A pulsação da passarela

Aventura e paixão no Carnaval de Sampa (II): a emoção do desfile

Concentração no sambódromo: carros alegóricos da Colorado sendo preparados para entrar na pista. (Foto HF)

00:45h — Segunda-feira de Carnaval. Chegamos ao Anhembi, ao lado de Carlão, antigo tocador de surdo na bateria da Colorados do Brás, hoje um dos diretores de harmonia da escola, que nos serviu gentilmente de guia e nos levou à concentração do desfile. No alvoroço das ordens e contra-ordens, fomos os únicos passageiros de um dos 40 ônibus à disposição do pessoal, transformado numa limusine exclusiva.

No grande pátio, carros alegóricos de quatro escolas de samba (a X-9, que havia iniciado o seu desfile; a Imperador, que nos precederia, Colorado e Pérola Negra, que nos seguiria) formavam um emaranhado de alegorias fellinianas. Guindastes e empilhadeiras-ascensores moviam-se para lá e pra cá, elevando gente fantasiada a alturas de até 10 metros. Alguns carros ainda recebiam retoques, noutros os figurantes já estavam a postos, alguns encarapitados em pequenas plataformas no topo, aguardando quietos os minutos ou horas que restavam para entrar na passarela propriamente dita. No nosso caso, o desfile estava previsto para as 3 da manhã.

Indicam-nos onde desfilaremos: o carro abre-alas, representando um circo estilizado. Nosso lugar será o picadeiro, no primeiro piso, imprensado (o que trará uma vantagem e uma desvantagem, como veremos) entre duas gigantescas cabeças de arautos a soprar compridíssimas cornetas douradas. Tudo vertiginosamente colorido. De um lado e de outro, agrupam-se palhaços adultos em pequenas plataformas e, mais para dentro, sobre vários pula-pulas, buliçosos palhacinhos. Numas torres, nos andares superiores, dançarinas de maiô com o corpo todo pintado de cores esfuziantes. Aparece um fiscal e decreta que as sapatilhas vermelhas de Iracema e meus possantes Crocs estão muito pouco carnavalescos e providencia umas flores de pano coloridas e cola de sapateiro para enfeitá-los.

Conversávamos, eu e Iracema, com Mary, uma rainha afro-baiana fantasiada de retirante, quando um sujeito me trouxe o recado: “umas moças ali estão lhe chamando”. Eram coristas do carro do cinema e lá fui todo prosa. “Você não é o autor do livro?”, indaga uma. “Fui eu quem costurou seu paletó”, mente outra. Aperto a mão de todas e me retiro, sob aplausos, após a declaração bajulatória: “Era nesse carro que eu queria desfilar”. Lá de longe, ainda conversando com Mary, Iracema não tirava os olhos da cena.

Isis e Mateus: porta-estandarte e mestre-sala mirins

Então fomos içados por um ascensor, juntamente com os personagens com quem dividiremos o picadeiro: um casal de porta-bandeira e mestre-sala mirins, Mateus, de uns 10 anos, e Isis, de uns sete. Ele, de calças e fraque brancos e dourados e uma cartola prateada, ela de vestidinho branco e vermelho, segurando uma bandeira da escola, um pouco grande demais para seu tamanho. Vou dar uma espiada no carro, para tentar descobrir como é sua propulsão, esgueirando-me entre várias meninas de malha penduradas numas argolas. Mateus me segue. Atrás, ao rés do chão, uma dúzia de operários de macacões azuis: são eles o motor da geringonça. E esse carrinho acoplado aí atrás?, pergunto. É o gerador para iluminar as alegorias, me explicam. E por sua vez, vendo minha fantasia berrante, perguntam quem eu sou. “O apresentador do circo” — respondo, como me ensinara o carnavalesco Leonardo Catta Preta. Mateus me corrige de pronto: “O apresentador sou eu!”. “Ah, é? E eu, sou quem? — contra-ataco. “O senhor é o escritor” — encerra a pendenga Mateus.

Chegou a hora! Já eram 4 da matina quando o locutor anuncia: Colorado do Brás. O presidente Ká faz um discurso, a bateria dispara o samba-enredo, um frenesi visível percorre a multidão perfilada. A escola adentra o sambódromo na cadência bonita do samba. A bateria posiciona-se num vão, ao lado — à frente três bailarinas exibem uma saúde admirável — enquanto passa a comissão de frente, a primeira ala e nosso carro abre-alas. Mil e trezentas vozes entoam em uníssono: “SERTANEJO, ARRETADO CORAÇÃO / TRAZ A FORÇA E A BRAVURA DESTE CHÃO / E FAZ A FESTA, NA COLORADO DO BRÁS / É MUITO BOM, É BOM DEMAIS!” Impossível não se arrepiar nessa hora.

Sambando no picadeiro, devidamente apoiados numa bengala fixa

Nosso picadeiro é meio escondido pelas cabeçorras dos arautos. A desvantagem, logo percebi, é que os poucos amigos que estarão acordados, no Recife, quase não poderão nos ver, exceto nas tomadas frontais da TV Brasil; a vantagem, descobri depois vendo o VT, é que a quase invisibilidade me poupou de um vexame: enquanto Iracema requebrava direitinho, eu, apesar de achar que estava abafando, mais parecia um boneco de Olinda balançando os braços, quase sem sair do canto[1]. O espevitado Mateus, sim, se revelará a grande figura da escola. Veterano carnavalesco, tem samba na veia e na ponta dos pés, um gingado cheio de graça e enorme competência cênica: entre um rodopio e outro, faz mesuras para a plateia na arquibancada e agradece os aplausos com largos gestos. A miúda Isis havia pegado no sono e a custo acordou para, estremunhada, empunhar debilmente o estandarte, não sem antes pedir para fazer xixi na hora da saída da escola (um tio a acompanhava no chão, ao lado, levou-a para se aliviar numa moita e a trouxe de volta).

São apenas 530m de asfalto, lenta e meticulosamente vencidos. Uma energia quase palpável liga cada colorado. A escola desfila garbosa para os jurados empoleirados em guaritas e uma plateia razoável, dado o horário. Nas arquibancadas, canta-se o samba-enredo. Quando cessa o último tamborim, duas pessoas estão caídas, por exaustão ou estresse, e são transportadas por ambulâncias. Começa a dispersão.

A glória dura menos de 60 minutos.

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[1] VT da TV Brasil: https://www.youtube.com/watch?v=U5cDwH6CG1c Aparecemos, de longe, no primeiro piso do carro abre-alas, nas tomadas frontais: Iracema de vestido vermelho, eu de calças brancas, entre 6m50s e 15m, intermitentemente.

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