“Lords of Chaos” e a Morte de Deus.

Caio Miranda
Nov 1 · 5 min read

Imagine você sentado nos assentos de um teatro. No palco, há dois homens, um mais à esquerda, o outro, mais a direita. Ambos estão mascarados. O homem da esquerda segura a máscara de seu parceiro e arranca-a como se estivesse agoniado para ver o que há por trás. Com a máscara em mãos, ergue-a para à plateia como se erguesse uma decapitação. O homem da esquerda anuncia: “Vejam só! Parece que tínhamos aqui um mascarado!”.

Essa imagem serve de metáfora para as interpretações que surgem, de maneira natural, de um filme como Lords of Chaos. O longa retrata o nicho do Black Metal na Noruega e os seus escândalos. Na verdade, o filme é uma cinebiografia de Øystein Aarseth, ou Euronymous, líder da banda Mayhem. Durante o filme, vemos as personagens se portando como os grandes propagadores da maldade ou como se fossem as trevas sobre duas pernas. No entanto, fazem isso em seu país florido e, no caso de Euronymous, ao lado de sua família bem estruturada e sorridente. Ou também como Varg, entediado em sua bela casa lotada de paredes brancas e cômodos modernistas, mal sabendo explicar para um jornalista a sua conexão entre paganismo, satanismo e nazismo. O “Inner Circle”, uma espécie de seita secreta criada por Euronymous, não se reúne para fazer muita coisa além de ouvir metal e bater cabeça usando roupas macabras. Logo, concluímos: “é tudo imagem!”. Ora, Euronymous é apenas Øystein Aarseth. Parece que essa foi a principal polêmica suscitada pela obra, o quanto aquele movimento era “real” ou não. Vale lembrar que o filme se inicia com a frase: “baseado em mentiras reais”. É realmente tentador simplesmente anunciar: “Vejam só! Parece que tínhamos aqui um mascarado!”, ou simplesmente retrucar isso, para aqueles que acreditam nos contos do Black Metal. Porém, sempre vem a opção de expandir a discussão com um: “não estamos todos nós?”.

Outro foco de interpretação pode ser facilmente o quanto Euronymous é o artista morto pela própria arte. Criou o Black Metal Norueguês e esse gênero musical o matou. Usando da metáfora supracitada, vestiu uma máscara com espinhos em sua superfície. O que pode ser lido tanto como uma forma de eximi-lo de culpa ou carrega-lo de responsabilidades. Pode ser lido como um jovem criativo, que perdeu o controle de sua criação, afinal nenhum autor tem controle sobre o que cria; ou pode ser visto como um homem, que suscitou ideais perigosas e é culpado mesmo por atos de outros. Falo aqui dos casos de assassinatos homofóbicos, incêndios em igrejas e até da morte do próprio protagonista. No entanto, fujo do debate sobre de quem é a culpa, se é do criador ou se é de seus seguidores, como Varg, que levaram tudo muito a sério. Entro em outra forma de analisar o longa. Podemos relativizar o final, em que Euronymous é proclamado o criador de um gênero musical, e dizer que ele não é precursor de nada. Na verdade, Øystein Aarseth apenas seguiu o fluxo do rio, para no fim, morrer afogado na correnteza. Devo deixar evidente que estou me reservando ao filme. Tenho pouco conhecimento sobre os fatos históricos que embasam a obra.

Proponho analisar o longa-metragem sobre a ótica da morte de Deus. O rio, pelo qual a personagem principal flui, leva do ponto A ao ponto B. O ponto A seria Dead, vocalista da banda Mayhem, que ao suicidar-se rendeu a foto para a capa do álbum Dawn of the Black Hearts da banda, no qual é exposto seu crânio aberto por um tiro de espingarda. O ponto B seria Varg, responsável por Burzum, ainda vivo, é pagão, nazista e o assassino responsável pela morte de Euronymous.

Toda vez que aprece na tela, Dead é representado pela sua depressão. Essa personagem teria sofrido bullying na escola, o que talvez justifica o quadro patológico. Ele é constantemente paralisado pelos próprios pensamentos por horas e possuí grande admiração por animais mortos. O que seria essa paralisação se não a falta de motivos para levantar da cama? Aqui vemos expresso a impossibilidade de encontrar qualquer sentido que valorize a vida. A admiração por tudo que está morto é consequência dessa desvalorização. No entanto, apesar de estética, a admiração pelo fim não é tão relevante quanto a conclusão “a vida não vale a pena”. E essa afirmação é, por vezes, a conclusão subsequente de outra: “a vida não faz sentido”. Talvez isso fique explicito quando Euronymous fala inconsequentemente para Dead sobre a possibilidade de um fim rápido para o sofrimento, através de um tiro na cabeça. Não faria sentido continuar sofrendo, ou seja, vivendo, se você pode acabar com o problema de forma rápida. A vida seria uma grande perda de tempo. Aqui está expresso o niilismo consequente da Morte de Deus, a falta de um sentido que justifique o sofrimento e nos faça permanecer. É essa falta de um grande “outro”, com poder de redimir nossas misérias, que segue o pensamento do “não faz sentido!” e por consequência “não vale a pena!”. Dead veste uma mascára que definha e não lhe serve mais. Essa máscara é a máscara dos valores cristãos. A vida é sofrimento, nos revela o Deus crucificado, e o que nos salvará é abdicação desse mundo em troca de um outro perfeito. Quando esse outro mundo se esvaí, tudo que sobrou foi o sofrimento desse atual.

Varg é rapidamente representado pelo tédio, que também seria uma forma de perda do sentido. Porém, na maior parte do tempo que está em tela, representa a competição. Está constantemente tentando se provar como melhor que Euronymous, como o mais trevoso, o mais habilidoso e, por fim, o mais “real”. Justamente por isso, incendeia igrejas. Diz ele que o cristianismo pregou a mediocridade. E agora, que as igrejas queimam, que a antiga máscara cai, ele decide vestir uma nova máscara. O niilismo de Dead foi superado, se fundou uma nova moral. Essa nova leitura de mundo vai além do bem e do mal. Subverte: o que era bom passa a ser mal, o que era mal passa a ser bom. Coloca um novo sentido para a vida: a elevação do tipo homem. Faz isso através da competição, do combate, sendo tudo aquilo que a antiga moral chamou de “ruim”. Por fim, Varg vira um nazista. Podem dizer “é só uma imagem”. Porém, o que não é? Não existem hipócritas por toda parte? Quantos sabem explicar perfeitamente a doutrina que seguem? Euronymous fluiu de uma moral para outra, possuí elementos de cada uma, mas por fim, perece. É morto por Varg, essa encarnação dos perigos pós-modernos.

A reflexão que Lords of Chaos deixa é sobre cristianismo. Não estaria na hora de fazermos as pazes com parcelas da moral cristã? Podemos dizer “Deus está morto!” e nos sentirmos livres para criar novas morais, que vão além do antigo bem e mal. O cristianismo nos falava sobre abdicar desse mundo, e agora queremos dizer “não! Eu quero vive-lo”. Mas talvez exista um arrasador problema em adotar a máxima: tudo que o cristianismo pregou, eu negarei. Quantas vezes já ouvimos que uma lógica é problemática pois “remete ao cristianismo”?Jogaremos no lixo as vivências cristãs? Por mais que a cosmologia não seja real, por mais que se tenha feito muita maldade em seu nome, elas não serviram de absolutamente nada? não há nada de bom ali? Essa é a pergunta que Lords of Chaos me deixou: O que estenderemos sobre as cinzas das igrejas? Suásticas?

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