Impressões — ONEUS [Binary Code]

Não vou mentir: ONEUS (produzido pela RBW, mesmo lar do famoso girlgroup MAMAMOO) é um dos grupos que mais prende minha atenção nessa chamada “quarta geração do kpop”. Composto pelos rappers Ravn e Leedo, os vocalistas Seoho, Keonhee e Xion e o dançarino Hwanwoong, é um grupo com uma sonoridade que às vezes foge do mais típico e esperado para o pop e busca elementos grandiosos, épicos e teatrais. Junto disso, também são notáveis por sua versatilidade ao abordarem com maestria uma variedade grande de conceitos.

Após o full album “DEVIL”, o grupo fez seu comeback no dia 05 de maio de 2021 com o EP “Binary Code”. Quando os primeiros teasers (que normalmente revelam uma nova versão do logo do ONEUS e o conceito do lançamento) foram liberados, acabei esperando algo mais eletrônico e futurista; mas logo vimos que o enfoque em uso de instrumentos na sonoridade que permeou toda sua discografia seria mantido. As principais referências para a title track seriam o funk e disco estadunidenses dos anos 70 e 80 (conforme já mencionei em outros reviews, referenciar este momento da música ocidental tem sido recorrente no kpop).

Enquanto a title apostou mais em uma tendência e diminuiu a teatralidade, as outras faixas do EP mantêm muito do que encontramos nas b-sides do ONEUS. Dentro de cinco músicas, incluindo até algumas surpresas para os fãs, o grupo traz algumas experimentações ao mesmo tempo que preservam aquilo que os destaca de outros boygroups da quarta geração. Agora, analisaremos faixa-a-faixa!

  • “BLACK MIRROR”: assim como no nome do famoso seriado cyberpunk, o título também se refere à tela apagada de um celular. Junto do tema “Binary Code”, foi uma surpresa ver que a música tem a sonoridade remetendo muito mais a Michael Jackson (com direito a referências diretas, como um "who's bad!?" nos versos de Ravn) — embora em sua letra, referências à “era digital” estejam presentes. Apesar de terem baixado um pouco o tom épico e entrado de vez no pop em uma title, ainda consigo sentir a grandiosidade do ONEUS nela; a música foi construída de forma envolvente, priorizando sons instrumentais a eletrônicos. Destaques para vocalizações de Seoho no refrão acompanhando a batida, que com certeza serão parte do fanchant, e a versatilidade de Leedo ao apresentar tanto seu rap (especialmente na ponte) quanto habilidades de canto em sua voz grave.
  • “Connect with US”: logo após a agitação da title, somos embalados por uma música mais calma. Esta faixa é uma versão completa o “outro” (faixa de encerramento) do álbum “DEVIL” e carrega muitas linhas em sua letra que se conectam com “BLACK MIRROR”, consistindo a primeira das agradáveis surpresas. Conforme seu título sugere, se trata do grupo buscando formar o “us” (pronome “nós” do inglês) ao se conectar com seus fãs (se tornando o “ONE US” do nome deles), mesmo que isso seja feito apenas de maneira distante via internet. Sua base é limpa, marcada primariamente por cordas, enquanto batidas e sons eletrônicos são adicionados conforme o refrão é construído. Os versos mais lentos e claros da vocal-line (incluindo os graves de Leedo!) foram contrastados com raps rápidos e em uma voz mais estridente de Ravn. Conforme nos aproximamos do fim, a música adquire batidas muito fáceis de acompanhar com palmas e linhas feitas para que os fãs cantem junto; aguardaremos ansiosamente o momento de estarmos junto com o ONEUS em uma performance dessa música!
  • “물과 기름 (Polarity)”: embora o título em inglês da faixa possa sugerir uma ligação maior com o tema de “código binário”, o original em coreano significa “água e óleo”. Com uma guitarra muito presente e batida suave, me lembrou muitos trabalhos da música coreana que costumamos a ouvir fora da idol music. Todas linhas também são cantadas em um ritmo mais tranquilo, mesmo no rap de Ravn. O primeiro refrão possui duas partes, sendo a primeira mais rápida e repetida no decorrer da música e a segunda mais declamada e única a este momento. Foi um resultado que lembra a discografia do ONEUS, ao mesmo tempo que nos trouxe um ar de novidade.
  • “Happy Birthday”: a música possui uma introdução com sintetizadores bem oitentistas, que logo são cortados para uma batida mais limpa de hip-hop. Um pouco deles ainda foram utilizados no pré-refrão, e o refrão em si possui uma mistura de sons retrô e contemporâneos. O baixo é muito presente no decorrer da música. Assobios foram usados em certos pontos, tanto acompanhando os vocais quanto sozinhos. O tema alegre junto um tom mais tranquilo nos traz uma atmosfera muito despreocupada e leve, que deixa uma vontade de ver ainda mais o ONEUS explorando esse tom.
  • “발키리 (Valkyrie) (Rock Ver.)”: a surpresa final do EP, um verdadeiro presente aos fãs. “Valkyrie” foi o single de debut do grupo, com seu título remetendo tanto às valquírias míticas (“balkiri”, quando escrito em hangul) quanto a “balkhiri” (밝히리), “brilhante” em coreano. É muito comum que os grupos de kpop tenham algum arranjo diferenciado de um single marcante para ser performado em seus shows como um ponto alto e frequentemente uma base de rock é escolhida para isso, a exemplo de “Trespass” do grupo MONSTA X; porém, é mais comum que sejam mantidas como algo especial que só será presenciado por aqueles que foram no show ou assistiram alguma gravação. Foi muito bom ver o ONEUS realmente adicionando ao EP esta versão com ainda mais energia de “Valkyrie”, que já causava um furor entre o ToMoon (nome dado ao seu fandom) após performances transmitidas online. Um destaque especial para uma presença de violinos entre os característicos acordes do pré-refrão.

Entregando uma sonoridade que se destaca em meio a tantos boygroups que pesam em ritmos eletrônicos e no hip-hop na quarta geração, o ONEUS merece muita atenção de todo o público do kpop, sendo capazes de variar em conceitos sem perder sua identidade. Ravn e Leedo participam das letras de todas as músicas e todos os lançamentos sempre possuem pelo menos uma faixa com participação maior de Ravn na produção — dessa vez, sendo “Polarity”.

O ONEUS é um exemplo da imensa variedade que pode ser encontrada no kpop, nunca se restringido a convenções da música pop e incorporando em si muitas sonoridades e referências. Em “Binary Code”, ao mesmo tempo que nos mostra o grupo trabalhando as tendências mais recentes da indústria também nos entrega muitas explorações daquilo que consolidou como sua identidade. O maior destaque do EP fica com “Connect with US”, tanto por seu trabalho sonoro quanto por carregar uma ideia expressa até no nome do grupo; e com a nova versão de “Valkyrie”, que o ToMoon aguardou ansiosamente para descobrir se seria realmente lançada.

Para quem está conhecendo o ONEUS agora, não posso deixar de mencionar a alta qualidade de suas performances — carregadas da expressividade e da teatralidade que tanto são associadas com eles. Recomendo conferir a apresentação de “LIT”, o single mais conhecido e carregado de um conceito tradicional coreano, realizada no programa Road to Kingdom. Foi um momento em que pudemos ver muito do que faz o ONEUS ser memorável.

Assista ao MV de “BLACK MIRROR” |Ouça o álbum no Spotify | Assista à apresentação de “LIT”

[Escrito originalmente em 16.05.2021]

Um fã que kpop querendo compartilhar com outros o que anda ouvindo

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