O manifesto decaísta

Um fantasma ronda o lado de lá: o lado de cá

Decaístas e delaístas de todo o Brasil: separai-vos!

Divididos pelo rancor incontornado,
pela percepção inversa do Real, 
pela recíproca repulsa desidentitária.

Cada qual com sua bandeira e seus lemas, seus mitos e gritos. 
Seu ethos, seu pathos, seus patos.

Se dois são, 
seja feita a separação!

*

Terras tem-se até demais, e hão de caber as partes.
Água, depende. 
(Ar)risque-se a linha divisória.

*
 
Os dois brasis hão de separar amigos de infância. 
Irmão de irmão, pais e filhos, avós e netos. 
Casados se descobrirão dormindo com o inimigo.
E crianças dirão adeus ao cão.

*

Urge, pois
rasgar o tal gigante em dois:

O Brasil de Cá e o Brasil de Lá.

Duas cosmogonias, duas missões.
Uns cem milhões para Cá, uns cem milhões para Lá.

*

O Brasil de Cá progressista, o Brasil de Lá conservador.
O de Cá libertário, o de Lá autoritário.
O de Cá feminista, o de Lá patriarcado.

O de Cá reciclagem, o de Lá recorde de produção.
O de Cá permacultura, o de Lá agronegócio.
O de Cá orgânico, o de Lá defensivo.

O de Cá teologia da libertação, o de Lá teologia da prosperidade.
O de Cá milagre dos peixes, o de Lá pecado original.
O de Cá apócrifos, o de Lá Velho Testamento.

O de Cá aldeia, o de Lá condomínio.
O de Cá cerca viva, o de Lá cerca elétrica.

O de Cá interiores, o de Lá capitais.
O de Cá bem comum, o de Lá bens imóveis.
O de Cá erradicado, o de Lá patentes.
O de Cá sistema universal, o de Lá planos privados.

O de Cá banda larga, o de Lá televisão.
O de Cá teatro do oprimido, o de Lá mocinho e vilão.
O de Cá bruxas, o de Lá inquisição.
O de Cá onda, o de Lá proibição.

O de Cá turnos livres, o de Lá horas extras.
O de Cá sonho profundo, o de Lá sonho de consumo.
O de Cá zen, o de Lá burn-out.

O de Cá universidade pública, o de Lá MBA.
O de Cá centro cultural, o de Lá shopping center.
O de Cá solidariedade, o de Lá clientela.

O de Cá mineiridade, o de Lá mineirice.
O de Cá Masp, o de Lá Fiesp.
O de Cá Lapa, o de Lá Barra.
O de Cá São João, o de Lá rodeio.

O de Cá autônomo, o de Lá nas mãos de Deus.
O de Cá concentração do bloco, o de Lá concentração da renda.

O de Cá Inconfidência, o de Lá Sete de Setembro.
O de Cá Dia do Índio, o de Lá Descobrimento.
O de Cá Capitão Macaco, o de Lá Coronel Brilhante.

O de Cá Amor, o de Lá Ordem e Progresso.
O de Cá Habsburgo, o de Lá Bragança.

O de Cá para os curiosos, o de Lá para os saudosos.
O de Cá tesão, o de Lá nostalgia.

O Brasil de Cá que virá, o Brasil de Lá que já foi.
Esses que parecem ser um, e sempre foram dois.

*

Que o tempo da separação deixe a raiva dar lugar à saudade.

Que cada lado trilhe seus passos.

Nada tendes a perder a não ser vossos grilos. Organizai-vos!

Uma entre muitas possíveis bandeiras para o promissor Brasil de Cá
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