(Já pode chamar de clássico?) A franquia Premonição (“Final Destination”)

14 SET 2017 — Estreou esse mês, na plataforma de streaming Netflix do Brasil, a franquia Premonição (Final Destination), lançada nos cinemas na virada do século, há dezessete anos, trazendo um garoto que tinha a visão de que o avião em que havia acabado de embarcar explodiria ao decolar, matando todos a bordo. Desesperado, o garoto, Alex Browning (Devon Sawa), causa um tumulto e acaba sendo expulso do avião, com mais alguns colegas. Em seguida, concretizando sua visão, o avião decola e explode minutos depois. Porém, todos que saíram do avião, embora acreditassem terem se salvado, começam a morrer em acidentes esquisitos. Junto de Clear Rivers (Ali Larter), outra sobrevivente da explosão, e com a ajuda de um estranho agente funerário, Alex descobre que interferiu nos planos da Morte e, então, procura enganá-la mais uma vez para manter a si mesmo e aos seus amigos vivos, ficando atento aos sinais que passa a receber.

Pôster de “Premonição” (Final Destination) (Foto: New Line Cinema)

Essa é a premissa do primeiro filme, lançado em 2000, e de todas as quatro continuações que teve a franquia Premonição. O filme foi dirigido por James Wong, em seu primeiro trabalho como diretor, e trazia um suspense interessante, apelativo e que fazia o espectador ansiar pela próxima morte (algo que era muito comum — torcer contra os personagens — em filmes de franquias clássicas como A Hora do Pesadelo e Sexta-Feira 13). A fórmula se sustentou pelos quatro próximos filmes, decaindo em alguns pontos e melhorando em outros: embora a qualidade em história e roteiro tenha caído drasticamente, por exemplo, as mortes tiveram uma grande melhoria em termos de criatividade. A explosão do avião no primeiro filme, que assustava por trabalhar com um medo comum das pessoas, foi logo superada pelos acidentes nos filmes seguintes.

Na verdade, não necessariamente as mortes em si melhoraram em criatividade. Os acidentes que dão início a cada filme costumam ser os que mais enchem os olhos, de fato, mas o clima de tensão construído no decorrer dos filmes prende o espectador na cadeira, que tenta descobrir, muitas vezes sem sucesso, como a morte se dará no final. São criadas diversas situações onde tudo passa a ser uma arma e/ou perigoso, impossibilitando que as mortes sejam previsíveis. Na maioria das vezes, a tática funciona, entregando uma bela morte como desfecho às ações da Morte que, mesmo não estando presente fisicamente, faz de tudo para que os jovens sejam levados, conforme seus planos. Porém, algumas vezes, com a intenção de se manter imprevisível, a morte acaba sendo bem aquém do que as circunstâncias em que o personagem se encontra. Nessas horas, a gente manda um xingamento para a tela e espera que a próxima morte seja um pouquinho melhor. Um aviso antes de continuarmos: só dá para levar Premonição a sério até certo ponto. Em dado momento, você tem que abraçar as cenas trashes, o roteiro mal resolvido e as péssimas atuações ou desistir e sair pedindo seu dinheiro de volta.

Pôster de “Premonição 2” (Final Destination 2) (Foto: New Line Cinema)

Em Premonição 2 (Final Destination 2, 2003), Kimberly (A. J. Cook) está saindo de viagem com alguns amigos quando prevê que um engavetamento vitimará dezenas de pessoas na estrada pela qual dirige naquele momento. Ao voltar para a realidade e perceber o que havia acabado de acontecer, Kimberly bloqueia o trânsito e evita que algumas das pessoas morram no acidente. Assim, tentando mais uma vez enganar a Morte, os personagens buscam descobrir os planos da Morte e, em dado momento, passam a acreditar que uma nova vida pode ajudar todos os que se salvaram do engavetamento a continuarem vivos.

O filme é dirigido, dessa vez, por David R. Ellis (Celular: Um Grito de Socorro, Serpentes a Bordo) e serve como uma continuação direta para o primeiro filme, contando, inclusive, com a presença do seu único sobrevivente e atando as histórias dos novos personagens às dos antigos. O acidente inicial, um pouco mais longo que no primeiro filme, é um dos melhores — se não o melhor — de toda a franquia mas, diferentemente do anterior, a continuação já tem cenas mais trashes e a história é um pouco mais confusa e mal resolvida, embora não fuja em nada da sua premissa original.

Pôster de “Premonição 3” (Final Destination 3) (Foto: New Line Cinema)

Premonição 3 (Final Destination 3), lançado três anos após o último, em 2006, vem para dar novo fôlego à série. James Wong assume a direção mais uma vez e traz mortes mais diretas, sem muita firula. Parece que a Morte perdeu um pouco da paciência nesse e se tornou mais prática —e talvez por isso o filme tenha o ritmo mais acelerado que os demais.

Wendy (Mary Elizabeth Winstead) está prestes a ser formar no colégio McKinley High e é a responsável por fotografar os estudantes para o anuário de fim de ano em uma ida a um parque de diversões. Porém, quando adentra a montanha-russa, chamada de Voo do Diabo, Wendy tem uma súbita visão de que ela e seus amigos morrerão no brinquedo, que descarrilará. Em pânico, ela tenta impedir que o acidente aconteça, mas não consegue e alguns de seus amigos — incluindo seu namorado, Jason (Jesse Moss) — acabam mortos.

Afastando-se dos seus antecessores, a única relação com os filmes anteriores é a citação de Kevin (Ryan Merriman), um dos sobreviventes ao acidente da montanha-russa, à explosão do voo 180 alguns anos antes e as misteriosas mortes subsequentes. Logo, Wendy descobre que os sinais indicando as mortes dos amigos estão nas fotos que tirou no parque de diversões e, então, com a ajuda de Kevin, busca forma de evitá-las.

Premonição 3 daria um bom final para uma, até então, trilogia, mas sabemos que Hollywood não trabalha dessa forma: quanto mais algo rende, mais será explorado. Dessa forma, veio um quarto Premonição.

Pôster de “Premonição 4” (The Final Destination) (Foto: New Line Cinema)

Com a promessa de encerrar a franquia, com trailers que prometiam que a morte havia guardado o melhor para o final, David R. Ellis alterna mais uma vez na direção com James Wong e volta para Premonição 4 (The Final Destination, 2009). Para um possível encerramento da franquia, Premonição 4 é, sem dúvidas, o pior filme de todos. Na trama, que se passa dez anos após a explosão do voo 180, Nick tem a visão de que um acidente ocorrerá durante a corrida que assiste com seus amigos, matando-os. Como sem isso não teria filme, Nick consegue tirar os amigos do local e o acidente, de fato, acontece.

Esse é o primeiro da franquia que faz uso da tecnologia 3D, que em 2009 já começava a se popularizar e virar o que é até hoje: uma forma muito fácil de ganhar mais dinheiro com bilheteria e não acrescentar nada à experiência cinematográfica. Enfim, com o advento do 3D, as mortes foram incrementadas para que, além de serem gráficas e nojentas ao máximo, também acontecessem bem na cara do espectador. Para piorar, faltou criatividade na elaboração das mortes desse filme, que são de longe as piores de toda a franquia, muito trashes e forçadas. Juntando isso a um elenco bonito, mas extremamente sem graça, difícil de simpatizar e repleto de péssimas atuações, composto por Bobby Campo (Being Human, Scream: The TV Series), Shantel VanSanten (One Tree Hill, Shooter) e Nick Zano (Melrose Place, 90210), temos a abertura para que um novo filme seja feito para tentar encerrar a franquia de uma forma menos escrota.

Pôster de “Premonição 5” (Final Destination 5) (Foto: New Line Cinema)

E foi exatamente o que aconteceu. Em 2011, agora nas mãos de Steven Quale (que já havia trabalhado com James Cameron em Titanic, de 1997, e Avatar, de 2009), Premonição 5 foi às telas na tentativa de dar um encerramento digno à franquia de sucesso. O filme marca o retorno de Tony Todd como o agente funerário Bludworth (Tony Todd), ausente desde o segundo filme, personagem que parece saber tudo sobre os planos da Morte, como se, até mesmo, fosse a própria (algo que nunca foi confirmado, mas é bem explícito).

Na história, Sam (Nicholas D’Agosto) salva alguns de seus colegas de trabalho ao prever que a ponte onde o ônibus da empresa está, a caminho de um retiro, se romperá, matando a todos. O filme, de fato, busca finalizar a franquia, o que fica claro ao seu encerramento, mas acaba desequilibrando a sua mitologia ao introduzir novos elementos que não foram vistos nos demais filmes. Nesse filme, por exemplo, Sam acaba descobrindo que se uma pessoa morrer no lugar de uma que foi salva no acidente e agora está na mira da morte, essas pessoas “trocam de vidas”, uma ficando com o tempo de vida da outra. Essa é uma nova teoria que não apareceu nos outros filmes e, embora seja uma forma de inovar a franquia há muito batida, entra em conflito com a proposta de encerrá-la de vez.

Melhor que o quarto filme, Premonição 5 só vem para confirmar o quanto a série estava desgastada, com um elenco quase tão ruim quanto do filme anterior e mortes extremamente frustrantes e exploradas para encherem os olhos dos adoradores da tecnologia 3D, que está presente mais uma vez. No entanto, o encerramento que dá a série é interessante e, até mesmo, saudoso, deixando o sentimento de que o filme não foi uma total perda de tempo.

Cena de “Premonição” (Final Destination), primeiro filme da série. (Foto: New Line Cinema)

Juntos, os filmes arrecadaram mais de US$ 260 milhões em bilheteria ao redor do mundo e fizeram bastante sucesso. Embora o quinto filme tenha dado conta de encerrar a franquia, não estranhem se decidirem ressuscitá-la no futuro. Em 2010, Jogos Mortais: O Final (Saw 3D: The Final Chapter, dir. Kevin Greutert) prometia encerrar o legado de mortes do serial killer Jigsaw, mas está prevista para 27 de outubro desse ano, nos Estados Unidos, a estreia de Jogos Mortais: Jigsaw (Jigsaw, dir. Michael Spierig & Peter Spierig), novo filme da franquia.

Em Hollywood é assim: algo só está acabado até não estar mais. Porém, contando com a queda de qualidade da franquia Premonição durante os anos, esperamos que ela continue morta e enterrada, assim como seus personagens.