A história do Cadê os Pretos no Design

Parte 1

Hon Porfirio
Jul 25, 2019 · 9 min read
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Foto do Stephen Shames

Eu estava no segundo ano de graduação em design na USP discutindo sobre a importância de cotas raciais na universidade. O ano era 2015.

As minhas impressões sobre a esquerda universitária e o movimento negro, ou até mesmo sobre a importância das cotas raciais são temas para outro texto. Mas este era o plano de fundo do dia em que eu descobri ser a única mulher negra do curso de design matriculada naquele período.

Essa no entanto, não foi a única descoberta do dia: tomamos finalmente ciência da inexistência de professores negros na minha unidade de ensino; a faculdade possuía em média mil e quatrocentos alunos, mas a quantidade de estudantes negros não chegava a uma centena. Levantei por fim, uma última pergunta:

Quantos designers negros eu conheço?
Spoiler: zero.

Fui assombrada por essa pergunta até o ano seguinte (2016), quando um amigo me apresentou o mini-documentário Emory Douglas: The art of The Black Panthers. Emory Douglas foi ministro da cultura do Partido dos Panteras Negras do início ao fim do partido, mas antes disso era formado em design gráfico pela Faculdade da Cidade de San Francisco. Sr. Douglas foi responsável por todo o projeto gráfico dos jornais e cartazes distribuídos para as comunidades negras entre os anos 1968 e 1980, e a linguagem por ele estabelecida marcou a época de lutas por direitos civis dos negros, reconhecida até hoje por seu caráter provocativo e sua autenticidade.

“A minha arte passa uma mensagem provocativa… mas não passa uma mensagem distorcida” — Emory Douglas O documentário infelizmente é inglês e sem legendas.

Depois de assistir este filme e sair perguntando para todos os cantos por designers negros, nasceu o projeto Cadê os pretos no design?, onde inicialmente procurei por designers negros em diversas áreas de atuação sem nenhuma distinção de território, mas também sem nenhuma análise muito profunda de sua atuação ou dos artefatos desenvolvidos por eles. A priori, esse projeto tinha como objetivo trazer nomes, apresentar uma quantidade razoável de designers negros, e também fazer uma discussão sobre os impactos do racismo sobre nossas referências no campo do design.

Nesses quase três anos de projeto, pude apresentar essa ideia em diversos lugares, com trocas muito distintas e enriquecedoras, possibilitando que este se adaptasse e se renovasse. Mas, até o presente momento, nunca parei para registrar o processo dessa pesquisa e dessas trocas, tampouco procurei estabelecer novas metas para além de uma lista de designers negros espalhados pelo mundo. Não que isso não fosse importante, mas agora que o levantamento está feito, é de crucial importância partir para uma análise, uma estruturação de fato. Nosso povo (e defendo aqui a importância de nós, pessoas negras, nos enxergarmos enquanto tal) carece de documentação e nomeação de nossa epistemologia, assim como o auto-reconhecimento da nossa rica capacidade intelectual ao longo de toda a história da humanidade.

Não pretendo também fazer toda essa análise num artigo. Mas pretendo lançar algumas hipóteses e algumas provocações ao redor deste projeto, baseadas tanto nas discussões que foram feitas, quanto nas leituras e arcabouço cultural e intelectual que ele me proporcionou, pessoalmente. Por isso que não vou impedir de forma alguma a fala em primeira pessoa.

Sem mais contextualização, vamos começar do começo:


O Cadê os pretos no Design? foi apresentado pela primeira vez na Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Design da USP no final do ano de 2016 durante um evento nomeado Ocupa Museu. O objetivo dessa atividade era promover uma roda de conversa que discutia o design dentro do terreno da representatividade, apresentando uma pequena lista de designers negros e uma pequena introdução aos projetos desenvolvidos por eles, questionando o porquê, até aquele momento, aqueles designers não nos foram apresentados.

Embora a discussão tenha sido superficial em torno do tema, ela foi de crucial importância para alavancar questões que resultaram em uma nova etapa da pesquisa que estruturou o projeto. Isso me forçou ir além da experiência pessoal e o conceito de representatividade que deu início à pesquisa, e partir para leituras que nomearam e contextualizaram o racismo dentro da estrutura como um todo, mais especificamente a estrutura acadêmica.

Grupo Designers Negros e o Mapeamento "Onde estão os designers negros no Brasil?" do AfroguerrilhaAntes desta primeira apresentação do projeto, dentro das redes sociais foi possível promover o debate a nível nacional, que fez surgir um grupo com designers negros espalhados pelo Brasil. O grupo tinha a finalidade de discutir o design sob a ótica racial, e também divulgar vagas de emprego para designers negros.No ano seguinte (2017), a plataforma de criação e curadoria de produções acerca do povo preto Afroguerrilha, elaborou um levantamento de dados online para mapear designers negros por todo o país, sinalizando sua principal área de atuação, sua formação, etc. A movimentação em torno desse mapeamento causou um boom no debate sobre design e raça no Brasil.

Em 2017, durante o 27º Encontro Nacional de Estudantes de Design em Curitiba, apresentei uma versão mais elaborada do projeto, apresentando designers negros tanto desconhecidos quanto alguns que contribuíram para o Movimento Estudantil de Design no Brasil, como eram os casos dos designers Victor Martz e Amanda Grigorio.

Na roda de conversa, além das referências apresentadas, os estudantes presentes compartilharam suas experiências enquanto pessoas negras no ambiente acadêmico e mercado de trabalho, procurando dar sentido menos superficial dos termos representatividade, visibilidade e empoderamento, identificado durante a conversa como termos esvaziados por uma série de fatores políticos.

Victor Martz é designer formado pela Faud USP, um dos organizadores do 25º Encontro Nacional dos Estudantes de Design em São Paulo e desenvolveu o projeto "O mundo mágico dos Anhangás – Material Didático Complementar para Educação Física no 5º ano do Ensino Fundamental que promove a diversidade sexual e a igualdade de gênero". 
O projeto foi baseado numa pesquisa profunda sobre as relações de gênero e sexualidade, e propôs um material didático complementar para as aulas de Educação Física especificamente, por ser uma ambiente conhecido por construção de inseguranças e bullying, além de ser de domínio hétero-masculino.
Amanda Grigorio é designer, artista e ilustradora de Curitiba que organizou e participou de dezenas de encontros estudantis de design. Além de ser boa em tudo o que ela faz, também construiu atividades e conversas acerca da nossa ancestralidade africana em contraposição à visão escravagista que se tem da participação negra na sociedade. Durante o R Floripa 2017, o Eu, diáspora trouxe uma leitura da história do racismo e um dos elementos de Unidade Cultural Africana, o Ubuntu.

Uma das conclusões decisivas para o andamento deste projeto durante o N CWB 2017 foi, sem dúvida, a necessidade de construir narrativas com nossos próprios termos e referências. Embora houvesse um consenso de que a as referências que tínhamos em comum dentro do campo do design não fossem ruins, ela se mostrou limitada para as conjunturas apresentados por todos na atividade. Além de representar a desconsideração da nossa contribuição intelectual e histórica para a existência deste ofício.

“A ‘cultura negra’ definida pelos padrões da sociedade dominante se limita à esfera do lúdico [ritmo, esporte, vestuário e culinária]. Enquanto isso, a atividade intelectual, científica, política, econômica, técnica e tecnológica é considerada atributos próprios às pessoas brancas, exclusivo da civilização ocidental.” — Abdias do Nascimento.

Naquela época essa ressalva foi feita exclusivamente sobre a ótica da representatividade — mais especificamente da ausência dela. Entretanto, o que as trocas nos eventos seguintes (R Brasólia e R Floripa, ambos em 2017) demonstraram, foi que a proposição da academia em ter seu ensino baseado numa visão de projeto e de mundo eurocêntrica — isto é, baseado na conjuntura socio-política e também cultural européia — detentora do caráter de se propor universal, impossibilita imaginar alternativas para as peculiaridades de países como este. O fator cultura se mostra fundamental para repensar as estruturas de ensino e soluções projetuais, e neste sentido, o termo representatividade (embora não seja o termo exato pra isso) ganhou fundamento, pois não se tratava em apenas ter pessoas negras nos espaços acadêmicos ou como referências de design, mas significava que a sua presença permitia a entrada de todo o arcabouço cultural intrínseco a nossa experiência diaspórica na sociedade, e as demandas específicas que essa vivência proporciona.

Foi quando eu descobri a afrocentricidade.

Afrocentricidade é, grosso modo, uma forma de ver e analisar o mundo colocando o povo africano, do continente ou diáspora, como agente histórico protagonista, enfatizando a sua perspectiva sócio-cultural ao analisar ou escrever a história. Ao contrário do eurocentrismo que se propõe universal diante de toda a diversidade cultural, imputando uma falsa homogeneização , a afrocentricidade se propõe partir da cultura como pontapé inicial. Este conceito/teoria foi fundamentado por Molefi Kete Asante, africano nascido nos EUA, e influenciou diretamente os estudos africanos em todo o mundo.
Saki Mafundikwa é designer, tipógrafo e diretor/fundador da primeira faculdade de design do Zimbábue ZIVA, sigla para Zimbabwe Institute of Vigital Arts (Instituto de Artes Vigitais do Zimbábue). O termo vigital art procura enfatizar o caráter de ser uma escola de artes visuais com ferramentas digitais, além de formar a palavra Ziva, que em Shona, uma das línguas nativas do país, significa conhecimento.O mestre Mafundikwa fez parte do início da pesquisa assim como Emory Douglas, muito embora eu não tivesse lido o seu livro Afrikan Alphabets até aquele momento. O livro é resultado de 20 anos de pesquisa sobre diversos sistemas de escritas afrikanos, desde ideogramas, passando por silabários e alfabetos propriamente. Sua ênfase na tipografia dos alfabetos afrikanos passou pela afrocentricidade, conceito defendido por ele em seu livro.

A afrocentricidade foi fundamental para entender a discussão do início da pesquisa. Foi a partir do reconhecimento e aplicação deste conceito, que pude estabelecer com maior discernimento as demandas que procurávamos sanar ao nos depararmos com os designers negros apresentados, e a importância de conhecê-los para nosso desenvolvimento dentro da área. O Cadê os pretos no design? passou a ser idealizado como pesquisa acadêmica oficial a partir deste discernimento: por identificar a necessidade de registro dessas proposições e resultados das análises, pois até aquele momento, elas não existiam. Não existiam pesquisas sobre designers negros excetuando as pesquisas sobre a contribuição tecnológica no período escravagista no Brasil.

Embora o projeto de iniciação científica que tentei fazer nunca tenha sido realizado de fato, o Cadê os Pretos no Design? proporcionou outras pesquisas e e projetos, e acabou acompanhando, mesmo que sem querer, o início das discussões design-raça que foram se estabelecendo nos últimos anos.

A partir do R Brasólia 2017 comecei a apresentar designers de áreas cujas não tenho muita propriedade pra falar, como é o caso da área de moda. Mas achei muito importante pelo menos apresentar pioneiras e o pouco que eu entendia do assunto para estimular que os participantes fossem atrás de referências que fizessem sentido pra eles. E no limite, deu certo. Várias pesquisas sobre designers negros pipocaram, e a área de moda não foi uma exclusividade:

O Wagner Silva é um grande destaque (o bonito palestrou na UXConf BR 2019, chiquérrimo), elaborou mais de uma pesquisa falando sobre designers negros nas áreas de gráfico e UX, além de ter formado um outro grupo de designers negros nas redes sociais voltados para a área de experiência do usuário e web design. Algumas das contribuições que ele fez foi através das threads A relação entre uma fonte tipográfica e o ativismo negro (clique aqui para ler), Neuland: Racismos e Estereotipografia (aqui) e o artigo aqui no medium Onde estão nossas referências negras em Design? (aqui).

O Rafael Botelho recentemente desenvolveu o projeto Design, Espaços e Afrofuturismo, que em suas palavras “propõe uma reflexão do design brasileiro a partir de seu local único, seu local cultural, que só pode se manifestar de forma legítima a partir da inclusão sincera das parcelas historicamente excluídas da nossa sociedade”.

A Dora Teixeira fez o projeto Identidades, que tinha como objetivo mapear e dar visibilidade para mulheres negras designers e artistas, através de um levantamento de dados online e uma discussão sobre racismo e machismo presente na sociedade contemporânea.

E esses são apenas alguns dos que chegaram até mim, pois provavelmente existem outros.


Como eu disse, essa pesquisa acabou dando origem a outros projetos. Na segunda parte deste artigo (vou publicar em breve), pretendo falar um pouco sobre como esse projeto se multiplicou e o que tenho planejado para ele a partir de toda essa construção, além dos relatos das pessoas que passaram e construíram as atividades desde o início.

Até breve.

edit: parte dois está no ar!

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