Corpo Elétrico (dir. Marcelo Caetano, 2017, Brasil, 94 min)
Elias é um paraibano de 23 anos que mora e trabalha em São Paulo como assistente de estilista numa confecção de roupas no Centro da cidade. Interpretado pelo estreante no cinema Kelner Macêdo, Elias é um jovem gay e bonito que, tendo terminado um longo relacionamento há pouco tempo, busca se divertir e se conectar com as pessoas, tentando acabar com a solidão que ameaça perturbá-lo.
Corpo Elétrico é um filme simples, que traz um recorte da vida de Elias leve, divertido e, até mesmo, emocionante, como uma noite de sábado com os amigos, regada a cerveja, que corre madrugada a dentro. É também bastante sexy, sem medo de despir, literalmente, seus personagens e jogá-los para se amarem a dois, a três, a quatro… Tudo isso de forma bem íntima e sem muito pudor.

Apesar de qualquer sugestão que seu trailer possa fazer, Corpo Elétrico não é um filme com uma temática necessariamente LGBTQ. Com um núcleo reforçado de personagens LGBTQ e um elenco que ainda conta com as participações da drag queen que inventou o bate cabelo Márcia Pantera e da atriz, cantora e terrorista de gênero Linn da Quebrada, o filme não foca em questões que costumam afligir a comunidade LGBTQ, incluindo naturalmente os personagens no conjunto sem ao menos sugerir que há um destacamento deles da sociedade, o que é bem positivo em termos de tratamento da comunidade LGBTQ no cinema.
Na verdade, é um filme sobre relacionamentos. Tendo um mal — e quase não existente — relacionamento com a família que deixou na Paraíba, Elias encontra amor, carinho, companheirismo e prazer nos colegas de trabalho que encontra na confecção, nos amigos que aparecem em seu caminho, nos relacionamentos amorosos em que se envolve, sejam eles duradouros ou não, e, até mesmo, nas relações que só existem ou existiram na sua cabeça. O que está mais presente, sem dúvidas, é a construção da amizade com os colegas da confecção, dentro e fora dela, que se unem devido aos esforços dobrados para atenderem às demandas de fim de ano. Em uma das cenas, um plano-sequência onde os personagens caminham por uma rua no Centro até chegarem em um bar após o expediente, o diretor mostra a naturalidade da relação construída entre Elias e seus colegas, mesmo Elias tendo um cargo superior ao deles na confecção. Essa aproximação, no entanto, parece despertar certa desconfiança nos chefes dele, que o chamam de canto para alertá-lo sobre sua posição na confecção.

É o primeiro longa-metragem escrito e dirigido por Marcelo Caetano, que trabalhou na produção de grandes filmes da cena independente do cinema nacional lançados nos últimos anos, como Tatuagem (2013), Boi Neon (2015), Mãe Só Há Uma e Aquarius, ambos de 2016, esse último talvez o mais conhecido, pelo buzz provocado por um protesto realizado no Festival de Cannes, em maio do ano passado, contra o golpe à democracia ocorrido no Brasil à época do seu lançamento e o boicote que sofreu em seguida, nos cinemas nacionais, dos que foram contrários ao protesto. Em revés, esse mesmo protesto acabou gerando uma publicidade gratuita que levou milhares de pessoas, adversas ao golpe, aos cinemas para prestigiar o filme, que nada tem a ver com política ou a situação do país.
Os trabalhos em direção mais recentes de Caetano são os curtas Verona, de 2013, e Na Sua Companhia, de 2011, que, de certa forma, parecem fazer parte do universo de Corpo Elétrico, com similaridades no ritmo de desenvolvimento da história; na fotografia — dirigida por Andrea Capella, que também foi responsável pela fotografia de Na Sua Companhia — ; na trilha sonora e na forma como é aplicada em algumas cenas, como se não devesse estar ali, mas que acaba funcionando no final; e nas cenas de sexo, bastante intimistas, que além de sensuais, são bonitas.

Em Corpo Elétrico, não espere um começo, meio e fim para a história. Não há começo ou fim, antes ou depois, apenas aquele momento na vida de Elias, que, inclusive, acaba de forma abrupta para o espectador. No entanto, Marcelo Caetano fez um bom trabalho ao aprofundar os relacionamentos de Elias, amarrando as ligações e mostrando as amizades mais como amizades propriamente ditas do que como relacionamentos de dependência em momentos de desgaste físico e/ou emocional. É um filme gostoso de se ver.
