O Aleph, livro paradigmático de Jorge Luis Borges, completa 70 anos em 2019 e segue indagando sobre os paradoxos da linguagem, do universo e da experiência humana

Arte: Karina Freitas

Quem caminha pelo bairro portenho de Constitución, a uma altura incerta da Avenida Juan de Garay, talvez se lembre que ali, e apenas ali, é possível vislumbrar todos os pontos do infinito cosmos. Por exemplo: o geométrico piso de mosaico da antiga Biblioteca Nacional da Rua México, que Borges dirigiu num interstício peronista; um banco branco em Adrogué onde certa noite as mãos do escritor tocaram as de Estela Canto; o número 2135…


Escondida nos galhos de um cedro do quintal enquanto a família dorme a sesta, encafurnada nas dependências dos empregados, oculta detrás de um par de óculos de gatinho, frequentemente tampando o rosto com as mãos nas fotografias. Difícil desvendar um personagem tão esfíngico e brumoso como a escritora argentina Silvina Ocampo, desafio que sua conterrânea Mariana Enríquez — do livro de contos As coisas que perdemos no fogo (Intrínseca, 2017) — encarou em La hermana menor: un retrato de Silvina Ocampo. …


Imagens: NASA

Vinte anos e uma saudade em constante e acelerada expansão.

No dia 27 de novembro de 1997, um mês após a sonda Cassini-Huygens ser lançada de uma plataforma do Cabo Canaveral, era meu avô Irineu quem partia rumo ao desconhecido. A missão de Cassini começava quando a sua chegava ao fim. Naquele mesmo ano eu decidia que seria jornalista, mas ainda levaria vinte anos para escrever este texto. Porque perfilar um avô não é tarefa simples, menos ainda este avô.

Meu primeiro morto, mais vivo que os vivos, mais presente do que nunca.

Agora que penso, passei mais tempo recordando…


Daniel Giménez Cacho interpreta Zama. (Divulgação)

[Verão de 2010. Lucrecia Martel sobe de barco o Rio Paraná, de Buenos Aires até Assunção, no Paraguai. Em meio a tormentas, mosquitos e um calor pegajoso, a cineasta argentina mergulha na leitura de Zama, romance de Antonio Di Benedetto considerado o precursor do existencialismo na América Latina. Filmar uma história sobre o fracasso se tornaria, então, o antídoto para se reconciliar com o próprio fracasso de não filmar O Eternauta, projeto que naufragara após dois anos de trabalho. Fim do epílogo.]

Quem é Zama? Por que (re)contar hoje uma história escrita nos anos 50 e ambientada no fim do…


Foto: Elisandro Dalcin

Pergunto a uma das principais vozes da literatura de terror na Argentina o que mais lhe dá medo em 2017. “Mauricio Macri”, responde prontamente Mariana Enriquez, quase derrubando sua xícara de café. “Se bem que o presidente de vocês é de um temor literal, não.”

Em uma cafeteria do Bairro de Caballito, centro exato do mapa portenho, a autora fala sobre política, violência, a porosidade do gênero terror e a construção literária de uma Buenos Aires imunda e perversa, avessa à versão europeia idealizada for export.

Desde que estreou na ficção aos 21 anos, com o romance Bajar es lo…


Arte: Halina Beltrão

Resenhado por Coetzee, elogiado por Saer, filmado por Lucrecia Martel: romance mítico de Antonio Di Benedetto chega a 2017 com o mesmo frescor de seis décadas atrás

À margem do rio, um homem espera. Quase pode ouvir os canhonaços que anunciam o barco trazendo notícias da coroa, ou, pelo menos, uma carta de Marta. Mas não. Do velho píer, tudo o que ele avista no leito do rio é o cadáver de um macaco morto, não de todo decomposto, flutuando no remoinho em um tedioso vaivém. “A água queria levá-lo e o levava, mas enredou-o entre as estacas do píer…


Cena de Paula, de Eugenio Canevari. Foto: Divulgação.

Longa de estreia do argentino Eugenio Canevari, “Paula” é um silencioso ensaio sobre a indiferença e a desigualdade social, com ecos de “O Pântano”, de Lucrecia Martel.

“Pueblo chico, infierno grande”, diz um provérbio espanhol que bem pode ser transplantado para outras geografias: o tamanho de um vilarejo, dizem, é inversamente proporcional à gravidade das intrigas e tragédias que ocorrem nele. A máxima está presente nessa história periférica, ambientada na zona rural da província de Buenos Aires, que acaba de entrar em cartaz na capital portenha (texto de 26/07/2016) após rodar vários festivais estrangeiros.

Paula, de Eugenio Canevari, estreou mundialmente…


Pipi Piazzolla quebrando tudo. (Foto: divulgação)

Com dezessete anos de estrada, o vertiginoso sexteto de jazz Escalandrum teria deixado orgulhoso o renovador do tango argentino.

É sempre um pouco triste e trágico encontrar um cassete de Astor Piazzolla naqueles cestos de promoções do Mercado de San Telmo. Porque não deixa de ser incoerente isso de encapsular uma produção musical tão à frente do seu tempo em uma tecnologia obsoleta como essas fitas magnéticas de sessenta minutos — a despeito do bigodinho anacrônico do bandoneonista estampando sua capa de plástico.

Poucas figuras na história da música argentina levaram o conceito de vanguarda tão a sério quanto Piazzolla…


Cortázar e sua gata Flanelle. (Foto: reprodução)

Um obituário disfarçado de resenha literária sobre a obra do ítalo-mexicano Fabio Morábito

Morreu nossa gata. Recebi a notícia um minuto após terminar de ler um livro de Fabio Morábito. Como de costume, anotei na última folha o local, data e hora do fim da leitura, e fiquei ali contemplando a plasticidade daqueles números: 21/06/2016, 15h51. Que belo dia para ser lembrado, o primeiro do inverno, o último daquela criaturinha de pelagem cinzenta que tanto amamos e com quem convivemos por mais de uma década.

Desde que nos mudamos para Buenos Aires havia o temor de que um eventual rito…


Marcha Ni una Menos, em Buenos Aires. (Fotos: Elisandro Dalcin.)

Lugar de mulher é na rua, na luta, na literatura.

Dia desses, caminhando pela praça de Mayo, cheguei ao cruzamento de Diana Sacayán com Claudia Schaeffer, duas ruas de Buenos Aires que eu desconhecia. Bastou me aproximar da placa para entender que se tratava de uma intervenção urbana em memória de duas vítimas de feminicídio na Argentina: aquele, na verdade, era o cruzamento da avenida Rivadavia com a calle Reconquista.

Primeira trans a ter sua nova identidade reconhecida juridicamente no país, Diana Sacayán esteve presente na histórica manifestação “Ni Una Menos”, que lotou a praça do Congresso no dia 3…

Mariana Sanchez

Jornalista e tradutora. Entre Curitiba e Buenos Aires.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store