Foto: Elisandro Dalcin

Música 3D

Inventor da desconhecida e revolucionária holofonia, Hugo Zuccarelli convoca plateias para ouvir discos às cegas em um teatro de Buenos Aires

Quatro dias depois de emocionar seus fãs curitibanos, David Gilmour, o lendário guitarrista de Pink Floyd, cantou e tocou para 60 mil argentinos no Hipódromo de San Isidro, na grande Buenos Aires. Mas há quem defenda que era possível ouvi-lo melhor e com mais nitidez a 20 quilômetros dali, em um pequeno teatro do bairro portenho de Abasto, onde, até o final de fevereiro, um sujeito de cocuruto calvo e sobrancelhas peludas faz soar seus discos preferidos em alto-falantes holofônicos.

Invenção do argentino Hugo Zuccarelli, a holofonia é um sistema capaz de gravar e reproduzir sons em três dimensões, criando uma sensação espacial completa — e não apenas estereofônica de direita-esquerda. A novidade surgiu no final da década de 1970, antes de a norte-americana Dolby criar sua tecnologia Surround. Até hoje não são muitos os familiarizados com seu invento, embora o próprio David Gilmour tenha se curvado a ele.

Em 1982, quando britânicos e argentinos se enfrentavam na Guerra das Malvinas, Zuccarelli imortalizava a holofonia em The Final Cut, um dos últimos trabalhos de Pink Floyd. “Foi o maior erro da minha vida. Recebi por dez dias e trabalhei por um ano e meio, tive de manter contrato de exclusividade, o produtor arruinou o disco e a gravadora não o promoveu como holofônico”, lembra. Mesmo assim, os ruídos de avião e a bomba explodindo na faixa Get your Filthy hands off my desert mostram que o efeito funcionou, apesar de seu fracasso comercial.

Roger Waters, David Gilmour e Hugo Zuccarelli: antes de perder os cabelos e do fim de Pink Floyd. (Arquivo Pessoal)

Outra experiência traumática foi com o disco Bad, de Michael Jackson. A gravadora CBS foi comprada pela Sony e Zuccarelli saiu prejudicado no contrato. Processou a empresa, mas acabou detido por desacato a autoridade. “O disco vendeu dois milhões de cópias com holofonia e eu não vi um centavo. Paguei multa, limpei a rua por seis meses e fiquei preso 90 dias nos Estados Unidos”, conta, satisfeito por ter se recusado a vender o invento a Michael Jackson por 100 mil dólares. Paul McCartney também se encantou com a holofonia, mas quando Zuccarelli descobriu que o engenheiro de som do ex-Beatle tentava roubar sua mina de ouro, a relação desandou.

No estúdio Westlake com Michael Jackson e o protótipo “Ringo”. (E essas rodelas de pizza debaixo da asa, hein, Michael?)

Há uma boa dose de azar, rancor e quixotismo nestas histórias. Enquanto critica os todo-poderosos da indústria fonográfica e insinua as “estreitas ligações” entre a Sony e o narcotráfico, Hugo avalia que há mais interesses políticos e econômicos no mundo da tecnologia e da ciência do que se pode supor. “Se você descobrir a cura para o câncer, por exemplo, te matam”.

Leite achocolatado

Diante dos tantos reveses da holofonia como sistema de gravação, Hugo partiu para algo novo: os alto-falantes holofônicos. Ao contrário dos comuns, que separam as frequências sonoras em graves, médios e agudos, os holofônicos possuem uma única membrana, o que permite controlar sua vibração e garantir o tão desejado silêncio após a nota. O resultado é um som muito limpo e nítido, como se tem na vida real, livre de distorções.

Para explicar o fenômeno ele gosta de ilustrá-lo. “Imagine encher de água um copo com um restinho de leite achocolatado. Quando despejar a água ela estará suja, porque o que sai do copo é mais do que entrou. O mesmo acontece com um alto-falante comum: você coloca Beatles para tocar, mas o que sai é Beatles com leite achocolatado”.

Segundo ele, sistemas de som multicanais como o 5.1 são puro marketing. “A indústria tenta solucionar o problema da percepção acústica enchendo o quarto de alto-falantes, o que é evidentemente uma loucura, pois não garante qualidade nem localização espacial, apenas intensidade”, aponta.

Carne viva

Em Buenos Aires, Zuccarelli promove audições coletivas de alguns de seus discos preferidos, sem nenhuma gota de leite achocolatado nem a interferência da visão, já que as luzes do auditório são apagadas. Trata-se de um irresistível oximoro: ouvir com absoluta clareza na mais profunda escuridão.

Numa quinta-feira de dezembro, presenciei uma sessão de Meddle, o álbum psicodélico de Pink Floyd lançado em 1971. Era como se os instrumentos estivessem dentro da sala. Os latidos no blues Seamus e o coro da torcida do Liverpool ao final de Fearless ganharam novos contornos e dimensões. Sem contar o vento em One of these days, mais transparente que nunca, e a beleza de se ouvir os 23 minutos de Echoes ressoando em definição inédita.

“Há um componente visceral e emotivo que conecta as pessoas com o artista quando se ouve em holofonia. Quando tocamos alguém que já morreu, como Luis Spinetta ou Freddie Mercury, o público se emociona como se pudesse escutá-lo em carne viva”, orgulha-se.

As sessões dos Parlantes Holofónicos acontecem no Teatro Cego de Buenos Aires — único do mundo com uma programação 100% às escuras — , mas a partir de fevereiro passam a outro endereço da capital argentina, ainda não confirmado. O par de alto-falantes de quase cinco metros de altura é um protótipo construído artesanalmente por Zuccarelli, quem seleciona os discos pela complexidade e riqueza de elementos sonoros, mas também conforme seu gosto pessoal. De Nirvana a Daft Punk, já tocou de tudo, menos música brasileira — “só conheço Roberto Carlos”, admite. Para este ano estão previstos ciclos de Tango e de música clássica, e quem quiser escutar algo em especial, basta mobilizar um grupo de pelo menos trinta pessoas que Hugo promete botar o disco para rodar.

De sandálias papete e mochila nas costas, feito um estudante, o mestre de cerimônias costuma encerrar cada sessão se desculpando por ter de acender as luzes e trazer a plateia de volta ao mundo real. Após a catarse, o público sai da sala lenta e silenciosamente, flutuando em êxtase e de olhos marejados. Não sem fazer fila para se despedir do inventor da holofonia com um abraço fraterno. Muchas gracias, cara.

Foto: Elisandro Dalcin.

Ringo, o pugilista em forma de microfone

As relações entre som e espacialidade intrigavam Hugo Zuccarelli desde os dez anos,

quando se salvou de ser atropelado enquanto caminhava distraído lendo um gibi do Pato Donald. “Se eu não fosse capaz de localizar o som, mesmo sem ver sua fonte, teria morrido”, lembra. Na época, atribuiu o milagre ao fenômeno da binauralidade e da estereofonia explicado pelo pai, mas não se convenceu de todo. Teve de cursar engenharia eletrônica na Universidade de Buenos Aires, investigar sobre hologramas sonoros e estudar como bolsista no Politécnico de Milão — um pouco fugindo da ditadura argentina — para postular que cada ouvido é independente um do outro. Outra hipótese era de que o ouvido humano não é passivo: além de captar, também emite sons — assimétricos, semelhantes àqueles que ouvimos ao aproximarmos uma concha da orelha — capazes de interagir com outros sons e gerar as interferências que determinam sua localização.

O próximo passo foi construir um tímpano artificial que funcionava como microfone. Depois de estudar a própria fisiologia e replicar eletronicamente sua percepção auditiva,

melhorou o protótipo e criou uma cabeça-microfone batizada de Ringo, não em homenagem ao ex-Beatle, mas ao pugilista argentino Óscar Ringo Bonavena, com quem se parecia. “Ringo escuta, grava e reproduz sons nas mesmas condições físicas com que foram captados ao vivo “, garante.

Os primeiros experimentos foram há trinta anos: “eu entrava num armário escuro, colocava um fone e ouvia minha mulher do lado de fora sacudindo uma caixinha de fósforos em volta do Ringo. Mesmo tampando um ouvido era possível ter a localização exata da caixa de fósforos, porque a holofonia também pode ser ouvida em mono”, afirma. Estes sons foram gravados — além de outros, como um secador de cabelo, fitas durex e lâminas de tesoura — e até hoje essa mesma faixa é reproduzida ao público num discman surrado que, segundo ele, já caiu mil vezes no chão. Intitulado Aldebaran, como a estrela, o CD é o “único demo holofônico da história”, e é vendido a 100 pesos na saída do teatro. O áudio parece tão real que quase se pode sentir o bafo quente do secador de cabelo. “Usamos gravadores cassete caseiros e um fone de ouvido que era uma porcaria. O que contava ali era Ringo”, explica, deliciando-se com a rima: “não é magia, é tecnologia”.

Publicado originalmente na Gazeta do Povo.

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