O transbordar de mim

As lágrimas corriam atropeladas pelo rosto dela e bordavam o contorno de seu sorriso. Eram três, descendo tortas do canto dos olhos e escorrendo vagarosamente. Era a conhecida mania de chorar por tudo. Tão cheia que qualquer estímulo externo a fazia transbordar.
Era a terceira vez naquele dia. Os olhos sempre seguravam um pequeno lago na linha d’água, mas algumas vezes a margem se estendia inevitavelmente pelas pálpebras inferiores. Permanentemente emocionada.
Os tolos diziam que ela era sensível demais, outros traziam a alcunha falsamente positiva de “fofa”, com feições patéticas e sobrancelhas semi arqueadas em uma coroação triste à existência frágil da garota.
Mas ela é fortaleza! Tão forte que aguenta muitos baques da vida sem vacilar. Acontece que sua alma faz-se oceano e corre tudo o que é terra e pele e colo. E rega o universo com partículas líquidas de importância.
Cada lágrima que se lança dos olhos traz nome, cor e história. Toda molécula carrega um pedaço do código que decifra os perigos da moça. Todo desarrolho d’alma marca um tijolo somado à construção infinita que é o caminho dessa mulher.
Estenderam-lhe um lenço a fim de parar as inofensivas gotas salgadas. Ela nunca aceita; não se nega a própria natureza. Deixa que vaze tudo que não lhe cabe e segue com a justiça feita, peito leve e olhos brilhantes; vez de lágrima, outra de esperança. Felicidade também escorre.
