“John Wick” e o Neoliberalismo
Eu possuía uma opinião formada sobre John Wick. Me parecia apenas o puro deleite visual. Uma fotografia interessante, lutas bem coreografadas, freses de efeito e violência. Afinal, o motor da narrativa do primeiro filme era a vingança pelo assassinato de um cachorro, e do segundo, pela destruição de um carro. É como se o filme gritasse: “Não pense muito em mim!”. Mas é engraçado como subestimamos o clima proporcionado por uma obra. As vezes, o que parece estar ali simplesmente porque é interessante visualmente pode trazer reflexões maiores que qualquer desenvolvimento de personagem. Ao assistir John Wick 3, eu percebi em que clima as saga me coloca.
Pense comigo. Temos um homem perseguido, pessoas aparecem de toda parte para elimina-lo, por vezes, quase conseguem. Porém, de perrengue em perrengue, é John Wick quem elimina. Em meio a tantos improvisos, os inimigos são mortos de forma profissional e impessoal. Wick não luta como um mestre de kung-fu. Ele não é estético e espirituoso, ele é efetivo, mas é falho. Sabemos que ele é falho, nos agoniamos enquanto ele carrega sua arma para poder atirar em outro homem, que já se aproxima demasiadamente. Sabemos também que qualquer falha é motivo de eliminação, tanto para os inimigos, quanto para o protagonista. As coisas acontecem de forma rápida: pouco sentimento, pouca justificativa. Mas por que tentam matar o protagonista? por alguns milhões de dólares a mais. E os seus inimigos surgem de todos os ambientes possíveis: metrôs, restaurantes, museus, vielas, avenidas… O clima é de agonia. Também é curioso como, no universo da trilogia, tanta gente participa desse jogo dos assassinos: taxistas, hoteleiros, atendentes e os moradores de rua. O jogo dos assassinos está institucionalizado e constitui a estrutura da cidade, havendo inclusive os característicos hotéis onde não é permitido matar.
Em determinado momento do terceiro longa, a charada foi matada. John conversa com uma senhora que pode o ajudar. Essa senhora, ao mesmo tempo que dialoga com o homem, treina uma bailarina, que falha e caí constantemente. Toda vez que isso acontece, a mulher grita da platéia: “refaça!”. Logo depois, vemos a bailarina tirar os sapatos e arrancar uma unha do pé mutilado pelo movimento repetido inúmeras vezes. A treinadora anuncia: “a vida é sofrimento”. Mais adiante no longa, podemos ver a dança em seu estado final perfeito, e o deleite no rosto da mulher que gritava “refaça!” até produzir aquilo que está diante de seus olhos.

Quando vi isso, associei com o livro Rituais de Sofrimento, de Silvia Viana. Nessa pesquisa, a socióloga analisa como a estrutura neoliberal já se justifica através da industria cultural, e, especificamente, dos programas de televisão e reality shows. O ponto da autora é que o constante estado de agonia proporcionado pelo liberalismo, onde podemos ser eliminados a qualquer momento pelo concorrente, é glamorizado na televisão. Big Brother Brasil é o típico caso. Afinal, também é glamorizado o ato de se colocar nessa situação de agonia em troca de alguma ambição. Assim como o tanto que você pode se doar para atingir essa ambição, que no fim das contas, não é nada muito além de permanecer vivo em meio a guerra. O que se cria é um verdadeiro ritual em nome do sofrimento. Talvez seja representativo disso quando John arranca o próprio dedo. Filmes e programas de sobrevivências também justificam essa mentalidade. A autora cita Jogos Mortais, nesse longa, o acaso dos filmes clássicos de terror é substituído pelo mérito.
Ao final, segundo Viana, é tudo uma questão de desumanizar o nosso sistema. É como se vivêssemos dentro de uma máquina de seleção e eliminação. A metáfora é com o campo de concentração auschwitz. Aqui podemos destacar o momento em que John Wick é marcado feito um gado. Acabamos por esquecer que por trás desse mecanismo existem pessoas e aceitamos essa realidade de forma naturalizada.
Ao invés de apontar o dedo para obra e dizer “estão tentando justificar o neoliberalismo”. Vou reconhecer que existe um extremo potencial crítico em se reconhecer que esse jogo dos assassinos não está tão longe assim de nossa realidade.
