(Se você é do Rio de Janeiro…) Tom na Fazenda (Tom à la Ferme)

Está em cartaz, em sua última semana, no Teatro SESI Centro (Av. Graça Aranha, 1), no Rio de Janeiro, o espetáculo Tom na Fazenda. Baseado no texto do dramaturgo canadense Michel Marc Bouchard, a peça conta a história de Tom, um publicitário que, após a morte de seu companheiro, dirige até a fazenda da família do amado para o seu funeral. Ao chegar no lugar, descobre que a família do companheiro nunca ouviu falar dele — a não ser pelo irmão, Francis, que ameaça Tom para que se mantenha calado quanto à “condição” de seu irmão. Tom, então, se passa por um amigo e conquista o carinho de Ágata, sua sogra. Assim, por um pedido dela, Tom fica alguns dias na fazenda e se enturma na rotina, conhecendo um pouco mais sobre a família do namorado, desenvolvendo um relacionamento curioso com Francis e servindo como um filho substituto para Ágata.

“Tom na Fazenda” (Foto: Divulgação/José Limongi)

A peça aborda temas como sexualidade, preconceito e luto, mas trata principalmente de descobertas, em diversos sentidos. A chegada de Tom faz com que os ânimos de Ágata se aflorem, pois vê no menino a oportunidade de saber um pouco mais sobre o filho que a deixou há tanto tempo para viver na cidade, sem muitas explicações. Tom, por sua vez, chega à fazenda bastante ingênuo e, portanto, totalmente suscetível aos ataques de Francis, mas conforme vai imergindo na rotina da fazenda, sua visão sobre as coisas e, consequentemente, seu próprio eu vão se alterando. O caso de Francis, por fim, é o pior: por mais que busque sair da condição em que se encontra, atado à fazenda e com a necessidade de cuidar de sua mãe, idosa e viúva, levanta barreiras extremamente resistentes para si mesmo, que não o permitem ir além das cercas da fazenda, e espera que o destino aja para que, eventualmente, saia daquela situação e daquela cidade, que não o quer bem por conta do seu passado.

Gustavo Vaz e Armando Babaioff em “Tom na Fazenda” (Foto: Divulgação)

É um espetáculo intenso, uma montanha-russa de emoções. A todo momento, sem qualquer sugestão, a trama vai do drama para a comédia e então de volta para o drama, só que dessa vez beirando o clima de um filme de terror. A trilha sonora tem papel fundamental para dar ritmo a essas emoções, mas também Francis, que é bastante imprevisível e desequilibrado emocionalmente. Quando Tom começa a confiar em Francis, ele se mostra indigno de confiança, mas Tom acaba pegando os traquejos e aprendendo a lidar com o cunhado. O relacionamento dos dois acaba sendo uma parte muito importante da história, seja em seus entendimentos ou seus conflitos que, aliás, permeiam a história.

Cada personagem tem seus conflitos internos, assim como conflitos uns com os outros: Tom com o namorado morto, que nunca falou dele para a família; Ágata, que acredita não saber nada sobre o filho mais novo; e Francis, que não quer que a mãe sofra mais com a verdade sobre a orientação sexual do seu irmão. Todos esses conflitos se somam ao luto de cada um e o palco parece que vai explodir, tamanha é a violência com que essas emoções afloram nos personagens.

Xavier Dolan e Pierre-Yves Cardinal em cena de “Tom na Fazenda” (“Tom à la Ferme/Tom at the Farm”), filme de 2013 (Foto: Divulgação)

Em 2013, uma adaptação cinematográfica entrou na programação de alguns festivais internacionais, sendo bastante bem recebida e angariando alguns prêmios. Dirigido, roteirizado e estrelado por Xavier Dolan — que costuma ter essa participação completa em seus filmes, como em Eu Matei a Minha Mãe (J’ai tué ma mère, 2009) e Amores Imaginários (Les amours imaginaires, 2010) — , o filme é essencialmente fiel ao texto para o teatro, mas não traz a emoção explosiva que a peça traz. Escrito por Dolan em parceria com Bouchard, o roteiro deixa de fora coisas como os pensamentos angustiantes de Tom, que intercalam suas ações e diálogos na peça e dão profundidade ao seu pesar, mostrando um Tom que sofre, mas sem a intensidade que profere em suas palavras. Não parece que Tom perdeu o amor de sua vida, como diz, mas apenas um conhecido, um ente querido, e que a vida logo seguirá. A sensação se estende aos demais personagens: há um luto velado e não muito mais que isso.

Trailer do filme “Tom na Fazenda” (“Tom à la Ferme/Tom at the Farm”), com legendas em inglês.

Embora não esteja fadado às limitações do teatro, em questões de cenário, por exemplo, o filme não ganha em nada por isso, mostrando que a história é muito mais sobre os personagens do que qualquer outra coisa e que as descrições dos ambientes e objetos de cena, feitas no palco pelos próprios personagens quando necessárias para criarem as cenas no imaginário do espectador, são mais do que suficientes. Talvez o filme devesse apelar para algo mais simples, porém grandioso, como o que foi apresentado em Dogville, filme de 2003 de Lars von Trier. No entanto, sem desconsiderar nem um nem outro, podemos dizer que o filme de Dolan é a entrada de um jantar especial e a peça de Bouchard é o prato principal e, até mesmo, a sobremesa. É a lembrança que fica.

Cenas de “Tom na Fazenda”, com Armando Babaioff, Gustavo Vaz e Kelzy Ecard (Foto: Divulgação)

A versão nacional da peça foi idealizada por Armando Babaioff, que também traduziu o texto e é responsável por interpretar Tom. Complementam o elenco Gustavo Vaz como Francis, Kelzy Ecard como Ágata e Camila Nahry como Sarah, uma personagem que se junta à trama próximo ao seu fim. A peça tem direção teatral de Rodrigo Portella, fundador da Cia Cortejo e responsável por dirigir, aproximadamente, vinte espetáculos em sua carreira; e estreou no centro cultural Oi Futuro Flamengo, no Rio de Janeiro, no primeiro semestre de 2017. Desde então, fez passagens por cidades como São Gonçalo, Madureira, Niterói, Barra Mansa, Nova Friburgo, Teresópolis e São João de Meriti, no Rio de Janeiro, Londrina, no Paraná, e São Paulo.

Indicado ao Prêmio Shell de Teatro do Rio de Janeiro, dentre outros prêmios, Tom na Fazenda reestreou em curta temporada, no dia 30 de agosto, no Teatro SESI Centro. As últimas três apresentações serão na quinta-feira (amanhã, dia 28) e sexta-feira (29), às 19h30, e no sábado (30), às 19h. Os ingressos variam de R$ 20,00 (meia-entrada) a R$ 40,00 (inteira).