A causa secreta da depressão
Há 38 anos, Natascha Kinski interpretava a inesquecível “Tess” nos cinemas, criando uma legião de neuróticos apaixonados

Vou passando pela calçada de um bar e ouço o grito:
– Careca filho da puta!
Há meses fora de circulação por conta de um quadro depressivo severo, meu amigo José Alonso de Arruda me ressurge em carne, osso e álcool.
Abraço-o com efusão e, apesar de seu estado lamentável — aliás, por isso mesmo — aceito seu convite para sentar à mesa. Meio sem graça e sem assunto, pergunto-lhe como tem andado, o que anda fazendo, banalidades do gênero. De repente, depois de um longo trago no uísque já meio diluído, ele bota pra chorar, resmungando uma algaravia onde só distingo uma palavra, ou melhor, um nome de mulher: Natascha. Julguei entender a situação: Zé devia estar com dor de cotovelo ao ser abandonado por alguma nova namorada. Pergunto-lhe quem é Natascha e a resposta me deixa perplexo:
– Natascha Kinski.
–Natascha Kinski?!
– Sim, Natascha Kinski.
Lembrei-me da bela atriz alemã, que descobrimos em 1979, no filme “Tess”, dirigido por Roman Polanski. Na época, ela tinha 18 anos e era casada com o diretor. Hoje, é uma senhora de 56 anos. Pois, Zé Alonso chorava por uma ninfeta que não mais existe. Descobri quando ele me levantou os olhos vermelhos e perguntou, mais para si próprio, a bem da verdade:
– O que é que aquele merda de Polanski tem que eu não tenho?
E danou-se a chorar novamente. Tentei consolar meu amigo, inclusive explicando que ela hoje deveria ter um monte de rugas, pregas e pelancas. Mas ele nada ouvia. Apenas repetia, inconsolável:
– Eu nunca a comi, não como, nem comerei. Isso é insuportável, cara, insuportável.
Foi assim que eu soube a causa secreta da depressão do meu amigo.
