Os pobres de butique

Camaradas, a crise está muito pior do eu pensava. Em toda a parte esbarro numa multidão de mulheres esmolambadas. Nas ruas, nos shoppings, nos consultórios. Muitas, visivelmente de classe média, classe média alta. Será um ciclo de proletarização galopante?

Comentei a situação com Iracema, que sorriu, me chamou de demente e explicou: “É a moda”. A moda? Caiu a ficha. Soube então que algumas dessas calças rasgadas, de grife, custam uma nota preta. Fiquei mais boquiaberto ainda. O que levaria uma pessoa a pagar caro pra andar maltrapilha? Seria pra demonstrar descontração, despojamento? Nesse caso, não seria melhor usar as roupas velhas? Ou é uma estranha maneira de distinção? Quer dizer que rico disfarçado de pobre é mais distinto? Não alcanço a lógica da moda.

O mais troncho é que, pelo conhecido processo sociológico da imitação, tem muita moça pobre por aí gastando os tubos com roupa pra sair vestida… de pobre.

Parei pra pensar um pouco e desconfio que o fenômeno é mais vasto. Lembro de já ter visto butique fina com o letreiro “Trapos & Molambos”, restaurante caro pra cachorro chamado “Pobre Pablo” (ou algo assim). Alguém me explica melhor? É gozação? Perversão? Falta de noção?

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