A farsa da ajuda humanitária

Ação é um espetáculo midiático, numa agressiva jogada de marketing para provocar o colapso total da Venezuela e preparar a opinião pública mundial para uma intervenção militar no País.

Homero Fonseca
Feb 23 · 4 min read
Revista Fórum (Reprodução)

Como 99% dos leitores brasileiros, faltam-me informações profundas e confiáveis sobre o país vizinho. A mídia brasuca, engajada ideologicamente, só noticia um lado. Pretendo, com minha frágil lanterna, jogar um pouco de luz sobre a explosiva situação em nossas fronteiras, com base em fatos atuais e históricos.

Não venho fazer aqui a defesa de Nicolas Maduro. Certamente ele cometeu seus erros. Problema do povo venezuelano, de acordo com a noção universal de soberania das nações.

Questionável é o interesse do Império do Norte com a democracia e o bem-estar da população venezuelana. Em sua política externa, os EUA jamais se preocuparam com Democracia. Apoiaram e apoiam qualquer ditadura alinhada aos seus interesses geo-políticos-econômicos: Brasil/1964, Chile/1973 (ingerência fartamente documentada), Arábia Saudita e Filipinas, atualmente, entre tantos outros exemplos. Na própria Venezuela, deram suporte à tentativa de golpe contra Hugo Chávez, em 11 de abril de 2002. Agora, questionam a legitimidade da eleição de Maduro e apoiam o autoproclamado Juan Guaidó, que não teve um só voto para presidente. Ou seja, a narrativa americana de arauto da Democracia é falsa.

Como qualquer pessoa medianamente informada e com mais de dois neurônios está careca de saber (o meu caso), os países não têm amizades nem veleidades abstratas em suas relações internacionais: são movidos por seus próprios interesses, econômicos e estratégicos. Chama-se a isso geopolítica.

Historicamente, o Império Americano é a potência que mais intervém militarmente em outros países para impor sua geopolítica. A lista é imensa, desde o século 19: Cuba, Panamá, Granada, República Dominicana, Coréia, Vietnam (vejam no Google). Hoje, o foco é o petróleo: e aí estão as invasões à Líbia, ao Iraque e à Síria, países arrasados pelos bombardeios americanos. A Venezuela tem as maiores reservas petrolíferas do mundo, capite?

Às vezes, antes da ação armada, o Império do Norte usa a guerra econômica para desestabilizar os adversários (precedida de intensa propaganda política). Donald Trump vem esgrimindo essa arma poderosíssima, com o objetivo de estrangular a Venezuela (sem a menor piedade para com a população venezuelana). Desde que assumiu decretou um violento bloqueio financeiro, que transformou numa catástrofe a crise econômica provocada pela queda do preço do petróleo e os eventuais equívocos do governo de Caracas. A imprensa tupiniquim omite os fatos e principalmente as devastadoras consequências das manobras econômicas para a população venezuelana.

Assim, socorro-me de outras fontes. A BBC Brasil em agosto de 2017 informou o drástico bloqueio das transações da petrolífera estatal PDVSA e comentou: “O cerco financeiro contra o governo da Venezuela está se fechando e isso pode trazer graves consequências para a economia do país e para a crise política.”[1] A renda do petróleo significa 96% da economia da Venezuela (o chavismo falhou em não diversificá-la) e o país depende das importações de alimentos, remédios, equipamentos e tudo o mais.

Em março de 2018, como o governo Maduro tentava driblar o cerco lançando moedas digitais, Trump ordenou a proibição de operações com a chamada bitcoin da Venezuela, fechando totalmente essa saída.[2]

Achando pouco, como o preço do petróleo apresentava ligeira melhora (US$ 74,63 por barril, contra cerca de US$ 40,00 em 2009)[3], Trump determinou o fechamento das contas e suspensão das transações de empresas privadas venezuelanas importadoras de bens de primeira necessidade, como informou a agência France Press em outubro de 2018.[4]

Em resumo, uma brutal retaliação econômica que, agravando a crise, aprofundou a fome, a inflação, o êxodo em massa de venezuelanos. As medidas empurraram ainda mais o povo venezuelano para o abismo da miséria. Alguma compaixão com a grande vítima desse arrocho letal? Zero.

Trump e o sistema petrolífero-armamentista dos EUA estão se lixando para a miséria alheia. Têm pena dos mexicanos e centro-americanos que tentam ingressar em território ianque em busca de emprego? Para eles, é muro, prisão e separação de pais e filhos. Pode haver maior exemplo de desumanidade?

Agora, oferece aos venezuelanos que tanto sofrem com o cerco econômico uma esmola com o nome fantasia de “ajuda humanitária”. Seus reais objetivos são cristalinos: criar um impasse político, reforçar a propaganda contra o adversário, provocar incidentes diplomáticos e militares e justificar, eventualmente, o envio de marines, envolvendo na louca aventura o Brasil, a Colômbia e outros governos títeres.

Maduro tem seus pecados, mas não está ameaçando ninguém.

Aconteça o que acontecer nas próximas horas ou dias nas fronteiras com nosso vizinho, a responsabilidade é toda de Tio Sam e seus aliados ideológicos.

[1]BBC Brasil, 26 agosto de 2017:

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-41060655 (acessado em 23/02/2019)

[2] InfoMoney, 19 de março de 2018:

https://www.infomoney.com.br/mercados/bitcoin/noticia/7337843/donald-trump-ordena-bloqueio-operacoes-com-bitcoin-venezuela (acessado em 23/02/2019)

[3] NexoJornal, 17 de abril de 2016:

https://www.nexojornal.com.br/grafico/2016/01/18/Um-hist%C3%B3rico-visual-da-queda-do-pre%C3%A7o-do-petr%C3%B3leo (acessado em 23/02/2019)

[4] Agência France Press, 16 de outubro de 2018: https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2018/10/16/interna_internacional,997686/venezuela-denuncia-bloqueio-de-importacoes-de-bens-basicos-pelos-eua.shtml (acessado em 23/02/2019)

    Homero Fonseca

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    Homero Fonseca é jornalista, escritor e coach literário. Foi editor da revista Continente. Autor do romance "Roliúde", entre outros livros.