Vida no rejunte

No canto mais úmido do banheiro amarelo e frio crescia musgo. De verde forte, mas também opaco, quase do tamanho de uma colher de sopa. Os azulejos trincados revirados pelo chão abriam contato com a terra suja e indigesta abaixo da casa. As raízes finas e curtas se apoiávam naquele solo e agraciavam o nojo do entorno com um sopro de vida.

A casa toda rangia, caindo aos pedaços. O teto havia cedido espaço para um mofo heróico que engoliu a tinta e pintou o céu de preto. O cheiro que flutuava pelos ambientes era escatológico. Todas as raízes da construção estavam bambas e podres. Não havia espaço para algo bom diante do nada.

Em meio a tanto vazio inutilizado pelo descaso e maltratado pelo tempo que destrói tudo sem dó, havia uma brecha para a vida. Um lampejo orgânico que traz realidade ao cenário. Aquela casa não existia. Imunda, vazia e solitária, o espaço-tempo não a comportava enquanto não fora preciso. Então nasceu o musgo no canto do banheiro e a casa tornou-se necessária.

Como a alegria só existe na dor e a luz apenas brilha na escuridão, a vida só é convidada quando há caos. Tem cara de solução. Tão inexplicável que dá causa para a consequência que já existe. Lugares existem porque há vida e há vida para que lugares existam.

O que há enquanto ninguém está olhando? O musgo, fio de realidade, fez a casa palpável. Ele, mudo, estático e patético. Ela, barulhenta, bamba e patética. O vínculo que os une no mesmo mundo é a banalidade, maior graça concedida; a bênção de não importar e ser indispensável.