Não sei por quê, mas fica;

Havia muito que o coração não descompassava das horas. As batidas colocavam significado desconhecido ao tempo. Ele virava pedaço do todo que ainda morava distante. Cada segundo era caminho até aquele par de olhos grandes.

A fenda no tecido do espaço que os colocou no mesmo lugar, na mesma hora, nunca mais existiria. Era um episódio para quem sabe o que não quer perder. Um encontro para quem não tem medo do que pode achar.

Ela sempre se apegou aos fins. Nada lhe dava mais água na boca do que o gosto da saudade. Baseava os dias a lembrar dos dias que gastava procurando o que já foi. Um pouco talvez por medo disfarçado da vida, mas muito por passado ser certeza.

Era quinta-feira, 11h53, sol entre nuvens. Pássaros voavam para longe e ela os invejava. Todos os detalhes daquela casa a incomodavam; principalmente nunca ter pisado lá. No segundo lance de escada, logo depois da terceira porta, ele apoiava o corpo no batente e olhava confuso para uma prancheta. Mais uma existência patética no universo.

Ela derretia por dentro; coração, fígado e estômago agora eram uma massa densa que pesava nos pés, mantendo-a um pouco mais perto do chão. O ar ardia em seu peito, começava a sentir o cheiro da fumaça vinda de dentro. As narinas inflavam em uma velocidade incômoda e desordenada, pareciam anunciar a morte. Nada bom nasce em tamanho caos; exceto a paixão.

Cada centímetro do corpo vibrava em uma frequência estranha, alheia. O cenho franzido denunciava que, apesar de ótimo, não era confortável sentir tudo aquilo em segundos. As borboletas do estômago transitavam por todo o abdômen não romanticamente. Os dedos gelados e nervosos visitavam o pequeno trecho de pele do pulso exposta depois do punho da camisa.

Ele queria explodir aquela sala. Se pudesse escolher qualquer lugar do mundo para estar, escolheria a esquina da casa. Apenas para estar fora. Não via outras pessoas há dias e nada fazia mais sentido. Escutou passos bravos vindo do primeiro andar e não pode evitar revirar os olhos. A indisposição alheia era um insulto. Já viram a situação dele?

Tudo parecia errado, fora do previsto. Os dados da prancheta não batiam e ele escolheria morrer, se pudesse dar-se o luxo do drama. Olhou para o lado e se deparou com um sorriso forçado e torto; talvez o mais bonito que dividiria um cômodo com ele em toda a vida.

O fôlego desaprendeu a pertencê-la. Precisava lembrar de respirar para não sucumbir em uma das mortes mais patéticas da história. Não haviam trocado uma palavra e os olhos já disseram tanto! Eram socorro um do outro.

A sala estava lotada de pessoas apáticas. Riam risos programados, faziam a graça que encaixasse no roteiro e se resumiam a uma existência plástica quase perfeita; tediosa. Ele era revolta calada, a preferida dela. Presenteie seus inimigos com a indiferença muda e os terá vencido. Ou poupado a fadiga, o que já é bom o suficiente.

O olhar dos dois era fixo e contínuo, como se a linha invisível das relações não os permitisse desviar o rosto. A inconstância do coração fazia com que eles quase morressem apenas para sentirem de novo o prazer de dividirem a vida. Poderiam passar anos apenas contemplando a maravilhosa sensação.

Ela já não tinha mais o que fazer ali. Observou o trabalho de todos rapidamente, sem desgrudar por mais que meio segundo do rosto do rapaz. O medo de tornar a olhar e não encontrá-lo era assustador. Na ponta do lápis, não se conheciam há mais do que vinte minutos. Se é que se pode considerar como conhecer apenas respirar o ar do mesmo cômodo.

Não haveria outro fim. Ainda com os olhos presos aos dele, rumou à porta em passos lentos, como se esperasse que a intervenção divina viesse a tempo de impedi-la de ir embora. Atravessou o espaço entre o rapaz e o batente oposto, sustentando a conexão sem a menor timidez.

Os órgãos dele, também derretidos e acumulados nas extremidades, não o prendiam ao chão tanto assim. Alcançou o pulso dela com um leve toque que estremeceu a construção inteira. As luzes piscaram e a escuridão tomou conta da sala por tempo limitado e preciso.

- Não sei por quê, mas fica?

Dessa vez não precisou de muito, só um par de olhos grandes.
Ficou por toda a vida.

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