A arte de delirar politicamente

Em recente postagem no portal da Veja, um jovem blogueiro com nome de colírio, notório pelo fanatismo ideológico, excedeu-se em suas fabulações, ao atribuir ao PT e às Farcs a responsabilidade pela pavorosa chacina do presídio de Roraima.

Discípulo de Olavo de Carvalho, o colunista Não-sei-quem-lá Moura Brasil maneja o delírio como arma para combater o Dragão da Maldade Esquerdista no Brasil. Sua fala, intitulada “O legado do PT nos presídios”, prima, como sempre, pela cavilação, juntando informações desconexas, omissões, inverdades e calúnias, num malabarismo não de todo isento de graça para atingir seu objetivo supremo: denunciar os horrores do perigo vermelho que, desde 1848 pelo menos, ronda o Brasil.

A catilinária do rapaz com nome de colírio deixa de levar em conta que o socialdemocrata Partido dos Trabalhadores não está mais no governo (e eu ia escrevendo no poder, mas isso é uma imprecisão, pois ele nunca esteve realmente no poder, exercido nas sombras ou às claras, como agora, pela Confraria do Privilégio) e que as Farcs aderiram à democracia representativa, assinando um complicado acordo de paz com o Governo da Colômbia, graças, em parte, à atuação conciliadora do antigo governo petista e do papa Francisco (aguardem quando Não-sei-quem-lá Moura Brasil acusará o sumo pontífice católico de agente soviético), entre outros atores internacionais.

Mas o que interessa ao trêfego blogueiro não é analisar os fatos, mas, no espírito do personagem Maxwell Scott do filme O homem que matou o facínora, o importante é a versão disseminada, pois, no mínimo, o delírio direitista cairá no agrado de leitores da Veja e similares e será propagado pelas redes sociais, na esperança de que, repetido mil vezes, ganhe o carimbo de verdade.

Tudo na linha da igualmente trêfega diva do impeachment, Dra. Janaína Pascoal, que revelou, recentemente, um suposto plano da Rússia de invadir o Brasil via Venezuela, defendendo uma intervenção preventiva das forças armadas brasileiras na vizinha República Bolivariana (não na Rússia, claro!). Agora que o novo presidente dos EUA, Donald Trump, é parceiro amigo do peito irmão camarada de Vladimir Putin, Dra. Janaína não voltou mais ao assunto. Será o Trump o mais disfarçado dos agentes comunistas infiltrados no mundo ocidental cristão da livre iniciativa? Alô, Janaína.

O jovem Não-sei-quem-lá Moura Brasil, que classifica seus textos como irreverentes — como se isso o liberasse para delirar, mentir e caluniar -, é discípulo devoto de Olavo de Carvalho, o maluco filósofo guru da direita tupiniquim, assim como seu colega guerreiro-frio Rodrigo Constantino. Para entender a cabeça desses militantes do olavismo, remeto para o artigo “Precisamos falar de Olavo de Carvalho”, de Joel Pinheiro da Fonseca, um economista neoliberal, ex-simpatizante do olavismo, publicado na Café Colombo n. 4, de outubro de 2015, disponível no portal da revista, no endereço: http://www.cafecolombo.com.br/ideias/precisamos-falar-sobre-olavo-de-carvalho-2/

É um texto muito esclarecedor sobre Olavo e o olavismo.

Um trecho do artigo:

“Apesar dos erros, Olavo tem a força de estilo, o carisma e a retórica para conquistar o público. Seus leitores e ouvintes assíduos tornam-se incapazes de avaliar racionalmente qualquer ideia que venha do outro lado do espectro, por estar envenenada de marxismo cultural. Aderem às mais irrisórias conspirações que circulam por correntes de WhatsApp e sites de notícia falsas, referências que o próprio Olavo já compartilhou. Adicione a isso doses de milenarismo católico (como as aparições de Fátima) e tem-se noção do nível de delírio.”

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