TOUR NO SÉCULO XXI

No ônibus entre Goiânia e Brasília, onde minha banda ia tocar naquele dia, eu não tinha nenhuma música pra escutar.

A viagem leva em torno de 3h30 e eu resolvi ler um pouco, já que eu não tinha sono nenhum. O livro era "How Music Works" (Como a Música Funciona) escrito pelo David Byrne, do Talking Heads.

Neste livro, o autor fala algumas coisas bem interessantes, por ter vivido uma época do mercado musical já extinta, sempre fazendo a ligação com a realidade de quem faz música hoje em dia. Abri no capítulo "negócios e finanças", no qual David explica a relação do artista com as gravadoras e como era feita a divisão de tarefas no momento de lançar um álbum, além é claro da divisão de grana que isso envolvia.

Enfim, chegou um momento em que ele falou sobre qual era o papel da tour dentro dessa estratégia de divulgação dos lançamentos. Eu fiquei meio surpreso ao ler, mas depois pareceu óbvio: viajar pra tocar era uma estratégia de marketing para vender mais discos. O dinheiro (muito dinheiro) vinha da venda das mídias físicas e a tour era a sua propaganda. Uma propagada que funcionava.

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Viajar com meus amigos pra tocar foi uma das coisas que mais me pilharam pra fazer música lá no início. Assisti muitos documentários de bandas dando esse rolê, pensando que era exatamente aquilo que eu queria fazer. É muito louco pensar em tour simplesmente como uma estratégia de marketing, mas ok.

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"ARTISTAS TOCANDO AO VIVO ERAM TRADICIONALMENTE VISTOS PELAS GRAVADORAS COMO UMA MANEIRA DE FAZER PUBLICIDADE DOS NOVOS LANÇAMENTOS — COMO UM MEIO PARA ATINGIR UM FIM, AO INVÉS DE UM FIM EM SI MESMO"

David conta também que as gravadoras financiavam todos os gastos dessas viagens e shows (por "financiar" entenda "emprestar uma grana que depois seria retirada da porcentagem dos artistas em cada disco vendido").

Faz sentido quando as pessoas compram muitos discos, mas isso não acontece mais. Hoje em dia, se apresentar ao vivo pode ser o que mais gera renda pra uma banda… é um fim em si mesmo! Como a música digital é praticamente gratuita, uma das poucas coisas que (na cabeça do público) ainda pode ser cobrada é o artista tocando na sua frente.

Talvez a situação tenha até se invertido. Hoje entregamos nosso CD, ou disponibilizamos nossos sons de graça na internet para que alguém, de qualquer lugar do mundo, se interesse e nos chame para tocar.

Nessa nova realidade, a importância do ensaio e da performance ao vivo aumenta muito. Claro, tocar bem sempre foi essencial, mas agora é necessário mais que isso. A lógica é simples… se sua banda mandar muito bem, você abriu uma porta e com certeza vai tocar ali outra vez. Se não for tão bom, vocês fecharam aquela porta.

Ou seja, vão crescer cada vez mais os artistas que conseguirem levar seu público àquele estado que só a música consegue levar, que conseguirem fazer seu público parar de pensar e se entregar totalmente pro momento. Anote aí: fazer do show uma EXPERIÊNCIA INESQUECÍVEL é, e será daqui pra frente, o mais importante.

Na verdade, acredito que a maioria dos músicos já percebeu isso e está trabalhando forte pra fazer se apresentar cada vez melhor. Mas e os outros agentes desse mercado?

É preciso que os produtores e contratantes compreendam que a performance de uma banda ao vivo ganhou ainda mais valor desde o início desse século. Donos de festivais e de casas de shows devem ter a sensibilidade de perceber as mudanças que acontecem no mercado, e a importância que o artista tem para que seus eventos estejam cheios de gente.

Por fim, o mais importante de tudo, é que o público valorize o show, a tour, a presença do artista… E somos nós, agentes da música independente, que temos a responsabilidade de fazer isso acontecer.

É louco, mas pode ser que a gente viva uma semelhança muito grande entre o pensamento de hoje, e o que rolava na época em que música gravada ainda nem existia: a ideia de que música não se compra e a apresentação ao vivo é a essência de tudo.

Será?

Acabamos de lançar o resultado de uma pesquisa que fizemos tentando entender melhor o que pensa o consumidor de música independente hoje.

Dá uma olhada aí: http://www.honeybombrecords.com.br/musicaematomos

Valeu e até a próxima!

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Texto por Eduardo Panozzo

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