O ofício de pensar em voz alta

Prefácio ao livro “Crônicas e 50 histórias miúdas”, de Joca Souza Leão, recém-lançado pela Editora Cepe

Homero Fonseca

Você abre o jornal ou revista, acessa um portal ou blogue, e no meio do dilúvio de informações, desinformações e contrainformações encontra um texto “diferente”. Um texto que não é exatamente um comentário mais ou menos aprofundado sobre o noticiário, como um artigo o faz. Que também não se limita às fofocas ou fofuras das redes sociais. Que não tem a solenidade de um editorial, nem a frivolidade das colunas sociais. Um texto que pode tratar do mais trivial acontecimento ou dos mais graves assuntos, sempre com graça e leveza. Onde o autor coloca sua subjetividade, sem resvalar nas fraquezas do narcisismo. Onde põe sua opinião sobre tudo, mas embasando-as numa visão de mundo minimamente sofisticada e solidamente ancorada em muitas e múltiplas experiências e leituras. Um texto no qual ele, o autor, pode oscilar do lirismo mais desbragado à indignação contra as injustiças do mundo. E, por último, mas não menos importante, você percebe, nesse texto, uma intenção de dialogar diretamente com o leitor, ao contrário das matérias informativas, impessoais e frias.

Você, leitor atilado, sabe que estou falando de uma crônica. Na realidade, de uma boa crônica, pois nem tudo escrito com essa etiqueta contém todas ou ao menos a maioria das qualidades descritas acima. Cronista digno desse nome segue direitinho essa cartilha, obviamente não inventada por mim, mas consolidada por mais de um século e meio de prática e evolução entre nós, de José de Alencar a Antônio Prata.

A crônica é o texto despido de paletó e gravata (como disse Drummond, grande poeta e mediano cronista). Funciona como um respiradouro no terreno inóspito do jornalismo factual. Além disso, mesmo estando em sintonia com os fatos concretos da vida cotidiana, pode conter uma boa dose de ficção. Essa situação faz dela um gênero híbrido: uma ilha de literatura num oceano jornalístico. Ou será o contrário? Não importa muito a classificação, o essencial é visível aos olhos: crônica bem escrita é literatura e ‘tamos conversados.

Pelo fato de ser em geral curta, usar linguagem coloquial (como ‘tamos conversados), dirigir-se ao leitor sem ranço acadêmico, a crônica já foi dita um “gênero literário menor”. Menor um cazzo, diriam Machado de Assis, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Lourenço Diaféria, Carlinhos de Oliveira, Carlos Eduardo Novaes, Luiz Fernando Veríssimo. Ou, puxando brasa pra nossa sardinha pernambucana, Manuel Bandeira, Nélson Rodrigues, Antônio Maria, Hermilo Borba Filho, Renato Carneiro Campos, Ronildo Maia Leite, José Cláudio. Todos eles colocaram seu tijolo na construção da crônica elevada à altura da melhor literatura.

Joca Souza Leão faz parte desse time, sem favor. Publicitário bem sucedido, amarrou as chuteiras no auge da profissão e dedicou-se com afinco ao ofício de “pensar em voz alta”, como tão bem o definiu o cronista-mor, o velho Braga. Começou a publicar no Jornal do Commercio (do Recife) em 2006 — há exata uma década, portanto — e, enquanto publicava, danou-se a estudar: leu todos aqueles mestres e outros mais e bordejou alguma teoria a respeito. Essa seriedade no fazer, a constância no exercício e o talento inato fizeram dele um cronista na acepção da palavra, respeitado no meio e amado pelos seus leitores (e, claro, odiado por alguns, contrariados em suas ideologias e interesses, especialmente devido ao estilo incisivo do camarada).

Em 2013, lançou seu primeiro livro de crônicas, reunindo os textos publicados entre 2006 e 2013. O calhamaço de 445 páginas foi sucesso de crítica e de público: já esgotado, a segunda edição está no prelo, como se dizia. Depois de uma ausência voluntária de cerca de um ano (fez uma cirurgia em 2015 e resolveu espichar o repouso), para desgosto de seus fiéis leitores, o cronista voltou às páginas do JC e da revista Algomais, mais amadurecido e mais incisivo (depois dos 70, completados no início do ano, “a gente se dá ao direito de falar tudo o que pensa” — avisou ele), sem perder o humor jamais, observo eu. Isso tem lhe valido processos judiciais por poderosos atingidos por suas denúncias contundentes contra a descaracterização dessa mui leal cidade do Recife, assim como xingamentos cabeludos em mensagens privadas e mesmo públicas. E naturalmente maiores e mais entusiásticas adesões. Aliás, nesse capítulo de ungir-se Defensor da Cidade, Joca segue a linhagem de um Mário Melo, o onipresente cronista da cidade na primeira metade do século passado.

Paralelamente a essa retomada, nosso autor tratou de reunir e editar as crônicas publicadas entre 2014 e 2016. É esse material, curioso leitor, que tendes em mãos neste volume. Como deve ser, o repertório é variado: política (assunto incontornável nesses tempos de cóleras e abismos), a cidade em si (questões urbanas, sobre as quais o cronista se permite sugestões concretas que estão a merecer atenção acurada de prefeitos insensíveis), pequenos dramas e comédias do cotidiano, reminiscência pessoais para além do meramente nostálgico, futebol, cultura, o diabo a quatro. Tudo servido com absoluto respeito à sua inteligência, nobre leitor, concorde ou não com as opiniões do cronista. Aliás, quem procurar uma característica comum nessas crônicas, encontrará esta: a inteligência com que os temas são tratados.

O ponto alto desta série, a meu ver, são as três crônicas em que o autor aborda a cirurgia a que se submeteu para trocar uma válvula cardíaca. Sem a menor pieguice, nem as baboseiras místicas que costumam cercar tal assunto, Joca narra aquele momento crucial com uma sobriedade quase de quem estivesse se referindo a outra pessoa, ao mesmo tempo em que deixa subentendidas reflexões sobre a vida e a morte, lançando mão do humor e do suspense, como neste exemplo:

“Doutor, o coração para mesmo, completamente?”, perguntei. “Para — disse ele — completamente.” “Por quanto tempo?” — insisti. “Uns 20 minutos… aí a gente dá um choquinho e ele volta a bater.”

– E se não voltar?

Por fim, você, impaciente leitor, ainda vai ganhar de brinde, como uma bônus track, como se diz na apresentação dos álbuns musicais, as “50 histórias miúdas” referidas no título do livro. São textos curtíssimos — no conjunto, um impressionante exemplo de concisão — com coisas que Joca ouviu, leu ou inventou. Se você não der umas boas gargalhadas durante a leitura, eu choche.

Bom proveito.

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