O homem encarava o feltro verde com seus olhos arregalados. Em volta da mesa, a multidão esperava uma decisão. Os jogadores nas mesas ao redor haviam parado suas atividades para acompanhar o que se passava. Mas ele parecia congelado.

— E então, senhor? — Perguntou o crupiê. O jogador levantou e permaneceu em silêncio antes de voltar a encarar a mesa. Enxugou o suor da testa com a manga do paletó branco e seguiu girando duas fichas na mão direita. Ele poderia parar ali: as fichas acumuladas pareciam o suficiente para satisfazer um cidadão como ele. Mas talvez o homem precisasse de mais. Quem sabe, a pilha de contas na mesa de casa fosse mais alta do que a de fichas à sua frente. Ou é possível que fosse a ganância humana perturbando o campo das ideias uma vez mais.?

— Por favor, senhor. — Insistiu o crupiê, colocando as mãos nos bolsos do colete vermelho.

— Estou pensando, falou o homem. — Era a primeira vez que dizia algo em algum tempo.

— Eu entendo, senhor. É que não podemos ficar aqui o dia todo. Há outros querendo jogar.

Diante da impassividade do jogador, fez um gesto com a cabeça a um homem que acompanhava a ação alguns passos atrás da multidão.

— Senhor — disse o funcionário, que vestia terno escuro e uma gravata preta em cima da camisa alva, apertando o ombro do jogador. Sinto informar-lhe que precisaremos dar o jogo como encerrado caso você não tome uma decisão. Política da casa, tenho certeza que você compreende.

O jogador virou-se para o homem de terno com olhar de desdém e deu algumas varridinhas com as costas da mão no local onde havia sido tocado.

— Quem é você?

— Sou o chefe da segurança, senhor.

— E o senhor joga cartas, chefe da segurança?

— Não… não, senhor.

— Pois eu jogo. Deixe-me fazer o que sei, e recomendo que o senhor faça o mesmo.

O chefe de segurança ficou parado sem dizer uma palavra, o olhar confuso. Seu rosto enrubesceu, ele virou as costas para a mesa e saiu esbarrando na multidão. Retornou dois minutos depois com dois brutamontes que vestiam uniforme igual ao seu.

— Isso é mesmo necessário? — Perguntou o homem, com voz calma.

— Me desculpe, senhor, mas sua atitude me obriga a tomar medidas. Política da casa.

O homem olhou ao redor e esfregou os olhos por alguns segundos. — Posso ter mais cinco minutos? Estou quase lá.

— Sinto muito. Pegue seus ganhos agora e saia.

— É um ultimato?

— Receio que sim.

— Entendo.

Enquanto o homem pronunciava sua última palavra, o alarme soou e interrompeu o que ele e aqueles ao redor faziam no momento. Três sujeitos mascarados corriam na direção da porta de saída, carregando consigo pesadas sacolas. “Assalto!” Gritou alguém na multidão.

O chefe de segurança e os dois brutamontes correram na direção dos ladrões, ato repetido por uma série de outros homens engravatados.

Só um tempo depois o chefe da segurança retornou à mesa em que se encontrava o jogador indeciso, mas ele não estava mais lá.

— Para onde foi nosso amigo indeciso? — Perguntou ofegante ao crupiê, que organizava as cartas sobre o feltro verde.

— Ia perguntar o mesmo, chefe. Ele sumiu na hora da confusão. Nem levou as fichas. Acho que, no final, ele não dobrou, nem ficou com o que tinha — riu o rapaz.

O chefe da segurança deslizou a mão pelo rosto vermelho, afrouxou o nó da gravata e disse, colocando a mão no ombro do crupiê:

— Meu amigo, sinto-lhe dizer que fomos enganados.