Brasil é o sexto país ‘mais ignorante’ do mundo

A informação consta de levantamento realizado pelo instituto de pesquisas britânico Ipsos Mori (uma espécie de Ibope multinacional) e foi dada com estardalhaço na imprensa tupiniquim (v. Valor Econômico). A enquete abrangeu 40 países e acima de nós no quesito “ignorância” estão, pela ordem: 1º — Índia, 2º — China, 3º — Taiwan, 4º — África do Sul e 5º — EUA.

A pesquisa ‘’Os Perigos da Percepção” avaliou o conhecimento geral e a interpretação que as pessoas fazem sobre o país em que vivem e comparou esta percepção com dados oficiais de cada país — quanto mais próxima a percepção da realidade, menor é considerada a ignorância do país.

O levantamento ouviu 27.250 pessoas nos 40 países entre setembro e novembro deste ano e usou uma combinação de métodos, incluindo pesquisas online, pelo telefone e presenciais. Os dados coletados a respeito da percepção de realidade das pessoas foram comparados com informações de diferentes fontes oficiais e institutos de pesquisas. Como se vê, uma salada metodológica que está longe de significar um resultado “científico”, mas como sempre é recebido como um oráculo pela mídia local.

Independentemente dessa questão, vamos nos debruçar um pouco sobre os resultados do estudo do Ipsos Mori, que indica, entre outras coisas que os brasileiros:

– Acham que tem muito muçulmano por aqui e que a religião está crescendo, quando na realidade a proporção é de apenas 1% da população.

– Acreditam que o país é mais tolerante do que ele realmente é: para os entrevistados, 51% dos brasileiros acham que a homossexualidade é moralmente aceitável, mas dados reais indicam que só 39% da população pensa assim.

– Supõem que 61% do país acha o aborto moralmente inaceitável (contra 79% da realidade).

– Cravam que 43% da população considera o sexo antes do casamento inaceitável, mas o dado real é de 35%.

– Pensam que a desigualdade social entre nós é menor do que realmente é: disseram ao Ipsos Mori que 70% dos mais pobres do país possuem 24% da riqueza nacional, quando na verdade possuem apenas 9%.

– Acertaram quase na mosca a população do Brasil: citaram 200 milhões de pessoas, quando o censo atualizado indica 207 milhões.

Logo alguns apressadinhos correram para comentar a pesquisa, alegando como causa da tal “ignorância” (muito discutível) a proverbial falta de educação do povo brasileiro etc. No que se mostraram bastante ignorantes, pois como salienta um dos diretores do Ipsos, Bobby Duffy, os erros na percepção podem ser justificados por uma sobrevalorização dos temas que preocupam a sociedade: “Há várias razões para esse resultado — da nossa dificuldade com matemática simples e proporções, à cobertura da mídia, passando por questões de psicologia social que envolvem nossos atalhos mentais e também nossos preconceitos”.

Logo, não tem muito a ver com níveis de educação formal, ou seja, o buraco é mais embaixo. No caso do Brasil, creio que a influência da cobertura da mídia — citada por Duffy — tem muita responsabilidade pela desinformação geral.

Levanto algumas hipóteses para a falsa percepção sobre os assuntos:

Muçulmanos: a imprensa dá cobertura exagerada sobre atentados terroristas na Europa e EUA (associando-os a “extremistas islâmicos”), criado assim uma percepção maior da “ameaça muçulmana”.

Homossexualidade: a mídia, de maneira geral, tem sido simpática às causas LGBT, defendendo a diversidade e noticiando com naturalidade uniões homoafetivas, adoções por casais homossexuais etc. Daí a sensação de que o preconceito é menor do que na realidade.

Aborto: fenômeno semelhante.

Sexo antes do casamento: aqui há uma inversão, demonstrando, talvez, que a realidade nesse quesito já atropelou em parte o tabu.

Desigualdade social: o tema é bastante omitido e menos ainda discutido, explicando a impressão de que o fosso econômico-social é menor (a área mais abertamente conservadora da imprensa vive a acusar quem levanta o assunto de “aprofundar a divisão do país entre ricos e pobres” e outros sofismas do tipo).

População: informação neutra e bastante divulgada.

Valem, pois, pesquisas mais aprofundadas sobre os temas.