notícia ainda não chegou a ela e não quero ser eu o emissário, o arauto da desgraça.

O sujeito não queimou livros: queimou uma biblioteca inteira.

Mas apagar graffitis é pior do que queimar livros, como faziam nas sinistras celebrações do Reich. Porque apesar da violência simbólica da fogueira, livros são meras cópias de um texto original que está preservado noutro lugar. O graffiti, não. Rolar tinta cinza sobre eles é fazer desaparecer um registro autêntico. É destruir só pelo prazer de destruir, mera demonstração de poder para aplauso de uma plateia rasa, boçal e narcísica, que acha feio tudo que não é espelho de shopping. Ou que teve seu olhar podado pelas superestruturas que temos por aí — família, escola, igreja, trabalho, publicidade, mídia, — de modo a supor que a função da arte é meramente decorativa e utilitária, sempre "inofensiva".

E qual atrocidade política na história dos homens não foi cometida sob aplausos?

No Brasil de 2017, em notória escalada neofascista como de resto todo o Ocidente, há um bloco conservador organizado, poderoso, super-representado nos quatro poderes, que já nem sequer precisa disfarçar seu ódio à arte, à cultura e ao pensamento crítico.

Diz a canção popular de Chico Buarque, escrita em tempos de outras ditaduras, menos sutis: "Hoje você é quem manda: falou, tá falado, não tem discussão. Apesar de você, amanhã há de ser outro dia." Atual depois de 40 anos, como atuais e urgentes são todas as lutas. E se tudo o que importa está em disputa, estética é ponto estratégico numa batalha ideológica e de controle de narrativas.

O primeiro luxo burguês é não militar, escreveu Gilbert Cesbron em Os Santos Vão Para o Inferno. E para desgosto dos que gostam de sossego, como eu e muitos outros, nós estamos em guerra.

Rua Augusta, 2013

H. Milen é jornalista. Estuda práticas tipográficas e editoriais contemporâneas.