Homem de paletó e gravata

Outra cena da cidade me leva a divagações vadias sobre nossa inserção no mundo

Meio dia no Recife. A canícula está de rachar. A bordo do meu Uno Mille blindado, com o ar condicionado no nível 3, nem assim deixo de suar cachoeiras. Os termômetros acusam 32º, mas a sensação térmica, como dizem os meteorologistas, deve ser de uns 35º.

Eis que ele está numa esquina, esperando para atravessar a rua. O que me chamou atenção é seu traje: terno impecável — paletó, gravata…

Seria um advogado? Um deputado? Um juiz? Um vereador? Um funcionário público comissionado? Um crente? Um segurança? Um vigarista do colarinho branco? Um motorista de madame?

O homem veste-se bem, alinhadíssimo, bom corte, terno caro… Isso descarta algumas alternativas acima, como o crente-padrão, com seu terno suado, seu colarinho puído e sua Bíblia ensebada nas mãos. Ou o segurança, com seu paletó preto comprado nas Lojas Americanas.

Bem, deixando de lado essa tentativa tosca de antropologia da roupa, o que me chama a atenção é a absoluta inadequação do vestuário ao nosso clima. Por que nos vestimos assim? Imitando os povos superiores do Primeiro Mundo? Só que eles são mais espertos. Quando invadiram as Índias, os ingleses logo procuraram se adaptar ao meio: governantes, embaixadores, funcionários, policiais e até o Exército vestiam-se de bermudas e camisas de mangas curtas. Americanos quando viajam para o lado de baixo do Equador usam slacks (excessivamente coloridos), pensando sobretudo no conforto.

O mesmo, penso, podemos dizer ocorre ao seguirmos o horário comercial dos países de clima temperado, quando o mais correto fazer como na Espanha, pelo menos a Espanha de antes da União Europeia, com sua siesta indefectível. Temos muito mais razões para isso. Leio que ainda subsiste, mesmo em Madrid, fora do circuito turístico, o costume de lojas abrirem das 10:00 às 14:00 horas e das 17:00 às 20:30. Perfeito para nossos tristes trópicos. Por que diabos temos de enfrentar a canícula do nosso verão de nove meses (setembro a maio) entre as horas incendiárias do meio dia e 5 da tarde, além do mais envelopados num terno, por mais de grife que seja?

Resumindo, o sujeito de paletó e gravata no horário escaldante me traz o pensamento melancólico de que continuamos como colonizados culturais, achando que abafamos quando copiamos de forma inapropriada os usos e costumes dos povos branquelos.

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