James Cameron acredita que “Mulher-Maravilha” é um retrocesso para a representação feminina no cinema Hollywoodiano

29 AGO 2017 — Às vésperas do relançamento de seu clássico de 1991, O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (Terminator 2: Judgment Day), que reestreia hoje nos cinemas dos EUA totalmente remasterizado e em 3D, James Cameron, o homem que também esteve por trás de Titanic (1997), filme que, por muito tempo, foi a maior bilheteria mundial e até hoje é um grande sucesso, concedeu uma entrevista para o The Guardian onde, dentre outros assuntos, falou do recente sucesso de crítica e bilheteria, Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017).

James Cameron e Arnold Schwarzenegger no set de “O Exterminador do Futuro”, em 1984. (Foto: IMDb/ Metro-Goldwyn-Mayer Studios Inc.

Dirigido por Patty Jenkins, conhecida anteriormente por seu filme Monster: Desejo Assassino (Monster, 2003), baseado na história real de Aileen Wuornos, uma prostituta que acabou se tornando uma assassina em série, Mulher-Maravilha faz parte do DC Extended Universe (DCEU), franquia criada pela Warner Bros. Pictures para bater de frente com o Marvel Cinematic Universe (MCU) da Marvel Studios, e busca contar a história de origem de Diana Prince, a Mulher-Maravilha, introduzida em Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice), de Zack Snyder, em 2016. O filme termina de pavimentar o caminho para Liga da Justiça (Justice League), a ser lançado em novembro desse ano, e, dentre todos os filmes já lançados pelo DCEU — acrescente à lista O Homem de Aço (Man of Steel, dir. Zack Snyder, 2013) e, mais recentemente, Esquadrão Suicida (Suicide Squad, dir. David Ayer, 2016) — , foi o mais bem recebido pela crítica e o público, e arrecadou, até o momento, mais de 800 milhões de dólares em bilheteria ao redor do mundo, tirando de Mamma Mia! (dir. Phyllida Lloyd, 2008) o título de “filme dirigido por uma mulher com a maior bilheteria de todos os tempos”.

Imagem promocional de “Mulher-Maravilha” (Wonder Woman), dirigido por Patty Jenkins (Foto: Divulgação)

Ao comentar sobre o filme, James Cameron afirma que Mulher-Maravilha é um “retrocesso” e que todo o buzz que Hollywood está fazendo sobre ele é “equivocado”, pois é só a “Hollywood masculinizada fazendo a mesma coisa de sempre”. Cameron justifica sua resposta:

“Ela é um ícone objetificado. (…) Não estou dizendo que não gostei do filme mas, para mim, é um passo atrás.”

O diretor ainda menciona Sarah Connor, personagem da franquia O Exterminador do Futuro, dizendo que ela “não era um ícone. Ela era forte, ela era perturbada, ela era uma mãe terrível, e ela ganhou o respeito da audiência.” A entrevistadora, Hadley Freeman, parece concordar com Cameron ao dizer que Sarah Connor era “forte e totalmente desinteressada em agradar quem quer que fosse, muito menos o olhar masculino” e que “se a personagem era uma raridade em 1991, ela parece incrivelmente única agora”.

Linda Hamilton interpretou Sarah Connor em “O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final” (Foto: IMDb/TriStar Pictures)

No filme de Patty Jenkins, Hipólita, rainha de Tesmicira e mãe de Diana, conta à filha que quando Ares, o deus da guerra, com inveja da humanidade criada por Zeus, envenenou os corações dos homens, que outrora eram justos e bons, com ciúmes e suspeita, voltando uns contra os outros, os deuses criaram as Amazonas com o intuito de encher os corações dos homens com amor e restaurar a paz na Terra. Embora não faça alusão à beleza das Amazonas, o núcleo das guerreiras é composto por belas atrizes como Connie Nielsen (Hipólita), Robin Wright (Antíope), Lisa Loven Kongsli (Menalippe), Ann Ogbomo (Philippus) e, claro, Gal Gadot (Diana/Mulher-Maravilha).

Cena do filme “Mulher Maravilha” (Foto: Warner Bros. Pictures)

A impressão que o comentário de James Cameron deixa é de que uma mulher não pode ser bonita e forte ao mesmo tempo, ela só pode ser um ou o outro, o que seria um verdadeiro retrocesso. Remete um pouco à mania de alguns machistas de, quando uma mulher se declara feminista, questionarem quanto aos pelos em suas axilas.

Em sua página no Twitter, Patty Jenkins respondeu aos comentários do diretor. Ela disse que “a falta de habilidade de James Cameron para compreender o que Mulher-Maravilha é, ou o que representa, para as mulheres ao redor do mundo não é surpreendente pois, embora seja um ótimo cineasta, ele não é uma mulher”. Ela ainda menciona seu filme Monster: Desejo Assassino, onde Charlize Theron recebeu um Oscar por sua interpretação como Aileen Wuornos e chamou atenção por, além de sua performance, sua transformação na personagem: “se mulheres sempre tiverem que ser difíceis, duras e problemáticas para serem fortes, e nós não estamos livres para sermos multidimensionais ou celebrarmos um ícone das mulheres em todo lugar porque ela é atraente e amorosa, então nós não caminhamos muito, não é mesmo?”.

Charlize Theron e Christina Ricci em cena do filme “Monster: Desejo Assassino” (Monster), dirigido por Patty Jenkins (Foto: IMDb/Newmarket Films)

Jenkins finaliza a sua resposta dizendo que mulheres podem e devem ser tudo, assim como os personagens masculinos também devem ser:

“Acredito que mulheres podem e devem ser TUDO assim como os personagens principais masculinos devem ser. Não há um tipo certo ou errado de mulher poderosa. E a audiência feminina massiva, que fez desse filme o sucesso que é, certamente pode escolher e julgar seus próprios ícones de progresso.”
Gal Gadot e Patty Jenkins no set de “Mulher Maravilha” (Foto: IMDb/Warner Bros. Pictures)

Patty Jenkins não é a primeira mulher forte a entrar na vida de James Cameron. O diretor já foi casado com a Sarah Connor de seus filmes, Linda Hamilton, com quem teve uma filha, e com a também cineasta Kathryn Bigelow que, no Oscar de 2010, arrancou das mãos do ex-marido os principais prêmios da noite (“Melhor Filme” e “Melhor Diretor”) com seu filme Guerra ao Terror (The Hurt Locker, de 2008). James Cameron disputava com Avatar (2009), que demorou quase quinze anos para chegar às telas desde que Cameron começou a escrever o seu roteiro, em 1995. Apesar de, atualmente, ser a maior bilheteria de todos os tempos, com quase 3 bilhões de dólares arrecadados ao redor do mundo, Cameron parece ainda ter certo ressentimento por ter perdido os prêmios aquela noite.

Em entrevista ao The Daily Beast, no começo desse ano, Cameron comentou o preconceito que filmes blockbusters (campeões de bilheteria) sofrem por parte da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Oscar:

Poucas vezes na história do Oscar um filme altamente popular foi bem recebido. Geralmente a Academia assume a posição de ‘é nosso dever aristocrata dizer aos menos favorecidos o que eles deveriam assistir’ — e eles não premiam os filmes que as pessoas realmente querem ver, aqueles que eles estão pagando dinheiro para ver. E a Academia está dizendo para eles ‘Sim, você acha que gosta disso, mas você deveria gostar disso’.”

Um comentário um tanto prepotente e esnobe, mas não é uma novidade quando vindo de James Cameron. Porém, Cameron vai ter que engolir a amarga derrota para a ex-esposa — à categoria de “Melhor Roteiro Original” ele nem mesmo foi indicado, embora tenha trabalhado no roteiro de Avatar por anos, e o prêmio acabou indo para as mãos de Bigelow também — , assim como vai ter que engolir que as mulheres podem ser bonitas e fortes e o que mais elas quiserem ser.

As coisas não estão mais como estavam em 1991. Elas mudaram um tanto.