Os moleque são dengoso.

8 ÁLBUNS E 2 EP’S EM 5 ANOS

Precisamos falar sobre o King Gizzard.

Talvez você já conheça a banda responsável por esses números, talvez não. Se trata dos australianos de nome comprido e complicado: “ King Gizzard & The Lizard Wizard”. O tipo de som que eles fazem e algumas outras informações que eu poderia gastar um tempo escrevendo aqui eu vou deixar pro Google te responder. Vamos ao que interessa.

Eu vou falar aqui de 3 pontos principais que acho que merecem atenção: produtividade, profundidade e planejamento/ação.

1 — PRODUTIVIDADE

Eles chamam muito a atenção, entre outras coisas, pela produtividade inacreditável. 2 lançamentos por ano é uma marca que impressiona, pois estamos acostumados a dedicar mais tempo a um álbum ou EP.

Estamos errando feio. Ficar tanto tempo sem divulgar algo novo nos dias de hoje é pedir pra ser esquecido, já que a memória do público é bastante curta no contexto digital.

Parece que eles sacaram isso, e estão colocando em prática.

Eu fiquei impressionado (e resolvi falar sobre isso) quando percebi que eles estavam anunciando um novo álbum pra ser lançado, “NONAGON INFINITY” (mais tarde voltamos a falar dele). Ok, até aí tudo bem. A coisa fica bizarra quando percebemos que não faziam nem 5 meses que eles haviam colocado no youtube seu álbum “Paper Mâché Dream Balloon”, um trabalho rico, com conteúdo, que poderia ter sido explorado através de clipes, sessions, etc.

Não, nada disso.

Outro álbum.

2 — PROFUNDIDADE

Por produzir tanto, esses caras poderiam estar inundando o mundo com músicas ruins e álbuns fracos. Não é o caso. Em termos de sonoridade, a gente já consegue sacar que a coisa é fina, mas vai além disso. Dando um zoom out, dá pra perceber que praticamente todos os álbuns são conceituais, com as canções se interligando de certa forma, e isso não é algo simples de se fazer.

Eles são muito bons em criar pequenos universos, cheios de símbolos, para todos os seus lançamentos. Isso faz com que aquele não seja apenas um compilado de algumas músicas compostas pela mesma banda, mas um trabalho que quer dizer algo, tem discurso.

Até o que parece não ser conceitual acaba sendo, como o álbum “Paper Mâché Dream Balloon”, que já mencionamos anteriormente. É um disco acústico, o que foge completamente do que poderia se esperar da banda e que, segundo o vocalista Stu Mackenzie, foi um grande desafio. Eles falaram sobre isso no programa KEXP, além de tocar alguns sons. Vale a pena assistir:

Tão importante quanto a facilidade que eles tem de criar a atmosfera e o conceito ao redor do álbum, é a facilidade de abandonar tudo para criar algo novo. Álbum novo, panca nova.

3 — PLANEJAMENTO/AÇÃO

A sensação que dá é que eles já tinham o álbum “NONAGON INFINITY” antes mesmo de colocar o álbum anterior no mundo. Totalmente conceitual e complexo, ele já começou sendo anunciado e promovido de um jeito muito foda. Justamente por não ser raso, a banda tem que fazer um trabalho pré-lançamento bastante forte para ir acostumando o público com a linguagem, a sonoridade, as imagens, etc.

Eu vou colocar aqui as coisas que eu notei, e que podem servir como exemplo e inspiração pra quando você for planejar e fazer o seu próximo lançamento.

3.1- Teaser ) No dia 25 de fevereiro os caras soltaram, no seu facebook, um teaser anunciando o álbum. No vídeo eles revelam os nomes, tanto do álbum como de algumas faixas, mostrando apresentações ao vivo da banda. Rola uma espécie de “locução” apresentando essas músicas, e tudo é comunicado de uma forma bem publicitária. Depois de falar o nome de 4 músicas o locutor solta um “AND 5 MORE”… só faltava ter dito “reserve o seu, LIGUE JÁ”, ou qualquer outra coisa que um vendedor da Tekpix falaria.

Eu, particularmente, achei isso foda. Não tiveram vergonha de vender seu trampo, na cara dura mesmo.

Muitas vezes, por se tratar de um produto que envolve arte, quebramos a cabeça pra criar formas muito poéticas de divulgar. Os caras foram simples, diretos, e funcionou.

3.2- Clipe ) No dia 8 de março saiu o primeiro single, acompanhado de clipe. A direção, as cores, a música, o cenário, o figurino, maquiagem, tudo está muito bem produzido. Mas o que mais me impressionou foi que o clipe conta uma história, tensa e misteriosa, que nos leva a um final onde eles mostram o símbolo presente na capa do álbum. Assiste o clipe aí:

Capa do álbum “NONAGON INFINITY”

Um tempinho depois, eles lançaram mais um clipe, agora pra faixa "People-Vultures", e confirmaram uma parada que eu tinha notado, mas não tinha certeza: o fim desse primeiro clipe era o início de um segundo. Sim. Assiste de novo o clipe de "Gamma Knife", depois dá um play nessa obra-prima:

Isso tudo funciona como publicidade pro álbum, pois vai trazendo o público pra dentro de um universo específico, apresentando pra ele vários símbolos, conceitos, riffs, timbres, histórias. Quando ele vê, já era, está envolvido.

E como eu já falei, o King Gizzard & The Lizard Wizard é muito bom em criar esses “universos” através de seus álbuns. Entenda, isso só vai funcionar se o público for atraído para um trabalho com profundidade. Se não, ele não dá uma olhada e logo cai fora.

Pode ser que eles continuem lançando clipes daqui pra frente, pode ser que agora eles foquem na promoção de outra maneira, como aparecendo em programas de web, TV ou rádio. O importante é que eles estão sabendo trazer as pessoas pra dentro do seu mundinho. E assim que elas entrarem, eles provavelmente criarão outro, e levarão todos pra lá.

Talvez eles já tenham mais 2 álbuns prontos esperando para serem lançados, vai saber.

Realmente não sei como eles conseguem, mas olhar pro trampo que eles fazem me fez perceber que muitos dos conceitos que a gente tem do que é o tempo ideal pra trabalhar um lançamento está equivocado. É possível sim produzir muito mais do que produzimos, e eles são a prova.

Acho que eles são seres humanos que nem nós, apesar de não ter muita certeza. Melhor continuar de olho.

___________________________________________________________________

Ta ok. Mas e aí?

Não posso falar por ti, mas o que EU tirei de tudo isso foi:

  • Não é preciso demorar muito gravando um álbum;
  • Nos apegamos demais aos “universos” criados;
  • Ter medo de pensar em clipes e teasers como forma de vender nossos álbuns é um tiro no pé (ninguém vai fazer publicidade do seu disco além de você);
  • É preciso ter algo que faça as pessoas falarem de você. Eu estou falando dessa banda pela quantidade de discos que ela lança… o que me faria falar da sua?

Concorda? Discorda? Conta pra gente o que tu pensa. Não queremos a sensação de estar falando sozinhos, ok?

Valeu a atenção e espero que o texto tenha alguma utilidade pra ti.

Até mais!

___________________________________________________________________

Texto por Eduardo Panozzo