Abraços e Banhos

Este texto é um fluxo de consciência semi-organizada sobre minhas percepções das diferenças de cultura entre o Brasil e os EUA e minhas razões de trabalhar no Brasil

English version

“Ȏ Holly. Por que cȇ escolheu o Brasil?”

Nossa, esta pergunta tem muitas respostas, algumas em que eu ainda estou tentando descobrir. Minha primeira vez no Brasil foi meio aleatória (uma orientadora da minha universidade apresentou um projeto que eu achei legal e me inscrevi) mas minhas seguintes duas vezes foram sem dúvida uma escolha intencional. E a escolha de passar meu último ano da faculdade pesquisando questões sociais desse país para quase todos os projetos foi bem intencional também.

Por muito tempo, quando eu confrontava esta pergunta, eu só conseguia responder que minha intuição era meu guia. Quando eu pensava em passar mais tempo no Brasil, meu cerebro sentia como, sim faça isso. E aí, eu segui este sentimento sem pensar muito.

Mas agora, eu tenho passado mais tempo aqui no Brasil, tenho pensado mais nesta pergunta, tenho conhecido mais brasileirxs na língua nativa delxs. E acho que a resposta tem duas partes: coisas de mim e coisas do Brasil. Há algumas coisas inerente a holly josephs que me faz gostar do Brasil/outras coisas/lugares/pessoas e há algumas coisas inerente às minhas percepções desse país que me faz apreciá-lo ou achá-lo diferente dos ambientes que eu já conheço. Vou tentar a usar palavras para expressar os dois lados. Primeiro, vou explicar quem sou eu, e depois vou explicar como eu percebo a cultura do Brasil (e como eu acho diferente dos EUA).

Oi, sou Holly e eu moro nos EUA há 22 anos. Eu cresci num subúrbio da cidade de Nova Iorque predominantemente branco e de renda média. Eu tenho uma família extremamente carinhosa, solidária, com mente aberta que tem uma ideologia de esquerda mas não tem tanto engajamento em questões políticas/sociais por causa do foco deles na família e por causa do entendimento deles de como fazer um mundo melhor para todos sem gastar muito esforço. Eu fui criada de um modo em que eu observava as pessoas mais próximas de mim sempre tentando a fazer outras pessoas mais felizes (pequenos atos de bondade). Eu acho que isso se manifestou em mim e eu quero usar minha vida para pequenos atos de bondade e também grandes atos de bondade. Porém, durante meus 18 anos no subúrbio com minha família de pequenos atos de bondade, desenvolvi pouquíssimo entendimento das nuances dos problemas sociais/politicos/ambientais do mundo. E honestamente, nem percebi estes problemas tão locais como por exemplo o sofrimento nos bairros negros vizinhos, pessoas com problemas de saúde mental e pessoas que enfrentam a pobreza no meu bairro.

Com 18 anos de vida, eu sabia da existência de pessoas que passam fome, vítimas das guerras e pessoas abusadas neste mundo e que nosso planeta está enfrentando uma crise ambiental. Mas não da para dizer que eu sabia da existência de racismo institucional, desigualdades de gênero, sutilezas de saúde mental, desigualdades sistêmicas de renda em Nova Iorque, nos EUA, no mundo.

Com 18 anos, eu me mudei para Boston, Massachusetts e comecei a estudar planejamento urbano e engenharia civil/ambiental. Por quatro anos, eu tinha obrigações e oportunidades para entender e interagir com os problemas sociais/políticos/ambientais no mundo. Eu aprendi que NADA disso é simples. Eu aprendi que eu nunca entenderei completamente as nuances de qualquer problema social/político/ambiental. Por isso, é muito difícil decidir como agir e eu luto muito com isso. Meu ambiente em Boston me cercou com muitas pessoas que tem consciência assim e lidam com isso também.

Bem, apesar de não saber como agir, é ruim estar num estado perpétuo de dúvida sem fazer nada. Faculdade era suficientemente gratificante porque é uma meta palpável e dirigida (formatura), o tempo está cheio de projetos com o objetivo de entender (e as vezes agir em) estes problemas, e tem muito acesso a diversão.

E essa é minha mente agora. Então, o que de inerente em mim tem a ver com o Brasil? Eu acho o Brasil um lugar ótimo para observar muitos problemas sociais/politicos/ambientais que enfrentam os países em desenvolvimento e alguns que parecem bastante com os problemas dos EUA (o país e os problemas em que eu tenho mais entendimento). Eu acho que minhas experiências e meu jeito de interagir com as pessoas são suficientemente parecidos com as experiências e jeitos de muitxs brasileirxs e isso me da facilidade em conectar com eles. Eu gosto muito da língua portuguesa. Eu gosto de rir. Eu gosto de pessoas que interagem carinhosamente com outras pessoas. Eu gosto da comida brasileira. Eu gosto de algumas músicas brasileiras. Eu acho muito legal a capoeira. Eu gosto de regras relaxadas. Eu gosto de cidades.

Bom, então isso é holly mais ou menos. Agora, eu posso explicar a segunda parte: minhas percepções da cultura do Brasil. Para começar, há uma expressão muito legal no Brasil que diz, “O melhor do Brasil é o brasileiro.” Eu acho extremamente bacana o orgulho que as pessoas tem no jeito que elas interagem com outras pessoas. Essa é a melhor coisa para ter orgulho. Eu amo as pessoas que eu conheço aqui e eu amo como eu me sinto enquanto eu estou no Brasil.

Para ser mais específica, vou explicar algumas diferenças de cultura que chamaram minha atenção. Minhas percepções são principalmente comparações com o que eu sei dos Estado Unidos. Me estranho um pouco com fazer estas comparações porque eu não quero falar por 500 milhões de pessoas (~200 milhões de Brasileirxs e ~300 milhões de estado unidenses). Os dois países tem muitas sub-culturas e tantas individuais. Mas, vou explicar minhas observações tendo em conta que eu principalmente conheço a sub-cultura alternativa-hippie-nerd nos EUA e a cultura milênio-convencional no Brasil. (Mas eu acho que eu entendo bem a cultura milênio-convencional nos EUA e vou usar este entendimento nas minhas comparações.)

  1. Eu acho verdadeiro (mais ou menos) o estereótipo que a cultura seja mais calorosa no Brasil. Com certeza, tem mais abraços aqui. Quando você conhecer uma pessoa pela primeira vez, beije e abrace. Quando você mandar uma mensagem pela primeira vez, você pode mandar emojis de corações/beijos/abraços e isso não é estranho. No Brasil, pessoas vão te convidar muito. Pessoas vão te mostrar que eles gostam da sua companhia. Em geral, amor é mostrado num jeito óbvio com mais frequência. Para comparação, se você olhasse atrás de uma foto da minha família, você notaria que na verdade, estamos nos tocando num jeito de fantasmas. Os braços e mãos que parecem a estar nas outras pessoas da frente da foto realmente dão alguns centímetros de espaço à próxima pessoa.
    Contudo, eu acho que esta diferença em tocar não só tem algo a ver com cordialidade mais também com respeito. Eu sei que na minha família, a falta de tocar tem base em respeito para o corpo de uma outra pessoa e na ideia de consentimento antes de qualquer interação. Não tem nada a ver com menos amor para a outra pessoa. Eu acho que nas questões de violência e sexo, o Brasil e os Estado Unidos tem a mesma ideologia e valores sobre consentimento e respeito para o corpo do outro (claro os dois paises tem muitos problemas com pessoas que não practicam estes valores). Mas nos cumprimentos e situações no cotidiano ou com a família, eu acho que as expectativas apenas são diferentes.
    Pensando em cordialidade além destas idéias superficiais de tocar, eu acho que as duas culturas são bem parecidas. Eu acho que as duas culturas colocam muito esforço em entender o outro, amar e ser amado. Contudo, eu acho que o jeito de colocar este esforço é diferente. Acho que nos EUA, pessoas fazem mais perguntas nas conversas. No Brasil, pessoas falam mais espontâneamente. Nos EUA é normal fazer perguntas porque isso mostra que você está interessado no que a outra pessoa esta falando. No Brasil, compartilhar é mais normal porque isso mostra confiança. Eu acho que os dois jeitos são razoáveis para conectar e mostrar atenção para a outra pessoa.
    Também, no Brasil, interromper é mais comum. Estas interrupções não são rudes. Elas mostram que a outra pessoa está realmente interessada no que você está dizendo. Nos EUA, interrupções são menos comuns. Esta falta de interrupções é por causa do desejo de dar para a outra pessoa mais espaço para completar um pensamento, mas também é mais difícil saber se a outra pessoa realmente está escutando.
    Eu tinha dificuldades com estas diferenças mas também achava muito legal pensar na razão que eu interajo assim. Minha falta de tocar/respeito extremo para o corpo do outro é desajeitado para xs brasileirxs. Eu me sinto bem com os toques de outros, mas nunca é recíproco. Além disso, meu estilo de escutar mais nas conversas fez que eu não compartilhasse muito porque eu sempre esperava um sinal que a outra pessoa queria minhas informações. Eu achei difícil completar uma conversa de uma idéia porque ela era diversas vezes interrompida. Imagino que xs brasileirxs às vezes achem meu estilo meio frio/sem interesse. Também, meu nível não-nativo de português exacerbou essa situação.
  2. Individualismo vs. Coletivismo: sem dúvida, os EUA é mais individualista e o Brasil é mais coletivista. Esta frase sozinha daria o sentimento UHUL COLETIVISMO, UHUL BRASIL! Eu concordo — “metad-amente”.
    No Brasil, as pessoas estão sempre preocupadas com o seu conforto. tá com fome? Cê quer um prato em vez disso? Cê quer molho no seu macarrão? Gostou? Tá com frio? As pessoas vão consistentemente te oferecer ajuda e coisas para ficar mais confortável. Também, pessoas se sentem mais confortáveis com pedir e aceitar ajuda. É incrivel. Mas, às vezes é exagerado. Coma mais! Não coma em uma caneca! Eu coloquei molho no seu macarrão para você! Eu sei que você não gostou! Use esta blusa! Tudo tem base em amor e tudo isso é lindo e tudo funciona bem quando você realmente está desconfortável e quando todo o mundo se conforma muito. Mas, eu quase sempre estou confortável e eu não conformo muito. Então, muitas pessoas presumiam que eu estava desconfortável e meus comportamentos mais estranhos (tipo comer combinações estranhas de comida ou preferir ir a pé em vez de usar o ônibus) foram questionados às vezes até que eu me senti obrigada a conformar.
     Uma vez, eu estava andando na cidade e eu quis água de côco com limão. E aí, eu entrei numa loja e comprei um litro de água de côco e um limão. Quando eu fui ao caixa para pagar, a caixa pareceu confusa e me perguntou, “Humm, cê tá comprando isso só? Cê vai tomar agora?” E eu respondi, “Sim, só quero andar e tomar água de côco.” Depois, ela quase me deu uma sacolinha e eu falei, “Não preciso de sacolinha, obrigada.” E ela respondeu, “Não precisa? Tem certeza?!?” Depois eu fui para o lixo na área de estacionamento e comecei a descascar o limão e apertá-lo na água de côco. Todo o mundo estava me olhando.
    O coletivismo também faz parte de trabalho em equipe e enquanto fazendo resoluções de problemas. A maioria das decisões são feitas naturalmente para os melhores interesses do grupo. Pessoas ajudam as outras do grupo sem que fosse pedido. Pessoas ficam tranquilas em esperar enquanto todas as outra estão se aprontando. Nos EUA, a maioria das decisões são feitas com o entendimento que cada outra pessoa vai cuidar dela mesma. Pessoas não se preocupam quando uma outra pessoa está fazendo algo num jeito diferente. Pessoas vão ajudar outros quando são pedidas. Pessoas ficam não se preocupam quando uma outra está trabalhando ou está sozinha. Pessoas esperam as outras até a hora certa de estarem prontas.
    Eu acho que o ideal é uma mistura de coletivismo e individualismo: a mesma atenção de coletivismo completo e a mesma liberdade de expressão de individualismo completo. Eu já achei esta mistura em algumas comunidades mais pequenas no Brasil e nos EUA. No Brasil, a achei num curso de permacultura e nos EUA, eu achei numa casa coletiva em que eu morava e em muitos grupos de pessoas alternativas-hippies-nerds.
  3. Pessoas são mais satisfeitas no Brasil, pessoas são mais cínicas nos EUA. Depois de um filme, comida, uma palestra, a maioria das pessoas tem uma opinião positiva no Brasil. A maioria das pessoas ficam de bom humor geralmente. Nos EUA, é mais “legal” destacar o que foi ruim num filme do que destacar o que foi bom. Eu acho que este cinismo vem de uma cultura de sempre querer mais e também de uma cultura de pensar criticamente.
    Eu ouvi algumas vezes no Brasil a expressão, “Estamos sofrendo, mas estamos rindo.” Mais pessoas no Brasil estão satisfeitas com menos. Nos EUA, eu conheço muitas pessoas que estão sofrendo nas mentes delas por causa do desejo de mais. Satisfação poderia causar passividade, mas eu acho o jeito brasileiro de mais satisfação e menos cinismo muito lindo.
  4. Tem muitos dos mesmos problemas sociais/politicos/ambientais, mas a maioria destes problemas são mais extremos no Brasil. Os dois tem muitas pessoas que estão tentando a ajudar nestes problemas. O Brasil e os EUA são países criados por escravidão e os dois tem problemas com racismo. Os dois tem uma população bem diversa. (36% da população dos EUA é de uma minoria racial e 52% da população do Brasil e de uma minoria racial). Os EUA tem mais segregação do que tem o Brasil. Os dois tem problemas com pobreza mas o Brasil tem mais pessoas que estão vivento nesta situação. O salário minimo do Brasil é ~50% do salário necessário para sobreviver no Brasil e o salário minimo nos EUA é ~70% do salário necessário para sobreviver nos EUA. ~40% dos trabalhadores ganham o salário minimo no Brasil e ~26% nos EUA. Os dois tem problemas com desigualdades de renda. O Brasil é o décimo segundo país mais desigual no mundo e os EUA é o trigésimo nono país. Os dois tem problemas com violência policial, violência geral, drogas e corrupção, mas estes problemas são muito mais graves no Brasil. Os dois países tem muitas pessoas que estão tentando a melhorar essas situações e muitas pessoas que não se importam.
  5. Eu acho que o estilo de vida da classe media é comparável nos dois países.
  6. Muitas pessoas no Brasil sabem mais da cultura popular dos EUA que eu saiba. E agora, eu acho que eu sei mais sobre a cultura popular brasileira que quase qualquer outrx americanx saiba :P
  7. Pessoas tomam mais banhos e escovam os dentes mais no Brasil.

Muito obrigada Rebecca Brandão por me ajudar a editar!