Os estudantes, a PEC 55 e o discurso dominante

Foto: Sindsej

Na aprovação da PEC 55 (241 na Câmara), como na destituição da presidente eleita, a mídia joga um papel preponderante na manipulação da opinião pública. Antes foi a amplificação da crise fiscal (transformada numa crise econômica) em paralelo ao denuncismo escandaloso proporcionado pelos vazamentos seletivos da Operação Lava-jato, que acabou com o PT e agora, numa bola de neve, ameaça a instituição política como um todo, abrindo caminho para o imponderável (e vocês sabem o nome do imponderável).

Agora, o discurso dominante — vocalizado avassaladoramente na mídia pelos colunistas políticos e econômicos, economistas ortodoxos, comentaristas de televisão e rádio, e replicado vigorosamente nas mídias sociais — tenta fazer crer que a PEC é a única alternativa para combater o déficit fiscal e não implicará em perdas para a área social, notadamente saúde e educação.

É a tática da naturalização de ideias, isto é, apresentar como naturais e do interesse de toda a sociedade as reivindicações de um setor social, no caso, as classes privilegiadas. O que é um posicionamento político e ideológico, como qualquer outro, passa a ser vendido como “A Verdade”. Quem pensar diferente é logo desclassificado como um farsante, cujas posições escondem sua verdadeira ideologia (exatamente o que eles fazem). É comum inclusive denunciar a “ideologização” do debate, como se eles não tivessem ideologia, fossem avatares mensageiros de verdades divinas.

Essa velha tática é usada sempre para que reivindicações de privilégios sejam assimiladas como destinadas ao todo social. Como quando a Fiesp fez a famosa campanha de marketing “Quem vai pagar o pato?”. Hoje está ficando cada vez mais evidente que quem vai pagar são os trabalhadores e os mais pobres em geral, o que explica o crescendo de manifestações estudantis e sindicais por todo o país.

Os golpistas costumam também proclamar que todos os protestos são feitos por estudantes e proletários teleguiados, que sequer conhecem o teor da PEC. Novamente é um velho argumento elitista. A história e a sociologia demonstram que os participantes de movimentos massivos não são necessariamente PhDs em economia ou política, agem intuitivamente na defesa de seus interesses e confiam na interpretação de seus líderes. Por isso é sacanagem entrevistar adolescentes ocupantes de escolas, como se todos estivessem aptos a discorrer fluentemente sobre suas motivações (isto fica para lideranças como Ana Júlia Ribeiro, 16 anos, de Curitiba, lembram?).

Ora, nas passeatas perfumadas pró-impeachment, alguns repórteres alternativos tentavam demonstrar a ignorância de manifestantes brancos e bem vestidos que não conseguiam emendar duas palavras com sentido lógico sobre seus objetivos. Mas os participantes dos protestos estavam lá confiando na palavra dos Alexandre Garcia, Augusto Nunes, Demétrio Magnolli, Eliane Cantanhêde, Marco Antônio Vila, Merval Pereira, Miriam Leitão, Olavo de Carvalho, Rachel Sheherazade, Reinaldo Azevedo e outros porta-vozes dos donos dos veículos de comunicação engajados na derrubada do governo.

Tanto num caso como no outro, essa coisa de descerrar a ignorância dos manifestantes não passa de pegadinhas. E o rótulo de teleguiados vale para os dois lados, pois não.

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